A menos de um mês para o centenário de Isabel II, uma nova biografia da monarca com o reinado mais longo que o Reino Unido já testemunhou promete revelar detalhes dos bastidores da realeza. Baseado em “60 anos de observação e pesquisa” do biógrafo, historiador e especialista em realeza Hugo Vickers, Queen Elizabeth II é um retrato íntimo do último século da família real britânica, que conta pela primeira vez sobre como o príncipe Filipe viveu oito anos com um cancro de pâncreas, a forma como Isabel II lidou com André Mountabatten-Windsor e como achou que o filho “não se comportou de forma inapropriada”, a opinião da Rainha sobre o vestido de noiva de Meghan Markle e ainda como a família recebeu as publicações explosivas sobre Diana e Carlos no início dos anos 1990.
“Tive a sorte de conhecer a Rainha em 1968, quando ela veio visitar o Memorial para o Rei George VI, na Capela de St. George. Quando penso naquele dia, tenho a sua imagem fixa na minha mente, como uma mãe jovem de 42 anos, com os cabelos ruivos e um casaco azul, e o seu jovem filho, o príncipe Eduardo, a dar-lhe a mão. Durante um período de 55 anos, devo tê-la encontrado mais de 40 vezes. Às vezes eram reuniões formais, mas outras vezes havia a chance de conversar”, revela Vickers, num dos excertos publicados pelo Daily Mail nos últimos dias. O livro chega às livrarias britânicas a 8 de abril, mas alguns segredos já foram desvendados e é possível conhecer as visões da monarca sobre alguns dos membros mais polémicos da realeza.

Príncipe Filipe: o cancro secreto e a “separação” da Rainha
Quando em 2011 Isabel II decidiu apanhar um helicóptero para visitar o príncipe Filipe no hospital, depois deste ter passado por uma angioplastia e a colocação de um stent no coração, Hugo Vickers suspeitou de que a Rainha poderia “ter medo de perder” o marido. Para o autor da biografia da monarca, este foi o primeiro sinal de falha na saúde do duque de Edimburgo. “A sua equipa médica quase o perdeu duas vezes”, descreve, numa passagem do livro em que recorda quando, aos 99 anos, foi internado em Londres para exames, e depois operado novamente. Contudo, a maior revelação está relacionada com um diagnóstico feito durante o aniversário de 92 anos de Filipe, em 2013, passado no hospital a recuperar de uma cirurgia exploratória no abdómen. “Os médicos detetaram uma sombra no pâncreas, e cortaram-no perto do estômago. O veredicto foi um cancro de pâncreas não operável“, escreve Hugo Vickers, que afirma que havia uma ideia de que o duque de Edimburgo poderia “não ser mais visto em público”.
Naquele mesmo ano, Vickers recorda um episódio que nunca se tornou público: o dia em que a família pensou que a Rainha poderia morrer. No final de 2011, tanto Filipe como Isabel apanharam uma gripe, e a monarca acabou por desenvolver uma pneumonia, pelo que faltou o serviço de Natal em Sandringham pela primeira vez em 30 anos. “A Abadia de Westminster, que deveria ser avisada no caso de uma morte, entrou em pânico a ponto de se certificar de que tinham capas pretas suficientes para um funeral”, escreve o historiador. “O príncipe Carlos estava preocupado com a iminente possibilidade de se ver repentinamente como rei. Dizia-se que ele ansiava por assumir o trono, mas, como era de se esperar, a realidade intimidou-o.” Certo é que a Rainha recuperou-se e em fevereiro foi vista em público numa celebração na igreja em Windsor.

Vickers descreve ainda como a reforma de Filipe, que se afastou dos compromissos públicos em 2017, também ditou uma certa “separação” da Rainha. “Ele era mais feliz em Wood Farm, na propriedade de Sandringham, e esse lugar tornou-se seu pelos próximos dois anos e meio. Gostava de conduzir a carruagem, lia vorazmente e pintava. De tempos em tempos, a Rainha viajava de comboio até Norfolk para passar o fim de semana”, descreve o historiador, que diz que a monarca deu-lhe “rédea solta. De certa forma, eles haviam-se separado.” A reaproximação aconteceu durante a pandemia de Covid-19. “A Rainha e o duque foram transferidos para quatro aposentos no castelo [de Windsor], cuidados por uma equipa reduzida de 22 pessoas. Entraram num rigoroso isolamento, apelidado jocosamente de HMS Bolha pelo Mestre da Casa Real, o Almirante Tony Johnstone-Burt. Ninguém tinha permissão para entrar na Ala Superior do castelo e não havia damas de companhia presentes.”
