Quando alguém se inscreve como dador de órgãos após a morte — ou, no caso de Portugal, opta por não sair do registo de dadores — a decisão é geralmente vista como um gesto altruísta, “o maior ato de bondade entre os seres humanos”, diz o Serviço Nacional de Saúde. Mas nem sempre se imagina que esses tecidos possam seguir caminhos inesperados, para além da medicina, acabando por ser usados em procedimentos estéticos, do aumento de seios ou glúteos à reconstrução de membros depois de acidentes graves. Nos Estados Unidos, este tipo de utilização não é totalmente novo — já recebeu alcunhas como “BBL’s zombies” ou “cosméticos cadavéricos”, quando os primeiros artigos de imprensa exploraram o lado mais sinistro do processo. Recentemente, ganhou um novo impulso com o lançamento do Alloclae, que promete melhores resultados, embora com riscos acrescidos.
“É revolucionário”, afirma ao The Guardian, Douglas Steinbrech, cirurgião de uma das clínicas que oferece este tipo de intervenções, a Alpha Male. As pessoas que recebem Alloclae “não precisam de cirurgia. Não precisam de anestesia geral. Não têm período de recuperação nem a dor que lhe é associada”, disse ao jornal britânico. Minimamente invasivo, o método permite que quem não tem gordura própria — ou prefere não recorrer à lipoaspiração (para usar a própria gordura) — possa alterar contornos corporais. Para isso, a empresa que produz o Alloclae recolhe, trata e purifica o tecido adiposo cadavérico, que é depois injetado noutros doentes.
A procura pelo Alloclae tem crescido desde o início de 2025, principalmente entre mulheres à procura de aumento de seios ou glúteos. Mas os homens também têm mostrado interesse, motivados, acredita Douglas Steinbrech, pelos corpos musculados dos heróis dos filmes da Marvel e pela pressão das redes sociais para “otimizar” a aparência.
A primeira publicação da página do produto é de 13 de maio de 2025. “O futuro do contorno corporal chegou”, lê-se na descrição.
Nos circuitos da estética de luxo, o Alloclae começa a afirmar-se como uma vantagem discreta entre executivos de topo. A Business Insider falou com cirurgiões plásticos, sobretudo em Nova Iorque e na Califórnia, que, juntos, já tinham realizado cerca de 75 procedimentos com o produto. Caroline Van Hove, presidente da Tiger Aesthetics — empresa que fabrica o Alloclae e também comercializa implantes e preenchimentos tradicionais — revelou que o produto começou por ser disponibilizado a um grupo restrito de médicos no outono de 2024, alargando-se gradualmente a várias centenas de cirurgiões na primavera de 2025.
O retrato que emerge é revelador: empresários que antecipam o dia de trabalho, marcando consultas às seis da manhã para estarem, às sete, impecáveis, nos seus fatos, no escritório. Como sintetizou Caroline Van Hove: “Tudo girava em torno do Botox na hora de almoço”. E continua a girar, porque “esse ainda é o atrativo dos produtos estéticos médicos minimamente invasivos, que significa pouco tempo de recuperação.”
Tradicionalmente, a cirurgia plástica recorre à própria gordura do paciente: retira-se tecido de uma zona do corpo, geralmente através de lipoaspiração, que depois é reinjetado onde se pretende mais volume. Nos procedimentos femininos, isso incluía lábios, seios e glúteos; nos masculinos, peitorais, bíceps e na barriga da perna. “O enxerto de gordura é a melhor técnica que existe para preenchimento. A melhor técnica do ponto de vista de longevidade, para dar volume e para melhorar a qualidade dos tecidos, porque é com as células do próprio corpo”, explica ao Observador o médico especialista em Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética. No entanto, o diretor clínico da Clínica MyMoment e ex-presidente da Sociedade Portuguesa de Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética, Nuno Fradinho, ressalva que não conhece estes novos procedimentos em detalhe, e que os comenta com base nas informações disponíveis, na sua experiência e em raciocínio teórico, e não em dados clínicos validados.
“É como ter um armário com vários frasquinhos com gordura e só levar as prateleiras”
O Alloclae promete simplificar o que é atualmente um processo mais complexo da cirurgia de preenchimento. E o mais importante, além de servir para os doentes que não têm gordura própria disponível: “É, supostamente, definitivo”. “O objetivo disto será que, como a gordura do próprio corpo, seja definitivo”, diz Nuno Fradinho. Além disso é um método que não obriga a recolher gordura e que garante ser menos invasivo: “Simplificaria muito. Teoricamente, pode-se pôr logo no consultório como se fosse um preenchimento de ácido hialurónico: abre-se a seringa e injeta-se”.
A utilização de material de cadáveres neste tipo de procedimento pode ser “revolucionária”, como descreve o cirurgião da Alpha Male, mas não é pioneira. Um método anterior, o Renuva (fabricado por uma das maiores empresas de processamento de tecido humano do mundo, a MTFBiologics) seguia a mesma lógica: “Isto é uma matriz extracelular composta por colagénio, proteínas e fatores de crescimento, sem células vivas. Não é um enxerto de gordura de cadáver. As células de gordura são destruídas no processamento. O nosso corpo é que coloca lá as células vivas”, esclarece Nuno Fradinho.
