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(A) :: A "meio gás", à espera de apoios e com "cansaço acumulado" de dois meses. Uma tempestade depois, como estão as empresas na Marinha Grande

A "meio gás", à espera de apoios e com "cansaço acumulado" de dois meses. Uma tempestade depois, como estão as empresas na Marinha Grande

Oito semanas depois, muito mudou após a passagem da Kristin na Marinha Grande. Muitas empresas pegaram no que tinham e montaram um "tetris" para a reconstrução: foi preciso improvisar para resistir.

Marina Ferreira
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Inês Lacerda
photography

O caminho já não está impedido, não é preciso contornar árvores caídas, postes elétricos com os fios espalhados no chão, nem painéis metálicos atirados para a estrada para chegar à zona industrial da Marinha Grande. Mas dois meses depois da tempestade Kristin passar por ali, as marcas ainda estão por todo o lado: nas vedações de ferro torcidas, nos muitos pavilhões com painéis em falta e no dia a dia de quem gere e trabalha nas empresas da região.

Na EIB, a fábrica de produção de borracha que o Observador visitou no dia 30 de janeiro, já não se ouve o ranger das traves de metal do pavilhão que sofreu mais danos e que deixou uma área de produção inteira a descoberto. Ouve-se agora uma grua a remover partes dessa estrutura que vergou no sentido das rajadas que chegaram aos 210 km/h. É preciso “destruir para depois recomeçar a construir”, afirma Tiago Coutinho, diretor da empresa que, após a intempérie, sofreu uma quebra de produção “na casa dos 60%”.

Tem planos para concluir o novo edifício em junho e ambiciona retomar a normalidade de funcionamento – equiparada à que existia antes da Kristin – até ao final do ano. “É um objetivo bastante ambicioso”, admite. E o maior teste ainda não foi feito. Quando o pavilhão estiver terminado vai ser preciso testar a máquina de três andares que abrigava – faz a “mistura” de borracha e custa entre “três a quatro milhões de euros”. Esteve semanas a céu aberto, exposta a vento e chuva. É incerto o que vai funcionar ou não, e quais os custos da reparação.

Quando procurou uma empresa para a reconstrução do pavilhão, Tiago conta que uma das prioridades foi assegurar uma nova construção mais resistente ao elemento que o destruiu: o vento forte. “A garantia que me foi dada por quem está a construir é que até 210 km/h de vento não tenho problemas nenhuns e que o edifício aguenta”, afirma.

Nas outras unidades da empresa também houve danos, sobretudo no telhado, mas para essas a opção foi “remendar” para ser possível começar logo a trabalhar. Cerca de uma semana e meia após a tempestade, já tinha o que podia em andamento, mesmo com chuva a entrar no edifício.

Foi preciso mudar muita coisa, incluindo as funções de muitos trabalhadores. Vários foram colocados em unidades diferentes daquelas em que trabalhavam antes da tempestade. Emílio Pontes, um dos mais de 100 trabalhadores da EIB, diz que as mudanças foram bem acolhidas por quem lá trabalha. “Foram meses complicados, meses de incerteza”, relata, mas diz que a garantia que lhes foi dada pela chefia sempre foi a de que a empresa “se vai levantar outra vez” e para isso era preciso colaborar.

A EIB recorreu ao apoio à manutenção dos postos de trabalho do IEFP. O caminho não foi pelo lay-off, “porque desde o início o objetivo era manter toda a gente”, diz Tiago Coutinho. “É preferível aguentar durante quatro meses esta situação, realocar as pessoas e tentar mantê-las do que estar a perder dois ou três meses a dar formação a pessoas que entrem de novo e que não sabem trabalhar”, diz.

Para já, as duas tranches do pagamento do apoio do IEFP foi o que chegou à empresa por parte do Estado. Além disso, vão recorrer à linha de financiamento para a reconstrução. “Estamos em conversações com duas entidades bancárias com as quais queremos trabalhar, mas o processo está muito moroso”, lamenta o diretor da empresa. “Tendo em conta o estado de calamidade a quantidade de perguntas que fazem não faz muito sentido, ainda por cima quando o Governo garante uma parte substancial dos empréstimos que eventualmente sejam precisos”, afirma.

Os bancos estão a demorar demasiado tempo a chegar-se à frente e eu não posso parar, não posso parar a reconstrução, nem posso parar a produção e era importante conseguirmos chegar a algum consenso”, confessa. Os últimos meses têm sido também a recolher orçamentos para entregar às seguradoras, mas o empresário diz que pelo menos tem existido abertura para adiantamentos da parte destas.

"Os bancos estão a demorar demasiado tempo a chegar-se à frente e eu não posso parar, não posso parar a reconstrução, nem posso parar a produção."
Tiago Coutinho, diretor da EIB, que produz borracha

Têm sido meses “a apagar os fogos todos” e mais de “olho na construção civil” do que Tiago estava habituado, mas a prioridade tem sido a de manter o negócio viável. “Para já estamos a manter os preços, mas não sei se será possível muito mais tempo”, admite. É que dois meses depois não foi só a tempestade que passou. “Por causa da conjuntura mundial, é possível que tenhamos de aumentar“, equaciona o empresário, tendo em conta os efeitos que a guerra no Médio Oriente tem na economia.

