(c) 2023 am|dev

(A) :: Cuba: o anti-Irão

Cuba: o anti-Irão

Sem os custos que afligem os americanos no Irão, Trump recuperará a sua capacidade de moldar a realidade. Pode declarar-se libertador de Cuba ainda que a única mudança seja no rosto da cleptocracia.

Manuel Castello Branco
text

A guerra no Irão deveria ter sido mais uma vitória espetacular de Donald Trump. E, de facto, a operação militar foi, em termos puramente militares, um sucesso esmagador: decapitou grande parte da liderança iraniana, neutralizou a força aérea, marinha e capacidades de lançamento de mísseis. O Irão tornou-se virtualmente indefeso num embate militar direto. Contudo, vitórias militares deste tipo são apenas úteis na medida em que servem um determinado objetivo político. Mas, passado mais de um mês, o regime permanece no poder, o estreito de Ormuz continua fechado, os mercados energéticos globais estão em caos e os americanos sentem a inflação a apertar. E Trump, que costumava conseguir transformar qualquer situação em narrativa de vitória pessoal, vê-se cada vez mais encurralado por uma realidade que não consegue moldar.

Esta guerra revela-se particularmente perigosa para o presidente americano precisamente porque está a corroer os dois principais ativos que têm sustentado toda a sua presidência: a capacidade de distorcer a realidade a seu favor independentemente dos factos, e o ascendente que consegue exercer sobre aliados e adversários para alcançar os seus objetivos. E à medida que estes dois superpoderes políticos se revelam ineficazes no Irão, Trump procura desesperadamente um novo conflito que lhe permita recuperá-los. O alvo mais óbvio, e mais conveniente a poucos meses das midterms, é Cuba. Uma intervenção rápida, visualmente impressionante, sem os custos económicos do Irão, permitir-lhe-á reconquistar o eleitorado latino que começa a abandoná-lo precisamente quando mais precisa dele.

Comecemos pelo primeiro poder em crise. Trump construiu a sua carreira política na capacidade de moldar narrativas independentemente da realidade objetiva. Consegue declarar vitória mesmo quando perde, transformar escândalos em perseguição, apresentar fracassos como sucessos estratégicos. Esta capacidade funcionou extraordinariamente bem ao longo deste segundo mandato em múltiplos contextos. Mas o Irão revelou os seus limites. A particularidade desta guerra é que o seu impacto sobre os americanos é direto e tangível, sem que Trump possa servir de intermediário ou filtro. Por mais que o Presidente insista que já ganhou a guerra, os americanos veem os preços na bomba a subir exponencialmente semana após semana. Veem as contas de energia a aumentar, sentem a inflação a apertar no supermercado. A guerra tornou-se um kitchen table issue, um problema do dia-a-dia que afeta diretamente o orçamento das famílias americanas.

E aqui reside o problema fundamental para Trump. Quando os americanos sentem o conflito no bolso, a dissonância entre o discurso vitorioso de Trump e a realidade vivida torna-se impossível de ignorar. O Presidente começa a parecer simplesmente desconectado dos problemas reais do americano comum e começa a tornar-se pouco distinguível de todos os outros políticos de carreira, precisamente a imagem que passou anos a combater.

O fator tempo agrava esta situação. Enquanto o Irão mantiver o estreito de Ormuz fechado e continuar a atacar infraestruturas energéticas na região, os preços continuarão a subir e os impactos inflacionários intensificar-se-ão. A pressão sobre Trump irá apenas aumentar com o tempo.

O segundo superpoder em crise é talvez ainda mais fundamental para compreender a forma como Trump governa: o poder de pressão. Ao longo deste segundo mandato assistimos à administração a intimidar aliados para acordos comerciais favoráveis, ameaçar invasões e substituir líderes a uma velocidade notável. Venezuela, Nigéria, até tentativas de pressionar a Europa. Todos estes casos partilham o mesmo denominador: Trump agiu porque tinha um ascendente, porque podia exercer poder de pressão, porque, como o próprio diria, “tinha todas as cartas”. O conflito no Irão expôs os limites dessa estratégia de forma que nenhum conflito anterior conseguiu.

Por um lado, tornou-se claro que os americanos não conseguem exercer sobre o Irão a mesma pressão que exerceram sobre a Venezuela. A campanha militar foi esmagadoramente bem-sucedida em termos táticos, mas à medida que as semanas se arrastam a eficácia dos ataques diminui enquanto a capacidade iraniana de causar danos económicos globais permanece aparentemente intacta. O Irão conseguiu alavancar o seu controlo sobre o fluxo de petróleo para exercer pressão sobre os americanos. Os ataques a infraestruturas energéticas na região foram bem-sucedidos em desestabilizar a economia global. E essa pressão iraniana só cresce com o tempo, precisamente quando o poder de alavancagem americano diminui. Trump apercebeu-se disto e queixou-se de que o Irão se comporta como um “bully” por manter a economia mundial refém. A queixa é reveladora precisamente porque mostra que a administração percebeu ter leverage limitado neste conflito.

A guerra também expôs os limites da influência de Trump sobre a Europa. Os aliados da NATO recusaram-se a juntar-se à guerra mesmo após ameaças tácitas de que Trump poderia abandonar a NATO. Esta recusa revela que a estratégia europeia mudou. Enquanto Trump puder ameaçar abandonar a NATO, pode coagir os europeus, forçá-los a ceder. No entanto, essa ameaça só funciona enquanto não é acionada. A coerção só é eficaz se o coagido acreditar que ceder o protege da ameaça. Mas quando os europeus perceberam que a administração americana podia abandonar os seus compromissos transatlânticos independentemente do que fizessem, submeter-se deixou de comprar segurança e, sem esse incentivo, a resistência tornou-se a única estratégia racional. Com isso, o poder de pressão de Trump sobre os seus aliados parece começar a dissipar-se.