As células de gordura não estão sozinhas, se não, ficavam [em estado] líquido. Elas vivem numa matriz de fibras que as mantêm nas devidas ‘prateleiras’. É como ter um armário com vários frasquinhos com gordura e só levar as prateleiras. No fundo, o que fazem é destruir os frascos de gordura, a gordura sai toda, e aquilo é injetado ao nível microscópico, como se fossem só as prateleiras. E depois o nosso próprio corpo é que vai voltar a pôr a gordura do nosso corpo em frasquinhos lá. Agora, não sei qual é o nível de segurança [dos procedimentos] em termos de rejeição do hospedeiro e transmissão de doenças.
O aproveitamento de tecidos humanos, vivos ou mortos, tornou-se comum em várias áreas da medicina. Ossos de cadáveres são usados em enxertos dentários. Em casos de queimaduras extensas, quando não há pele suficiente do próprio, aplicam-se aloenxertos temporários — pele de doadores ou membrana amniótica — para proteger a ferida até à cobertura definitiva. O tecido cadavérico também está presente em cirurgias do ligamento cruzado anterior (banda que liga o fémur à tíbia), como nos casos do atleta da NFL Aaron Rodgers e do jogador de futebol inglês Michael Owen.
Embora não esteja aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) — por ser comercializado sob uma designação diferente, o processo de aprovação difere do de implantes ou medicamentos como o Botox — nem pela Agência Europeia de Medicamentos, o Alloclae é “um passo em frente” dentro da sua categoria de procedimentos.
O que diz a FDA?
A regulamentação de produtos à base de células e tecidos humanos para implantação, transplante, infusão ou transferência segue uma “abordagem baseada no risco”. Isto é, não é necessária licença, aprovação ou autorização prévia da FDA, mas a sua comercialização é restrita a médicos licenciados, serviços e intermediários de distribuição de tecidos, centros de transplante (utilizadores finais) e outros profissionais de saúde.
Embora haja requisitos rigorosos de segurança e esterilidade — para reduzir riscos como contaminação e transmissão de doenças — essas regras não exigem o mesmo nível de estudos clínicos que os medicamentos.
Ao ser questionado pela Allure sobre a regulamentação do Alloclae, um representante da FDA afirmou que “as informações limitadas fornecidas não são suficientes para determinar como o produto deve ser regulamentado adequadamente”.
“Vai além da estrutura que envolve a célula: inclui a própria estrutura celular, [ou seja] já contém células. Mas surgem novas questões com este avanço”, explica Nuno Fradinho. “Quando não há células vivas, a reação do corpo é menos intensa e o risco de transmissão de doenças é menor.” Nos métodos anteriores, o risco era mais reduzido precisamente porque só continham colagénio — proteínas sem células vivas — e, por isso, não dependiam tanto da compatibilidade genética. “Aqui, no entanto, é um passo em frente: há células presentes, o que aumenta a imunogenicidade e a complexidade em termos de ADN.”
À revista Allure, o cirurgião plástico Darren Smith explicou que “para garantir a segurança, a quantidade de ADN por volume precisa de estar abaixo de um certo limite”, e que o Alloclae se mantém bem abaixo desse valor. Segundo o também cirurgião e investigador da Alloclae, Sachin M. Shridharani, os tecidos passam por uma triagem rigorosa após a morte dos doadores. Em seguida, são limpos e processados de acordo com protocolos específicos para remover contaminantes e reduzir ADN ou outras células que possam causar rejeição. A empresa acrescenta que está “a apoiar cinco estudos clínicos nos EUA, envolvendo cerca de 50 pacientes”, segundo a mesma publicação.
“É só um pequeno retoque”, mesmo para “tipos atléticos”
A esterilização do Alloclae é realçada nos folhetos que a Tiger Aesthetics distribui a cirurgiões e clínicos interessados, garantindo a segurança e a pureza do material, segundo o The Guardian. O processo de purificação é apontado como um dos principais fatores que tornam o Alloclae inovador, ao mesmo tempo que a empresa aborda as questões de compatibilidade entre dador e recetor. Ao contrário da maioria das doações alogénicas — provenientes de terceiros e que exigem critérios rigorosos para evitar que o sistema imunológico ataque o tecido —, o Alloclae é mantido abaixo do chamado “limiar de imunogenicidade” do ADN. Em termos simples, a gordura é limpa de quaisquer vestígios do dador original, reduzindo o risco de reação imunitária. Depois de purificada, é esterilizada, acondicionada em tubos e nasce o “Alloclae”.