Do lay-off ao escritório improvisado: a receita a seguir “passo a passo” para reerguer o negócio

É também com o pano de fundo da “incerteza no mercado nacional e internacional” que Hugo Simões tenta recuperar o que restou da empresa de maquinação de peças para moldes que gere na Marinha Grande. Este é um novo fator que vem pesar ao “cansaço acumulado” dos últimos meses para conseguir “colocar a empresa em condições de voltar a laborar”.

No caso da Ardavi, que o Observador visitou há dois meses, não foi possível continuar a atividade após a tempestade Kristin. Há dois meses que o negócio está parado e os nove trabalhadores em lay-off.

Mas olha-se para os pontos positivos: “Já temos telhado, já não é mau”, diz Hugo. No momento em que falamos, dois trabalhadores de uma empresa externa colocam os remates no novo telhado. Curiosamente foi quando o bom tempo chegou que conseguiu ter as máquinas de vários milhares de euros protegidas dos elementos naturais pela primeira vez em mais de oito semanas.

Apesar de terem sido isoladas como se conseguiu depois da intempérie, com plásticos, o diretor da Ardavi admite que muitas delas devem ter problemas eletrónicos por causa da muita chuva que caiu nos últimos meses. “Tenho água a correr das ‘fichas’ elétricas”, admite, recordando as semanas de mau tempo em que tinha de resolver sucessivas inundações nas zonas do edifício que ficaram a descoberto. Mas os próximos dias é que vão ser decisivos para perceber finalmente o que está a funcionar.

Passo a passo, é assim que Hugo tem encarado o desafio da reconstrução: na semana passada a E-Redes arranjou-lhe o ponto elétrico que alimenta a empresa, esta semana termina a substituição do telhado e na semana que vem vai testar a parte elétrica, máquina a máquina. Confessa que tem receio do resultado, mas mantém a esperança de que algumas delas possam ser arranjadas para começar a chamar os trabalhadores que as operavam de volta.

Para já recorreu ao apoio à tesouraria do Banco do Fomento, com a pré-aprovação conseguida e diz estar também em vias de recorrer à linha para a reconstrução. Ainda não recebeu nada, sem ser um adiantamento da seguradora, mas vê como um “bom sinal” a pré-aprovação. “Neste momento temos de tentar tudo”, diz.

O próximo passo do plano é chamar os trabalhadores aos poucos. Apesar da aprovação do lay-off, Hugo diz que também esse apoio tem sido “incerto” por causa do recuo do Governo, que começou por anunciar este pagamento a 100%, publicando depois um decreto em que previa o pagamento a 80%.

“Estamos a processar os pagamentos deste mês como processámos no mês passado, com o lay-off a contar com os 100%”, afirma, contando que acompanhou todo o processo parlamentar depois de Bloco de Esquerda, Livre e PCP terem proposto uma alteração ao decreto publicado pelo Governo, para que o apoio passasse a prever o pagamento do salário ilíquido a 100%, com o limite de 2.760 euros — está na Presidência da República para promulgação.

“Já passaram dois meses e acho que essa medida deveria ter sido um bocadinho mais célere. O anúncio inicial e a não concretização no decreto-lei causou algum transtorno. Tivemos de nos ir adaptando ao que estava a ser decidido”, relata.

Para já a decisão foi recorrer a lay-off porque não tinha trabalho para dar aos funcionários, mas Hugo pondera, depois de retomar a atividade, recorrer também ao apoio de manutenção de postos de trabalho do IEFP. O objetivo é manter todos os trabalhadores, mesmo que os chame de volta gradualmente. Apesar de não estar com eles diariamente, têm ido visitar o local de trabalho quase todas as semanas. “Vamos conversando sobre o assunto e se houver novidades vamos comunicando com eles”.

"O anúncio inicial e a não concretização no decreto-lei causou algum transtorno. Tivemos que nos ir adaptando ao que estava a ser decidido."
Hugo Simões, sócio-gerente da Ardavi sobre o lay-off

Na Ardavi a destruição foi tal que nem a parte do edifício que albergava os escritórios sobreviveu. As secretárias estão ainda embrulhadas em plástico e não há computadores nem telefones no local. Nos últimos dois meses a empresa tem sido administrada a partir de um escritório cedido por outra empresa “de conhecidos” no centro da zona empresarial da Marinha Grande, tentando manter o contacto com os clientes e dando atualizações e previsões para a retoma da produção. No final, Hugo diz que foi a “boa vizinhança” empresarial e solidariedade que acabaram por fazer diferença.

O “tetris” logístico para pôr uma empresa com mais de 100 trabalhadores a funcionar após a tempestade

Uma das empresas vizinhas, a poucos metros, e que até contratava serviços da Ardavi antes de a tempestade interromper o funcionamento, era a TJ Moldes, que o Observador também visitou três dias após a passagem da Kristin.

