Vinte e duas pessoas começaram, esta segunda-feira, a ser julgadas num dos processos mais controversos dos últimos anos em França, que procura investigar uma alegada rede criminosa de “missões” violentas encomendadas para resolver rivalidades pessoais e conflitos empresariais. Tudo funcionaria a partir de uma loja maçónica nos arredores de Paris, a Athanor. De acordo com o Le Monde, entre os crimes em julgamento estão homicídio, tentativa de homicídio, agressões agravadas, extorsão e associação criminosa.
Entre os 22 arguidos, com idades entre os 30 e os 73 anos, estão quatro elementos ligados à DGSE (serviços secretos externos franceses), três polícias, incluindo um antigo quadro da DGSI (serviços secretos internos), seis empresários, um engenheiro, um biólogo, um segurança, um vendedor de armas e outros operacionais. Pelo menos 13 enfrentam penas que podem ir até à prisão perpétua.
O caso ficou conhecido como o “caso Athanor” e começou a ganhar forma em julho de 2020, depois de uma operação falhada nos subúrbios de Paris. Na altura, dois homens foram detidos perto da casa da empresária e coaching Marie-Hélène Dini, em Créteil, nos arredores de Paris. Estavam dentro de um carro roubado, com uma pistola carregada, facas, um martelo, um passa-montanhas e equipamento de vigilância. As autoridades francesas suspeitaram de imediato que os homens se preparavam para atacar Dini.
A própria vítima só se apercebeu da gravidade da situação quando a polícia lhe bateu à porta no dia seguinte e lhe disse que tinha sido alvo de uma tentativa de homicídio. Sem antecedentes criminais, Dini, hoje com 60 anos, foi confrontada pelas autoridades se estaria a trabalhar para a Mossad, os serviços secretos israelitas. Essa foi, aliás, a tese apresentada pelos homens envolvidos na operação.
Esta hipótese rapidamente caiu, uma vez que a empresária nunca trabalhou para a Mossad, nunca esteve em Israel e não tinha qualquer ligação ao universo da espionagem. A partir daí, as autoridades francesas começaram a desmontar uma estrutura criminosa mais complexa e organizada do que inicialmente parecia.
Uma falsa missão de Estado
Os dois homens detidos, Carl Esnault e Pierre Bourdin, acabaram por ser pressionados pelos investigadores a falarem, abrindo caminho a uma cadeia de contactos que incluía seguranças privados, antigos operacionais ligados aos serviços de informações e figuras próximas da maçonaria.
Os alegados cabecilhas são Jean-Luc Bagur, Frédéric Vaglio, Daniel Beaulieu e Sébastien Leroy. Segundo a acusação, Bagur e Vaglio, ambos ligados à loja Athanor, articulavam os pedidos. Beaulieu, antigo agente da DGSI, faria a ponte com o terreno. Leroy, segurança privado, é apontado como o homem que organizava as operações.
Segundo a acusação, o alvo não foi escolhido ao acaso. Jean-Luc Bagur, rival profissional de Marie-Hélène Dini no setor do coaching, terá querido afastá-la por causa de divergências ligadas à representação sindical da atividade. O Ministério Público sustenta que Bagur pediu a Frédéric Vaglio para tratar da “eliminação” da empresária, num contrato avaliado em cerca de 70 mil euros.
Esnault e Bourdin disseram aos investigadores que acreditavam estar a participar numa missão sensível ao serviço do Estado francês. Alegaram que lhes foi dito que a mulher que vigiavam era uma ameaça ligada à Mossad. Mais tarde, percebeu-se que ambos eram apenas vigilantes numa base da DGSE, os serviços secretos externos franceses, e não operacionais autorizados para missões clandestinas.
É este detalhe que ajuda a explicar a mecânica da alegada rede. A investigação aponta para um método repetido: usar a aura dos serviços secretos e da segurança do Estado para convencer operacionais de baixo nível a participar em ações ilegais. Segundo o Le Monde, vários dos arguidos alegaram ter sido “manipulados”, alguns disseram que acreditavam estar a agir em nome do interesse nacional e outros admitiram ter aceitado trabalhos privados.
“Beaulieu apresentava todos os contratos que me confiava como ‘operações muito especiais da DGSI'”, disse Leroy, garantindo que nenhum sabia que estava envolvido numa estrutura criminosa.
Por seu turno, Beaulieu contou, segundo o Le Monde, que Vaglio lhe disse que “era urgente ver-nos livre dela [Dini]. Esta senhora tinha de morrer e tinha de parecer um acidente”.
O caso que vai para além de uma tentativa de homicídio
O processo vai para além do caso de Marie-Hélène Dini. Os procuradores franceses acreditam que esta rede pode também estar ligada ao homicídio do piloto Laurent Pasquali, cujo corpo foi encontrado numa floresta depois de ter desaparecido em 2018. Segundo a investigação, citada pelo Le Monde, o crime terá sido motivado por uma dívida. Sébastien Leroy acabou por ser associado ao caso, embora continuem a existir versões contraditórias entre os arguidos.
Uma das peças centrais da investigação foi o testemunho de Daniel Beaulieu, antigo polícia e empresário na área da inteligência económica. Começou a falar aos procuradores no início de 2021 e descreveu um sistema em que recebia “missões” e as subcontratava. Foi também ele quem admitiu ter inventado a história da Mossad para dar credibilidade ao plano contra Dini e convencer os funcionários dos serviços secretos de que estavam a participar numa operação sensível. “A história do Mossad foi uma invenção minha para motivar Sébastien Leroy e fazê-lo acreditar que era um contrato de Estado”, disse.
Mais tarde, já em prisão preventiva, Beaulieu foi encontrado gravemente ferido na cela, num episódio considerado uma tentativa de suicídio. Ficou com sequelas graves e a memória deteriorou-se, complicando o processo.
Ao longo da investigação, o caso foi também revelando a degradação das relações entre os próprios membros da alegada rede. Os homens que se tratavam como “irmãos” passaram a acusar-se mutuamente de mentir, manipular e esconder informação. Beaulieu apontou o dedo a Vaglio. Bagur disse ter sido influenciado. Leroy insistiu que acreditava ter estado a trabalhar para o Estado.
O julgamento agora tenta esclarecer se existiu uma organização criminosa estruturada, quem mandava, quem executava e até onde foi a violência praticada. O jornal francês adianta que o processo deverá durar pelo menos três meses e meio e será decisivo para perceber se a loja Athanor foi apenas o ponto de encontro de “amigos” ou o centro de operações de uma rede violenta.