Vickers também dá detalhes sobre alguns momentos em que a saúde mental de Filipe mostrou-se frágil. Em 2019, chegou a haver rumores de que o duque de Edimburgo não estava bem — e o historiador relata episódios de falta de memória. Já em 2021, a situação deteriorou-se. “Ele não queria chegar ao aniversário de 100 anos, particularmente pela agitação que eventos como esse podem causar.” A 17 de fevereiro, Filipe foi internado em Londres. Quando regressou ao castelo, tinha uma equipa de enfermeiras disponível 100% do tempo. De acordo com Vickers, terá “trabalhado até o fim”. “Na última noite de sua vida, despistou as enfermeiras, caminhou arrastando os pés pelo corredor com o seu andador, serviu-se de uma cerveja e a bebeu no Salão do Carvalho. Na manhã seguinte, levantou-se, tomou um banho, disse que não se sentia bem e partiu silenciosamente. Nessa altura, ele já convivia com cancro de pâncreas havia quase oito anos – muito mais tempo do que o habitual após o diagnóstico.”
Meghan: “A americana” que usou um vestido de noiva “branco demais”
A visão de Vickers sobre a chegada de Meghan Markle à realeza é, à partida, bastante crítica, como sugerem os excertos publicados pelo Daily Mail. O autor assinala que Harry “nunca seria autorizado a casar com uma divorciada” no início do reinado de Isabel II, porém o casamento foi recebido numa “geração mais tolerante e jovem”. Vickers destaca ainda algumas das “regras tácitas” da realeza que foram quebradas com Meghan. “Ao contrário de noivas anteriores, ela foi convidada para se juntar à Rainha e à família real em Sandringham para o Natal de 2017, e participou da celebração na igreja ao lado da família.”
De acordo com o historiador, durante a quadra festiva, Meghan foi recebida pela equipa de Sandringham de forma “alegre” e recebeu a alcunha “Sparke”, um trocadilho com o seu apelido e a palavra “brilho”. Contudo, o príncipe Filipe não estava convencido, e referia-se à noiva do neto como “a Americana”. Já William e Carlos também tinham ressalvas sobre o casamento. Para o irmão de Harry, era preciso mais tempo para que o casal se conhecesse melhor antes de dar o nó — o que terá contribuído para o desentendimento entre os irmãos — enquanto o agora Rei tinha a mesma postura do próprio tio, Lorde Mountbatten, ainda antes de conhecer Diana: “Divirta-se, mas não se case com ela”. A Rainha terá sugerido a Harry que esperasse pelo menos um ano antes do casamento, mas o neto não seguiu o conselho.

A cerimónia, transmitida em direto na televisão, não terá sido do total agrado da Rainha. Houve questões de protocolo a resolver, como o facto de Meghan desejar ser levada ao altar pela mãe, Doria Ragland, o que acabou por não acontecer (Carlos acompanhou-a durante parte do caminho pela Capela de St. George). De acordo com o livro, Isabel II também não gostou do vestido de noiva: “Era muito branco e tinha ombros desajeitados”. Uma fonte próxima disse ao autor que a atitude da monarca perante o casamento foi: “Apenas sigo em frente. Não é da minha conta”.
Vickers é crítico também quanto à forma como Harry e Meghan lidaram com a apresentação dos filhos ao mundo. O autor escreve, por exemplo, que a antiga atriz “é a primeira mulher a dar à luz antes de entrar em trabalho de parto” — isto porque Harry anunciou o nascimento de Archie à imprensa apenas 50 minutos depois do Palácio de Buckingham comunicar que Meghan havia entrado em trabalho de parto, mas afinal o bebé já tinha nascido horas antes, pela manhã. Já o nome da segunda filha, Lilibet, para Vickers é uma escolha “insensível”, por ser “uma alcunha íntima da Rainha, usada apenas por membros próximos da família”.
O livro continua a descrever alguns momentos da vida pós-casamento de Harry e Meghan, deixando transparecer uma certa “tristeza” no príncipe. “Em outubro de 2018, visitaram a Austrália numa digressão que foi tida como bem sucedida, mas cada discurso de Harry foi vetado por Meghan“, escreve Vickers. No serviço do Dia do Commonwealth, na Abadia de Westminster, em 2018, “Harry parecia desconfortável”, enquanto no dia de Páscoa o príncipe parecia “um homem que mordeu mais do que consegue mastigar”.