Nessa noite de 30 de janeiro, decorria uma vigília dos trabalhadores para assegurar a segurança da fábrica, que tinha ficado com várias áreas a descoberto. Ali, a força do vento destruiu dois pavilhões inteiros. Continuam os dois sem telhado e algumas paredes. A solução foi mudar as máquinas – de entre as que foi possível reabilitar – para outros dois pavilhões e avançar agora com o projeto para a reconstrução.

Tem sido no meio deste “tetris” logístico que a máquina empresarial começou a arrancar. “Conseguimos garantir entre 50 e 60% da produção”, revela ao Observador Nério Jesus, um dos sócios fundadores da empresa. Tem de ir interrompendo a entrevista por causa das muitas chamadas que vai recebendo de trabalhadores, com perguntas e informações sobre peças recondicionadas que encontraram à venda para as máquinas danificadas e outros afazeres que se tornaram rotina nas últimas semanas.

A decisão da TJ Moldes em relação aos seus 110 trabalhadores foi até em contraciclo em relação à maioria das empresas afetadas. Na altura da tempestade tinham alguns funcionários em lay-off – “iam à empresa uma ou duas vezes por semana” – mas foram todos chamados para a reconstrução. Há quem esteja a produzir, mas muitos fazem trabalhos de limpeza e até construção civil.

André Silva é um deles, fala ao Observador a partir da plataforma elevatória que usou para colocar vigas de ferro no telhado de um dos edifícios em que as máquinas operam agora. “Há dois meses era operador de peças computadorizadas. Agora faço tudo um pouco, desde partir paredes, a endireitar ferro, a estar nos telhados, todo o possível e imaginário – conduzo máquinas, faço de pedreiro, faço o que for preciso”, afirma.

Nério Jesus diz que de uma forma geral os trabalhadores responderam bem a estes pedidos de mudança temporária de funções. Este é o apoio com o qual pode contar, garante.

E lamenta que não seja assim em todos os aspetos da reconstrução. Apesar de a empresa já ter conseguido alguns adiantamentos por parte das seguradoras, revela que os apoios estatais ainda estão muito atrasados. Para já a opção tem sido “adiantar o dinheiro com a expectativa de que o apoio chegue”.

“É uma asfixia [uma das unidades de produção] não estar a funcionar, era uma parte muito importante deste negócio.”
Nério Jesus, sócio fundador da TJ Moldes

E são precisamente as expectativas que confessa serem mais difíceis de gerir ao longo destas semanas. Aquelas que se formam em relação ao funcionamento das máquinas, e as que é preciso gerir junto dos clientes, sendo que há uma parte da produção – a injeção de plástico – que a empresa não pode garantir neste momento. Acontecia no edifício em que o vento partiu paredes de tijolos e onde a maioria das máquinas ainda não foram testadas.

Foi numa delas que ficou preso um molde da Porsche que era esperado na Alemanha. Alguns dias depois foi possível retirá-lo sem danos, com a empresa portuguesa a fazer questão de ir diretamente à sede de produção da marca alemã de carros para dar bom sinal de que estão comprometidos em assegurar o bom trabalho. Também um representante da marca veio a Portugal para perceber a dimensão dos danos.

Para já a solução passa por subcontratar empresas da Marinha Grande que também façam a injeção para conseguir dar resposta aos vários clientes da indústria automóvel, mas o desafio tem vindo a aumentar junto de quem compra o produto.

Sónia, uma das comerciais, que teve de se mudar de armas e bagagens com a restante equipa para a cave de um dos edifícios para conseguir trabalhar nas últimas semanas diz que a preocupação inicial dos clientes começou a ser substituída ao longo das semanas por impaciência e confessa ser uma tarefa árdua a de gerir as expectativas quando a própria empresa não consegue para já apontar uma data para a retoma total da atividade.

Nério Jesus aponta agosto como o mês provável para voltar a ter o setor da injeção a funcionar. “É uma asfixia aquilo não estar a funcionar, era uma parte muito importante deste negócio”, confessa.

O que vai dando bolhas de ar são as pequenas vitórias. Sónia recorda o dia em que conseguiram comprar um Starlink em Vigo para voltar a ter acesso à internet (entretanto reposta pela operadora móvel), mas também a convivência com os colegas nas últimas semanas, e comemora a saída da cave para uma sala em que se vê luz para aumentar a moral de quem tem está há dois meses em piloto automático a trabalhar numa sala improvisada.

“Estamos um pouco mais apertados, mas a tentar trabalhar como dantes”, afirma, revelando que com o avançar da reconstrução já existem dias em que não há trabalho para toda a gente.“O trabalho tem sido pouco a entrar e nós somos muitos, precisamos muito dele”, admite.

Junto à empresa, que serve os trabalhadores da zona, os relatos que chegam são de trabalho “a meio gás”, mas a moral vai-se mantendo, conta ao Observador a dona de uma roulote de comida. Regressou à atividade pouco depois da tempestade e aos poucos os clientes também voltaram. A estrada na qual está estacionada não era transitável há dois meses, mas agora volta a ser local de passagem e de paragem. Já não há entulho, fios ou árvores, mas todos os dias há trabalhadores e empresários a passar.