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Sexistencialismo sempre, dançar às vezes: 5 álbuns que levamos de março

O regresso de "Robyn", que nunca devia ter estado ausente; a eterna Kim Gordon; o star power de Harry Styles; a sabedoria de Bill Callahan; e a elegância de Mitski. Março, marçagão: valeu a pena.

João Bonifácio
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Inês Correia
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Março de 2026, um dos meses mais importantes de sempre da história da humanidade, o mês em que finalmente vi os Geese ao vivo, o que os deve ter deixado imensamente felizes. Também fez um calorzinho do qual, sejamos honestos, já sentíamos alguma falta. Também sentíamos falta de Robyn e de Bill Callahan e Kim Gordon e de tanta outra gente sobre a qual, infelizmente, não tivemos tempo de falar com tempo – gente que voltou com novos discos, surpresas, refrões, dissonâncias, beats. Os discos de março são isso: um resumo do regresso de gente de quem temos a melhor das impressões e de quem já tínhamos saudades.

“Sexistential”

Robyn

Há que ter respeito por quem é capaz de dizer, com o ar mais sério deste mundo, que a sua função na vida é “estar constantemente excitada”. Não com futebol, ou as lindas cores das florzinhas na primavera a desabrochar; a excitação de Robyn é sexual, do mesmo modo que a sua música contém, por norma, uma componente sexual (ou, pelo menos, altamente sensual). Claro que nunca é só sexo – é uma conversa (sim, uma conversa) sobre sensualidade, identidade, prazer e crise, uma conversa ditada por uma eletrónica emocional e excessiva.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/6RYCig4T2bEZu2gnM0OxRL?si=hmvvnbdoSF6T2bDEpXPzig

Não, não é mais uma versão de Body Talk, o disco que a fez explodir, que a tornou numa semi-estrela – e ainda bem que não o é: Robyn agora é uma quarentona e não tem qualquer problema em usar a sua música de clube para refletir sobre o que significa ser mulher, ter desejo e 46 anos. Aliás, se alguém nasceu para ter 46 anos foi Robyn. Se tiverem dúvidas é muito simples: deem um pulinho a Dopamine e vejam se resistem. A minha aposta é que: não, não resistem.

“My Days of 58”

Bill Callahan

Bill Callahan faz 60 anos a 3 de junho deste ano, o que nos poderia levar a concluir que ele é um valente mentiroso, uma desilusão tendo em conta que o homem fez carreira ao cantar as coisas que mais ninguém era capaz de dizer. O mais certo é que My Days of 58 tenho sido escrito quando Callahan chegou a essa idade – e tem, de certa forma, o peso de um disco de alguém que reflete sobre a idade, e o que é ser um homem quando a terceira idade se aproxima, como um carro descontrolado que nos atropela.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/497p1j3P9Xzlb7vXay7tNl?si=b1ecb288c49244a8

“My biggest fear is I stop trying/ to be the man I am supposed to be”, canta ele em The Man I Am Supposed To Be, antes de acrescentar “to take life seriously/ laugh in the face of death”. A melodia é bonita, o que é o caso, em geral, de todas as melodias do disco, mas há uma dissonância a atravessar os arranjos, os metais, as guitarras, algo que cria um pouco de desconforto. Isto ainda é a folk austera a que Callahan se tem dedicado nos últimos anos, mas suficiente desarranjo para impedir que o disco se torne demasiado melancólico ou aborrecido ou previsível. É, até, bem possível que seja o disco mais bem conseguido de Callahan em anos.

“Kiss All the Time. Disco, Occasionally”

Harry Styles

Milhões de humanos streamam diária e avidamente a música de Harry Styles, dezenas de milhares enchem cada pavilhão em que ele atuar para o ouvir cantar e, eventualmente, vê-lo dançar. Porquê? Bom, porque gostam da música dele. O que os faz gostar da música dele é mais misterioso – qualquer canção de Doechii ou Sabrina Carpenter me soa mais apetitosa em puros termos pop que todo este esforço que Styles faz para nos entreter.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/69BqE1V8Bzb9GCyeP1fFeR?si=57174ef33d18478a

Em termos futebolísticos costuma dizer-se, de objetos assim, que metem a carne toda no assador: há o mencionado disco, synth-pop, dance-pop e todas as variações possíveis de género-pop, só faltando talvez o género excelente-melodia-pop que até hoje ainda não ouvi Styles praticar. O bonito da pop é que podemos fazer de conta que somos o que não somos – Harry Styles gostava de ser David Bowie ou Freddie Mercury, alguém grandioso, inovador e carismático. Com muito esforço e trabalho conseguiu ser Harry Styles, o que deixará os seus pais muito orgulhosos.

“PLAY ME”

Kim Gordon

Kim Gordon, 72 anos de idade, está bem, muito bem, obrigado, fresca e solta como poucos seres humanos, e se por acaso tiverem alguma dúvida sobre a afirmação precedente, por favor, ouçam só a primeira faixa de PLAY ME, o seu mais recente disco. PLAY ME, a canção, é meia hip-hop, servida por um sample de metais excecional, e cheia de balanço. Os beats não param e GIRL WITH A LOOK, mais suja, é igualmente fascinante – e começamos a reparar que este é o disco mais acessível que Gordon fez, no sentido de atravessar mais facilmente o ruído, de cada beat ser mais preciso, de ela estar cada vez mais à vontade nesta linguagem que é cada vez mais sua.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/04tCM2W8CvOXQBy4bBHlXk?si=15ce6980b5f34004

Não conseguem imaginar BLACK OUT a ser o single de estreia de uma qualquer ninfeta de 19 anos? Eu consigo – e daí, fica perfeita na voz puída de Gordon. Algo nela foi feito para isto, este mundo de beats ao lado, de excesso de ruído, de demasiada tecnologia, de excesso de estímulo. Kim Gordon não anda aqui para oferecer consolo a ninguém – mas, caraças, consegue dar-nos muito prazer com muita facilidade.

“Nothing’s About to Happen to Me”

Mitski

Em 2018, Mitski viu Be the Cowboy, o álbum que lançara esse ano, ser considerado o disco do ano pela Pitchfork. Foi, talvez, o grande momento de consagração de uma nova geração de cantautoras, a mesma de Lucy Dacus ou Phoebe Bridgers, embora se possa argumentar que o seu disco anterior, Puberty 2, era superior (além de que continha a admirável Your Best American Girl).

https://open.spotify.com/intl-pt/album/2M9F3AsbWy7n4LwmJ8pqEu?si=68a561be37bb4971

Mitski é uma estrela, não ao nível das Taylor Swifts deste mundo, mas uma estrela dentro do universo cantora-compositora-pop-rock respeitável e é, por esta altura, razoavelmente claro que não sabe fazer uma má canção. A minha queda, no que diz respeito ao seu mais recente lançamento, são as canções mais country, com slide-guitar, como Cats (uma canção que assume imensa importância no disco). De resto, ela sabe a conversa toda sobre isolamento, relações falhadas, a miséria (nossa e dos outros) e sabe como entregar cada linha com humor negro que impede o disco de cair num miserabilismo monocórdico.