O historiador descreve ainda as negociações para a saída do casal da realeza. Vickers confirma a versão que já havia sido explorada por outros biógrafos, de que Harry desejava um acordo diferente. “Queria um metade dentro, metade fora, onde ele poderia auto-financiar-se, mas continuando a trabalhar para a Família Real“, explica o autor. As reuniões terão sido conduzidas em Sandringham no início de 2020 pelos secretários da Rainha, de Carlos e William, Sir Edward Young, Sir Clive Alderton e Simon Case. A proposta final era manter tudo como estava ou sair definitivamente da realeza. Depois da decisão do casal, Isabel II terá confidenciado a uma pessoa próxima: “E agora Harry decidiu sair para quê? Para ser cuidador do Archie”. Ainda sobre a vida pós “Megxit”, como a imprensa britânica chamou o movimento de Harry e Meghan, Vickers considera que o casal não teve sensibilidade ao deixar a entrevista “repugnante” com Oprah ser emitida apenas dias depois de um internamento grave do príncipe Filipe, e critica o timing “cínico” da publicação do livro de memórias do príncipe, Na Sombra, meses depois da morte da Rainha.
André: o filho mimado que “não se comportou de forma inapropriada”
Por outro lado, André Mountbatten-Windsor e Sarah Ferguson estavam numa posição muito mais privilegiada, apesar do dano reputacional causado à realeza britânica nos últimos anos devido à relação com Jeffrey Epstein. Não é segredo que o terceiro filho da Rainha foi também muito mimado, facto que Vickers confirma na biografia de Isabel II. Contudo, o historiador dá alguns pormenores que corroboram a relação próxima entre mãe e filho e que podem justificar a posição muitas vezes protetora da monarca diante das ações reprováveis do antigo príncipe.
Um momento em particular que exemplifica esta “preferência” é a comparação entre os casamentos de Harry e Meghan e Eugenie e Jack Brooksbank. O casal deu o nó cinco meses depois dos duques de Sussex, numa cerimónia que de acordo com Vickers, foi “mais feliz”. “Não atraiu tanta publicidade, e o duque de Iorque estava incomodado por não ser transmitido nos principais canais de televisão, apesar de ter conseguido persuadir uma empresa a filmar”. O historiador escreve que Brooksbank ficou um pouco preocupado com a insistência de André para que houvesse uma procissão de carruagens por Windsor, “com medo de que ninguém fosse às ruas para os cumprimentar. Mas Windsor adora uma procissão e havia uma boa multidão”, assinala. O casamento também teve membros mais jovens da realeza, que “foram excluídos do casamento dos Sussex”. Como resultado, a Rainha terá dito, depois do dia de celebrações: “Que dia maravilhoso. Que casal adorável”.
Sobre Sarah Ferguson, Vickers nota que a Rainha preferia a mulher de André à outra nora, Diana. A opinião de Filipe era um pouco mais contida: “Bem. Ele a escolheu”, comentou o duque de Edimburgo. O historiador recorda uma das passagens mais polémicas do casal, já depois da separação estar certa. Isso porque, mesmo depois do anúncio de que os dois já não eram um casal, em março de 1992, Sarah foi convidada para o verão em Balmoral. No dia 20 de agosto, uma quinta-feira, a família teve acesso ao mesmo tempo aos jornais que traziam na capa as fotografias da duquesa em topless com os pés a serem beijados pelo seu “conselheiro financeiro”, John Bryan. “Um amigo disse que André achava que a cabeça de Fergie havia sido colada no corpo de outra pessoa”, assinala Vickers, confirmando a tendência do ex-príncipe de se apoiar na narrativa de fotomontagens, desculpa que usou em 2019 para justificar a fotografia em que aparece abraçado a Virginia Giuffre e que Ghislaine Maxwell surge ao fundo (uma imagem que, até agora, André nunca confirmou ser verdadeira).

De acordo com as memórias da própria Sarah Ferguson, descritas no livro, depois dos jornais serem entregues na propriedade da realeza em Balmoral “Fergie foi ver a Rainha”, que estava “furiosa”. “A duquesa deixou Balmoral envergonhada, após o que o príncipe Filipe passou a ter uma visão implacavelmente negativa de sua nora, com quem estava em conflito. Assim como Diana, ela recebeu diversas cartas dele ao longo dos anos, no caso dela, bem mais severas”, revela Vickers.
Sobre a relação com Epstein, que vem sendo escrutinada pela imprensa desde 2011, assim como a atuação de André como enviado comercial do Reino Unido, Vickers assinala que “os problemas de André causaram à Rainha estresse considerável durante os últimos anos da sua vida”. Contudo, o autor assinala que Isabel II preocupava-se não com os possíveis crimes cometidos, mas com o futuro do agora ex-príncipe. “Uma ideia, desenvolvida no ano final da sua vida, era criar uma fundação para André administrar“, revela Vickers.