Ao perder estes seus dois superpoderes Trump enfrenta escolhas difíceis. Pode escalar o conflito, colocando tropas no terreno, mas um contingente reduzido dificilmente seria suficiente para derrubar o regime, enquanto uma escalada maior arrisca fragmentar a sua base, perpetuar a guerra e transformar o que começou como uma suposta operação cirúrgica numa longa ocupação sem saída visível. Pode procurar um acordo negociado, acordo esse que aliviaria os mercados mas deixaria a sua imagem de homem forte danificada quando o regime iraniano permanece no poder. Ou pode procurar um novo conflito que lhe permita recuperar o capital político perdido. E é aqui que Cuba ganha relevância.

Cuba oferece a Trump precisamente aquilo que o Irão lhe negou. Com cerca de um décimo da população iraniana, sem capacidades nucleares ou mísseis de longo alcance, sem controlo sobre pontos cruciais do comércio global, Cuba é o anti-Irão perfeito. Uma intervenção militar seria rápida, visualmente impressionante, sem riscos de retaliação assimétrica que afetem a economia americana. Trump poderia recuperar a sua capacidade de moldar narrativas porque não haveria consequências económicas catastróficas a contradizê-lo. E, como os últimos meses têm demonstrado, o seu poder de pressão sobre Cuba é esmagador. O regime está economicamente devastado, energeticamente colapsado, sem patronos externos significativos após a queda de Maduro.

Mas há outra razão pela qual Cuba se torna particularmente atrativa agora, uma razão que tem tudo a ver com as midterms que se aproximam e com uma demografia específica em crise para Trump: o voto latino. Em 2024, a transferência de votos latinos para Trump foi em grande parte responsável pela sua vitória. A votação latina subiu mais de 10 pontos percentuais de 2020 para 2024, chegando Trump a ter apoio de cerca de 48% deste eleitorado. Contudo, várias sondagens recentes mostram o apoio desta comunidade atualmente próximo dos 20%, uma quebra catastrófica a poucos meses das midterms.

Esta erosão do apoio latino é particularmente perigosa em estados cruciais como Florida e Texas, onde o GOP precisa de manter as suas margens confortáveis para manter o controlo do Congresso. E acontece precisamente quando os republicanos procuram nacionalizar a campanha das midterms, colocando Trump no centro do máximo de corridas possível. Mas sem panorama económico melhorado, com os americanos a enfrentarem os mesmos problemas que atribuíam à administração Biden, o GOP terá dificuldade em fazer campanha no terreno económico onde ganhou em 2024. A alternativa será arrastar o campo de batalha para o plano identitário e de política externa.

Cuba encaixa-se perfeitamente nesta estratégia. Marco Rubio, o Secretário de Estado de raízes cubanas, fez da luta pela democracia em Cuba uma das suas maiores bandeiras políticas, mobilizando parte significativa da base cubana imigrante nos Estados Unidos, base essa fervorosamente oposta ao regime. Uma intervenção em Cuba, apresentada como libertação do povo cubano, com Rubio em papel de destaque, permitiria aos republicanos recuperar parte do apoio latino perdido quando o seu peso é cada vez mais relevante.

Mas seria uma genuína libertação? Se olharmos para o precedente venezuelano nesta matéria a resposta parece ser negativa. Como na Venezuela, o que Trump parece detestar no sistema cubano não é o quão corrupto e extrativo é. É que não está a receber parte dos lucros. Cuba há décadas que deixou de ser um regime ideológico para se tornar uma cleptocracia gerida pela GAESA, conglomerado económico-militar criado por Raúl Castro (irmão de Fidel), que controla 40 a 70% da economia. Enquanto os líderes da GAESA lucram aos milhões, 89% dos cubanos vivem em pobreza extrema. Ainda assim, a administração Trump deu pouca indicação de que quer transformar Cuba numa democracia funcional. Trump pode muito bem estar disposto a manter esta estrutura, simplesmente substituindo quem beneficia dela. Seria uma “transição” coerente com as ações desta administração, muito mais imediata e sem os riscos inerentes a uma tentativa de democratizar o país.

A estratégia de Trump poderá passar, por isso, não por procurar uma democratização de Cuba, mas por algo diferente: capturar figuras do regime, apropriar-se de ativos financeiros e protagonizar uma intervenção militar breve que produza um antes e depois claro para o qual possa apontar. Não seria inédito: em Caracas, a operação para capturar Maduro durou horas, deixou o regime maioritariamente intacto e simplesmente mudou a ótica. Bastou a cabeça do regime removida para Trump reclamar vitória.

E sem os custos económicos diretos que afligem os americanos no Irão, Trump recuperará a sua capacidade de moldar a realidade. Poderá declarar-se libertador do povo cubano ainda que a única mudança real seja quem controla a cleptocracia. Poderá apresentar uma vitória rápida e visualmente impressionante que recupera a imagem de homem forte danificada pelo impasse iraniano. E poderá reconquistar eleitorado latino precisamente quando as midterms se aproximam e essa demografia se revela decisiva. Cuba oferece-lhe a possibilidade de recuperar os dois superpoderes que o Irão lhe retirou.