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Irão discute portagens em Ormuz e retirada do Tratado de Não Proliferação. O que aconteceu no último dia de guerra?

Trump voltou a ameaçar "obliterar" os complexos energéticos iranianos caso as negociações não cheguem a bom porto, mas Teerão declarou que os seus esforços estão focados na defesa, não na diplomacia.

Madalena Moreira
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A guerra já cumpriu um mês inteiro de ataques, mas Donald Trump e Benjamin Netanyahu não dão sinais de abrandar a ofensiva. Esta segunda-feira, o Presidente norte-americano declarou que os Estados Unidos ainda têm 3 mil alvos para atacar. O primeiro-ministro israelita não apresentou números, mas assegurou que, mesmo com mais de metade dos objetivos cumpridos, continua a haver uma guerra para travar.

Esta posição israelo-americana traduziu-se, no início da quinta semana de guerra, numa continuação dos padrões das semanas anteriores: ataques contra infraestruturas militares e industriais, respostas do Irão contra infraestruturas energéticas. Contudo, esta segunda-feira revelou que o conflito tem potencial para se alargar ainda mais no espaço: foi feita uma nova interceção no espaço aéreo da Turquia, os Houthis são agora um ator no conflito, milícias iraquianas foram mobilizadas em bases iranianas e uma milícia ligada ao regime iraniano reivindicou ataques contra a Síria e a Jordânia — ataques que foram desmentidos.

Já no campo diplomático, o Paquistão reforçou a sua disponibilidade para mediar um fim do conflito, mas as posições de Washington e Teerão permanecem distantes. Trump falou em “grandes progressos”, enquanto o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão declarou que os esforço diplomáticos são “excessivos e sem lógica”. Para além do foco na estratégia militar, Teerão aproveita ainda o conflito para reformular a sua posição na região. Esta segunda-feira, o Parlamento discutiu um novo enquadramento legal para o Estreito de Ormuz, com a aplicação de portagens, e ainda a possibilidade de retirar o país do Tratado de Não Proliferação Nuclear.

Pode recordar os acontecimentos de domingo aqui.

Estes foram os desenvolvimentos na guerra no Médio Oriente ao longo desta segunda-feira, dia 30 de março:

No Irão

  • Os ataques israelo-americanos visaram duas bases em Shiraz, utilizadas pelo regime iraniano para lançamento de mísseis.
  • O Exército israelita atacou bases da milícia Basij e das autoridades iranianas no Curdistão.
  • Israel e Estados Unidos continuaram ainda os ataques contra o complexo industrial iraniano, que inclui infraestruturas de construção, montagem e armazenamento de drones e mísseis. Nos últimos dois dias, o Exército israelita terá atingido 40 infraestruturas industriais.
  • O Exército israelita também atacou a Universidade Iman Hossein em Teerão, utilizada pela Guarda Revolucionária, para desenvolver armas químicas (no centro de química), mísseis balísticos (no centro de tecnologia e engenharia) e o programa nuclear (no centro de física).
  • Os ataques combinados atingiram uma refinaria de petróleo no nordeste do Irão, em Tabriz.
  • As forças israelitas atingiram um complexo de defesa aérea do Irão em Nowshahr, perto do Mar Cáspio.
  • Israel reclamou a destruição de 80% dos sistemas de defesa anti-aérea do Irão.
  • Donald Trump, em entrevista ao Financial Times, declarou que os ataques israelo-americanos já destruíram 13 mil alvos e que resta atacar outros 3 mil.
  • A Casa Branca reclamou a destruição de 150 navios da Marinha iraniana desde o início da guerra incluindo 92% dos “navios maiores”.
  • O Parlamento iraniano apresentou uma proposta para um novo enquadramento legal no Estreito de Ormuz, que inclui a imposição de portagens a todos os navios.
  • O Parlamento também está a analisar a possibilidade de retirar o Irão do Tratado de Não Proliferação Nuclear. “Qual é o benefício de nos juntarmos a um tratado em que partes praticantes de bullying não só não nos deixam beneficiar dos direitos, como atacam as nossas infraestruturas nucleares?”, questionou o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que insistiu que Teerão não está à procura de uma arma nuclear.
  • A Guarda Revolucionária confirmou que Alireza Tangsiri, comandante da Marinha iraniana, foi morto num ataque israelita nos últimos dias.
  • O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, declarou que “já está na hora de ejetar as forças dos EUA” do Médio Oriente, instando a Arábia Saudita a exigir a retiradas das forças norte-americanas nas bases militares no país.
  • O Presidente norte-americano voltou a ameaçar “obliterar completamente as centrais elétricas, poços de petróleo e a ilha de Kharg (e possivelmente todas as centrais de dessalinização)”, caso as negociações — sobre as quais voltou a reclamar “grandes progressos” — não cheguem a um acordo em breve.
  • O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão declarou que os esforços de negociação são “excessivos e sem lógica“, acrescentando que “sob agressão militar, todos os esforços e força [do Irão] estão concentrados na defesa”.

