Três músicos instalam-se à direita do palco e mais três tomam o devido lugar à esquerda. Ainda antes de qualquer acorde, começam a bater palmas ditando o ritmo que rapidamente é replicado pelo público. Já está: a partir daqui seguimos o compasso do caos que se segue em Sr. Engenheiro — Alegadamente Um Musical. Não é um caos de confusão, mas sim uma enxurrada de troca de cenários, figurinos e personagens que se inspiram num caso real não menos complexo.
Pista número 1: esta é a história de um homem que nasceu no interior de Portugal, chegou a primeiro-ministro, terminou um curso ao fim de semana, viveu da caridade milionária de um amigo, teve um motorista que distribuía envelopes por ele e usou todos os recursos disponíveis na justiça para evitar a prisão. Pista número 2, vinda diretamente do protagonista: “Tenho bom gosto. Acha que há muitos homens que conseguem ter pinta com um nariz destes”?
Se ainda não está a ver quem é, podemos dizer que a inspiração é José Sócrates. E podemos dizê-lo sem pinças porque esta é uma sátira que parte de factos públicos, não há aqui nada que seja novidade. Porém, Henrique Dias, o autor do texto, achou que estavam reunidos todos os elementos para um novo espetáculo. A ideia surgiu há cerca de dois anos quando estava a ver um noticiário na televisão. “Era já na fase do julgamento [da Operação Marquês, onde José Sócrates é acusado de 22 crimes, entre corrupção, branqueamento e fraude fiscal] e, de repente bateu-me. [Pensei] há quantos anos é que isto anda nas nossas vidas? O humor lida com o ridículo e o ridículo lida com as pessoas e com a sociedade, está em todo o lado. Esta história tem aspetos tão burlescos e arrasta-se há tanto tempo que pensei que, se pegássemos nisto e olhássemos através de uma lupa, aumentando ainda mais todas as coisas ridículas, daria um ótimo espetáculo. E depois veio-me à cabeça: ‘E se fosse um musical? Isso seria ainda mais estranho’”, conta ao Observador.
O resultado é para ver a partir de quarta-feira, 1 de abril, no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa — e claro que a data de estreia não é por acaso, é uma provocação por ser dia das mentiras —, antes de seguir para o Coliseu Porto AGEAS em maio.
Lidar apenas com factos públicos foi uma das preocupações, mas Henrique Dias é jurista de formação e sabia perfeitamente o que poderia ou não incluir no texto. “Quando comecei a ler coisas, comecei logo a fazer uma separação: os interrogatórios são públicos, posso usar; isto aqui é uma acusação, mas não há provas, não posso tocar. Claro que posso fazer uma piada sobre isso, mas não posso pôr aqui no espetáculo como algo que aconteceu.”