Mesmo depois da entrevista ao Newsnight, da BBC, em 2019, que resultou na saída de André das suas funções como membro sénior da realeza, e ainda depois do então príncipe deixar de usar os seus títulos reais publicamente, em janeiro de 2022, Isabel II ainda acreditava que o filho “não se tinha comportado de forma inapropriada”. De acordo com o historiador, o acordo com Giuffre em 2021, que o acusava de abuso sexual por uma relação que terá ocorrido em 2001, quando ela tinha 17 anos, no apartamento de Ghislaine Maxwell em Londres, só foi firmado para não prejudicar o Jubileu de Platina da Rainha. Na altura um valor considerável de dinheiro foi pago, pela coroa, à mulher e à sua instituição de caridade, sem que o então príncipe assumisse nenhuma culpa. “É pena que ela não tenha vivido para presenciar o desfecho“, assinala Vickers.
Diana: a “verdadeira terceira pessoa” no casamento com Carlos
Noutro excerto publicado pelo Daily Mail, o autor da nova biografia de Isabel II desmente a versão amplamente divulgada pela imprensa sobre o fim do casamento entre Carlos e Diana, e diz que, afinal, não era Camila “a terceira” pessoa no casamento. Tal como outros biógrafos reais já haviam escrito, Vicker confirma a história de que Diana seria na verdade uma pretendente para o príncipe André. “A verdade é que ela não conhecia Carlos, chamava-o ‘senhor’ até o dia do noivado”, destaca o autor da biografia de Isabel II. No livro, Vickers recorda momentos em que Carlos fala das suas dúvidas sobre o casamento, ainda antes de firmar compromisso com Diana. Num jantar durante a semana de Ascot, por exemplo, terá perguntado a uma pessoa próxima se seria possível a alguém “apaixonar-se depois de se casar”. Já a poucas semanas do casamento, terá mesmo confessado a um amigo, com “lágrimas nos olhos”: “Não tenho a certeza que consigo lidar com isto”. “O amigo disse que não era tarde demais para abandonar o plano. A isto, Carlos respondeu: ‘Receio que seja’”, escreve Vickers.
O historiador descreve ainda como a falta de interesse de Carlos evoluiu para uma infelicidade de Diana, ao mesmo tempo que a princesa enfrentava uma bulimia. De acordo com Vickers, a Rainha acreditava que o transtorno alimentar de Diana era anterior aos problemas no casamento — apesar de muito se especular sobre como a relação com Carlos poderá ter afetado a saúde mental da mulher. Contudo, a visão do historiador é a de que foi Diana a trair primeiro o marido.
Vickers explora com detalhes a relação extraconjugal de Diana com um guarda-costas real, Barry Mannakee. A primeira vez que a imprensa britânica soube do possível romance foi através de gravações do terapeuta da fala da princesa, Peter Settelen, que registou uma série de “entrevistas” no início dos anos 1990 durante sessões para preparar Diana para enfrentar publicamente o divórcio de Carlos. As imagens só se tornaram públicas no início dos anos 2000, e num dos trechos, Diana diz: “Aos 24 anos apaixonei-me perdidamente por alguém que fazia parte disto tudo. Isso foi descoberto e ele foi afastado e, mais tarde, morto”.
Mannakee fez parte do esquadrão de proteção real e destacado como guarda-costas pessoal de Diana em 1985. Contudo, um ano depois, foi transferido para o grupo de proteção diplomática de Londres. Na biografia da Rainha, Vickers descreve como um incidente durante umas férias de Diana e Carlos resultou na aproximação entre a princesa e o seu segurança privado. O príncipe terá atingido Diana por engano com um isco de pesca, e terá sido Mannakee a acompanhar a princesa à casa. “Ela não precisava de ir ao hospital, mas precisava de simpatia — e Mannakee deu-lhe isto.” O historiador descreve como aos poucos a equipa de segurança do casal percebeu a aproximação entre ambos, até o ponto em que decidiram confrontar a princesa numa “conversa difícil”, mas que esperavam que pudesse “resolver tudo de forma discreta”. Diana terá negado o romance no início, mas depois chegou a admitir a relação. “Alarmados, os oficiais apontaram que Mannakee — que havia se casado aos 19 anos, em 1966 — tinha mulher e duas filhas. Continuar essa relação inapropriada, eles alertaram, poderia representar um perigo para ela e para a sua reputação. O affair continuou”.