Em Israel e no Líbano

  • O Hezbollah reivindicou 65 ataques contra forças israelitas no sul do Líbano e comunidades do norte de Israel.
  • O grupo armado libanês visou uma base dos serviços de informação do Exército israelita perto de Telavive.
  • A refinaria de petróleo de Bazan, em Haifa, foi atingida por um míssil que causou um incêndio, mas não é claro se o ataque veio do Hezbollah ou do Irão.
  • Já Israel reclamou a destruição de uma centena de prédios utilizados pelo Hezbollah em Beirute e a morte de um comandante do grupo armado, responsável pela coordenação com os grupos armados palestinianos.
  • Um soldado israelita morreu e outro ficou gravemente ferido em confrontos entre o Exército e o Hezbollah no sul do Líbano.
  • Dois capacetes azuis da missão da ONU no Líbano (UNIFIL) foram mortos num ataque de um ator não especificado a um veículo da UNIFIL perto de Bani Hayyan.
  • O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, declarou que Israel já atingiu mais de metade dos seus objetivos no Irão, mas recusou colocar um prazo para pôr fim à guerra.

No Golfo

  • Um petroleiro do Kuwait, que estava ancorado no Dubai, foi atingido por um drone iraniano, começando um incêndio, mas não se verificaram feridos ou derrame de petróleo. A empresa estatal petrolífera do Kuwait classificou o incidente como um “ataque direto e criminoso”.
  • Uma pessoa foi morta num ataque iraniano a uma central de dessalinização de água no Kuwait.
  • As autoridades do Bahrain intercetaram sete drones e oito mísseis iranianos ao longo de segunda-feira.
  • O Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos (EAU) declarou terem sido intercetados 27 drones e onze mísseis balísticos.
  • Na Arábia Saudita, foram intercetados ataques iranianos com sete drones e oito mísseis que visavam a capital, Riade, e a zona leste do país, onde se localizam as infraestruturas energéticas sauditas.
  • As autoridades do Qatar relataram a interceção de drones iranianos, sem detalhar o número.
  • Conselheiros da Guarda Revolucionária Islâmica terão chegado ao Iémen, para coordenar ataques entre Teerão e os Houthis.

No resto do mundo

  • Na Turquia, as sistemas de defesa aérea da NATO intercetaram um míssil iraniano. É a quarta vez desde o início da guerra que um míssil iraniano entra no espaço aéreo turco.
  • Combatentes das Forças de Mobilização Popular (PMF), uma milícia iraquiana pró-regime iraniano, foram mobilizados no leste do Irão, em bases das milícias Basij, segundo relatos da imprensa ligada à oposição iraniana.
  • O aeroporto de Bagdade e as respetivas infraestruturas diplomáticas voltaram a ser alvo de ataques de milícias iraquianas. Uma aeronave da Força Aérea do Iraque foi destruída num destes ataques.
  • A Kataib Jund al Karar, uma milícia fundada no início deste ano na Síria, com ligações ao regime iraniano, disse ter atingido uma base aérea na Jordânia e a base de Palmyra, na Síria, mas as declarações foram contestadas e declaradas como falsas por fontes locais.
  • Na Jordânia, uma mulher ficou ferida depois de ser atingida por destroços de mísseis. O Exército intercetou cinco mísseis e um drone no país ao longo de segunda-feira.
  • O embaixador do Paquistão nos Estados Unidos declarou que Islamabad continua investido na mediação entre Washington e Teerão e instou todas as partes em confronto a procurar um fim diplomático.
  • Espanha anunciou o encerramento do seu espaço aéreo a todas as aeronaves norte-americanas que participem nos ataques contra o Irão. A limitação exclui casos de emergência.
  • A União Europeia (UE) anunciou a extensão do regime de sanções aplicadas ao Irão, devido às “sérias violações de Direitos Humanos”, até abril do próximo ano. Ao todo, estão contemplados 262 indivíduos e 53 entidades.