“É só um pequeno retoque”, dizia um cliente de 68 anos que se preparava para receber 100cc [centímetros cúbicos] de Alloclae na parte superior dos peitorais, na clínica de Steinbrech, em Nova Iorque. Descrito pelo médico como pertencente ao “um por cento” mais alto de condicionamento físico na sua faixa etária, apresenta braços tonificados, costas largas e um peitoral definido. “É um problema comum”, explica Steinbrech ao The Guardian. “Tenho vários tipos atléticos, totalmente definidos, que não têm gordura [para lipoaspiração]”. Outra paciente, Samantha, 28 anos, recorreu ao procedimento após perder peso com medicamentos GLP-1, como o Ozempic. Inicialmente receosa quanto ao risco de infeções ou de transmissão de doenças pelo dador, acabou por optar pelo tratamento devido à pele flácida e às alterações no contorno corporal.
Alguns médicos expressam especiais reservas quanto à aplicação de Alloclae nas mamas. Steven Teitelbaum, cirurgião plástico em Santa Monica, não utiliza o produto atualmente, mas considera usá-lo para corrigir depressões no corpo. Nos seios, porém, é “muito cauteloso”: “Antes de testá-lo nas minhas clientes, gostaria de saber mais sobre o seu comportamento nos seios: quanto tempo dura? O que acontece quando se dissolve? Quais são as chances de alterações mamográficas e irregularidades palpáveis? Existe alguma maneira de removê-lo caso o resultado não seja satisfatório? Acho que ainda não podemos responder definitivamente a essas perguntas básicas”.
O Alloclae não se limita a retoques estéticos. Uma paciente de Shridharani, depois de um grave acidente de esqui que lhe danificou o fémur, quadril e glúteos, viu os exercícios e treinos falharem. Em maio de 2025, recorreu ao procedimento: “Deu logo contorno”, conta, “uma gratificação imediata que toda a gente procura.” Shridharani sublinha que o produto poderia reconstruir uma mama inteira após mastectomias, sem implantes tradicionais, e Aneesh Gupta, cirurgião plástico nos EUA, aponta ainda aplicações em cirurgias de afirmação de género.
“Seriam precisos muitos cadáveres”. Ou não
Da clínica Milénio, Ângelo Rebelo — que tem uma “quantidade impressionante de gordura congelada” em casos de pessoas que se precaveram —, garante que existem hoje várias alternativas, “algumas bastante seguras” mesmo para quem não tem gordura.
Isso parece mais uma invenção no mundo da estética alarmista que é para atrair pessoas a gastar dinheiro e a correr provavelmente graves problemas. Isto não tem tempo suficiente. Não me soa bem essa técnica, não vejo grandes vantagens, vejo mais problemas do que vantagens. Mas como em tudo na vida há que explicar melhor, há que fundamentar e há que provar cientificamente os resultados.”
“A transferência de gordura [tradicional] é imprevisível e temos dados”, diz o cirurgião plástico em Washington e Nova Iorque, Troy Pittman, à Allure. “O Alloclae é imprevisível e não temos dados”, acrescentando que ficará “mais tranquilo” quando houver “resultados de longo prazo publicados”. “Algo que parece ser a grande sensação agora pode fracassar num ano”.
Apesar de cético, o cirurgião plástico Ângelo Rebelo admite a possibilidade teórica: “Há casos, mas são raros. Depende da quantidade de gordura que a pessoa quiser pôr. O professor Jorge Fischer, um grande mestre da lipoaspiração, dizia que não havia ninguém que não tivesse um bocado de gordura para se tirar. Mesmo os magérrimos. Com a minha experiência ao longo dos anos acabei por concordar com ele.” Mas ressalva: “Se estivermos a falar de volumes grandes, como no aumento de glúteos”, a situação muda.
Para se fazer preenchimentos no corpo humano, seja de que região for, são precisos determinados volumes. E o material tem de ter uma determinada consistência. Há muitos anos usava-se colagénio — mais ou menos sintético — em estética para se fazer muitas coisas, mas eram volumes pequenos. Nunca se fez glúteos com colagénio. Continua a não fazer sentido. Se eu tirar 10 cm de gordura, não vou ter 10 cm³ de colagénio, nem pensar. Para fazer glúteos, nós usamos entre 100 a 300 c³ de gordura, em cada nádega. Agora imagine se quiséssemos arranjar uma proporção dessas de gordura para tirar colagénio, então seriam precisos muitos cadáveres”.
Ou “um cadáver gordo”, brinca Nuno Fradinho. “Podem retirar 5 litros e ainda assim ficar apenas com 10 cc, mas isso é um problema da empresa”. Como antevê o ex-presidente da associação, e confirma o jornal britânico, os custos são bem mais elevados: enquanto procedimentos com gordura própria do cliente (lipoaspiração e transferência) custam nos EUA entre 10 e 15 mil dólares (entre 8 e 13 mil euros), tratamentos de maior volume com Alloclae podem atingir os 100 mil dólares (cerca de 87 mil euros) apenas pelo material. Ainda assim, “se isto se comportar como a gordura do próprio corpo, será definitivo”.