De acordo com Vickers, Carlos não sabia da relação. Quando Mannakee foi transferido, o príncipe chegou mesmo a pedir para que o guarda-costas regressasse, tamanho era o desgosto da mulher. Contudo, depois da equipa de segurança assumir que, se Mannakee voltasse, todos os outros decidiriam deixar as suas posições, o futuro Rei percebeu que, afinal, Diana poderia estar envolvida romanticamente com o guarda-costas. “Foi o caso Mannakee que levou Carlos a concluir que o seu casamento havia ‘rompido irremediavelmente’, como ele disse a Jonathan Dimbleby diante das câmaras em 1994. Percebendo que o casamento não tinha futuro, acabou por reatar o seu relacionamento com Camilla.” Vickers vai além e reconfigura a famosa entrevista de Diana no programa Panorama, da BBC. “Quando disse a Martin Bashir que havia três pessoas no casamento, havia de facto três — mas a terceira pessoa, no início, era Mannakee, não a senhora Parker Bowles.”
A biografia ainda explora ao detalhe a forma como a realeza lidou com o livro de Andrew Morton lançado em 1992, uma biografia que na altura foi publicada como “não autorizada”, porém, mais tarde, revelou-se que a princesa deu secretamente extensas entrevistas ao autor. “Uma pessoa que não foi enganada, no entanto, foi o príncipe Filipe, que leu o livro em voos de e para o Canadá em julho, e detetou a mão de Diana. A sentir que muito estava a ser revelado, não ficou impressionado”, revela Vickers. “Houve uma reunião complicada em Windsor, onde os príncipes de Gales discutiram o tema com a Rainha e o príncipe Filipe. A versão de Diana era de que Carlos nunca se quis casar com ela e que a sua posição era intolerável diante de Camila. Houve uma conversa sobre como ela poderia envolver-se com outros amantes se o casamento não funcionasse. Depois da reunião, a Rainha manteve a sua neutralidade, enquanto o príncipe Filipe escreveu para Diana”.
Terão sido seis as cartas que o marido de Isabel II direcionou à antiga nora, e cinco respostas, todas entre 18 de junho e 4 de outubro de 1992. “Nas cartas, Filipe diz que espera que ela esteja ciente que Carlos fez um grande sacrifício por ela, que ele e a Rainha nunca estiveram satisfeitos com a relação do filho com Camila e que ele não recomenda que ninguém assuma um amante“. Vickers comenta também o tom inapropriado de uma das cartas, que a imprensa publicou no início dos anos 2000. “De facto, ele não conseguia entender como alguém poderia preferir Camila ao invés de Diana, o que ele escreveu de forma sarcástica”.

Para Vickers, a biografia de Andrew Morton só foi publicada porque Diana queria “dar a sua versão” antes da gravação de uma conversa íntima com James Gilbey (caso que ficou conhecido como Squidgygate) vir à tona. O autor também diz que a princesa só manteve a sua função como membro sénior da realeza depois da separação para continuar a ter o direito de residir no Palácio de Kensington. E relata ainda a visão privada da princesa Margaret, que lhe terá dado a sua opinião no final de 1993: “O problema era que ele a minava [Diana] constantemente desde o início e não lhe dava nenhum apoio… Depois, ele começou a criar dificuldades por causa dos filhos, o que foi a causa de todos os problemas no ano passado… Não sei porque é que ela queria voltar [para Sandringham]. Eu tinha muita vontade de lhe dizer para ir embora. Era a mesma coisa comigo e com Tony [Lord Snowdon]. Ele sabotou-me.”
Sobre a morte de Diana, Vickers justifica que a Rainha permaneceu em Balmoral “para confortar e dar força aos netos”, mesmo com o clamor popular de que deveria regressar a Londres. Isabel II só fez um pronunciamento cinco dias depois do acidente em Paris. O autor também comenta as teorias da conspiração envolvendo o caso — especialmente a do próprio Fayed, que dizia que a princesa havia sido assassinada a pedido do duque de Edimburgo. “Numa longa conversa com o Príncipe Filipe em Hampshire, no verão de 2000, ele disse-me que considerava Mohamed Fayed ‘um sujeito repugnante’.” O autor também desvenda o dia-a-dia da realeza depois da morte da princesa — uma atitude “business as usual”. Vickers recorda, por exemplo, que Isabel II ficou surpreendida quando o seu conselheiro de corridas de cavalos lhe disse que considerava inapropriado realizar corridas naquela semana. “Patrick Mitchell, administrador de Windsor, foi até Balmoral. Disse-me: ‘Havia churrascos e longas caminhadas, e o Príncipe Harry gostou particularmente de dirigir o Discovery.’”