Sr. Engenheiro — Alegadamente Um Musical conta uma história, apresenta personagens e situações concretas, mas “não toma partido”, explica o autor do texto. “Pegamos nos factos e mostramos às pessoas, não fiz nenhum julgamento na escrita e o Rui [Melo] também não fez na encenação. Exageramos ao ponto de as pessoas perceberem o quão ridículo é — se bem que alguns factos já são ridículos por si só —, mas a qualificação jurídica, se é crime ou não é, se é culpado ou não é, isso o público faz no caminho para casa.”
Henrique Dias e Rui Melo são os responsáveis por expressões icónicas, como “não tenho saúde para ser pobre” ou “as gaivotas às vezes mandam-se aos telemóveis a pensar que é pão de mistura”, saídas de produções como Pôr do Sol ou FELP, respetivamente. Aqui, os palavrões são permitidos e as referências que todos conhecem tornam os diálogos ainda mais cómicos. “Não pedia fatura, ficou com um copo do Rock in Rio, essas coisas”, responde a ministra quando questionada sobre os eventuais atos ilegais do primeiro-ministro; “‘Algum dinheiro’ é o que as avós guardam nas latas da Cuétara”, diz a procuradora quando o arguido tenta desvalorizar os milhões que gastou e cuja origem não consegue explicar; ou “as pessoas com poder não são investigadas, são vítimas de uma cabala”, assegura o protagonista.
Os momentos musicais também ficam a ecoar na cabeça já depois do fim do espetáculo, como a cena em que, perante o elenco vestido com bibes vermelhos, a personagem principal se prepara para dar uma lição. “O tio senhor engenheiro vai explicar-vos o que é alegadamente.”
E explica, a cantar e a dançar, enquanto pede a ajuda do público que, por esta altura, já estará seguramente a rir. “Posso ser ladrão, mas só alegadamente, mesmo que aconteça à frente de toda a gente. Todos!”
Elenco fechado, mesmo sem papéis atribuídos
Quando Henrique Dias começou a escrever, já sabia que seria Rui Melo a encenar e isso facilitou o processo. “Íamos falando e, quando eu estava a escrever as músicas com ele, já tínhamos uma ideia de onde ficariam”, diz o autor.
Tanto um como o outro já tinham trabalhado com os dez atores — Alexandre Carvalho, Brienne Keller, Jorge Mourato, Manuel Marques, Marta Andrino, Miguel Raposo, Samuel Alves, Sílvia Filipe, Sissi Martins e Rita Cruz — e toda a gente se comprometeu mesmo sem saber que papel iria representar. O elenco ficou fechado sem qualquer personagem definida. “O Rui fez várias distribuições para testarmos algumas coisas diferentes, de pessoas a vozes”, conta Henrique Dias. Rui Melo explica o raciocínio ao Observador: “Partimos da premissa de que todos os atores podem fazer todas as personagens e o elenco foi escolhido em função disso. Porque é, de facto, um elenco muito capaz. Não acumulam só funções de cantar, dançar e representar, têm características que permitem que um ensaiador diga para agora fazerem uma personagem mais nova, mais velha, etc, e eles imediatamente conseguem corresponder.”
O papel de protagonista, o senhor engenheiro, acabou nas mãos de Manuel Marques, que já tinha feito uma imitação de José Sócrates no Donos Disto Tudo, um programa de sketchs cómicos de 2016 exibido pela RTP1. “Na altura em que me juntei ao projeto só sabia que seria um musical. Na primeira leitura distribuíram os papéis aleatoriamente e calhou-me o engenheiro. Fui aos ficheiros da memória e o Sócrates surgiu-me logo ali”, explica o ator. “O meu objetivo nunca foi ser uma cópia perfeita, mas ter pequenas coisas que as pessoas identificassem logo.”
É o único que tem nome, apesar de ser apenas José, e também isso foi propositado. “Como o texto é cronológico, mas também tem alguns saltos no tempo, tive a ideia de fazer disto uma espécie de farsa. Comecei a explorar a ideia de ter um ator que é o protagonista e todos os outros atores fazem tudo o resto. Fazem quatro ou cinco personagens, mudam o cenário, fazem malabarismos de circo”, exemplifica Rui Melo.


Essa azáfama constante de entra e sai — apoiada por uma banda ao vivo com Artur Guimarães como maestro e ao piano, Tom Neiva (bateria), André Galvão (baixo), João Valpaços (violoncelo), Marcelo Cantarinhas (guitarra) e Inês Nunes ou Carlos Domingues (viola d’arco) — “dá ritmo ao espetáculo, além de ser muito interessante do ponto de vista cénico”, considera Henrique Dias.
Os atores concordam e, após cerca de dois meses de ensaios, conseguem encaixar todas as respetivas tarefas sem qualquer deslize. Sílvia Filipe, que é a assessora, explica a ideia: “É como se fossemos uma companhia de atores que vem contar uma história. De repente, essa companhia é responsável por tudo, até mudar cenários. É um desafio porque às vezes somos dez em palco, mas também é muito divertido porque é como se estivéssemos sempre numa brincadeira de ‘faz de conta’”.
Segundo Manuel Marques, essas mil e uma tarefas até ajudam na concentração. “Obrigam-nos a estar sempre alerta. Não imaginam as mudanças atrás de palco: vestir, despir, pôr pernas para o cenário. É um cenário bastante complexo.”
Além do senhor engenheiro, há a assessora do senhor engenheiro (Sílvia Filipe) que é fascinada por ele, o advogado do senhor engenheiro (Miguel Raposo), o amigo do senhor engenheiro (Jorge Mourato — que faz também uma breve aparição como Lula da Silva, com sotaque e até bigode), as namoradas do senhor engenheiro (personificadas por Marta Andrino) e por aí fora. O facto de poderem representar alguém específico ou não deu liberdade criativa aos atores, garante Sílvia Filipe. “É uma história que parte de factos reais, mas não existe a tentativa de recriar ninguém. Não houve a pressão de copiar ninguém ou verificar, portanto foi um trabalho de testar limites. Até onde podíamos ir sem ficar demasiado caricatural?”
Muito antes do resultado final que pode ser visto em cena entretanto, o elenco percebeu o potencial do musical. “O que mais me surpreendeu foi o quanto me ri logo na primeira leitura, mesmo sem as músicas e sem a encenação. Sem juntar qualquer camada, já estava ali muito humor”, diz Marta Andrino ao Observador.


A cenografia ficou a cargo de Marta Carreiras e dá continuidade à ideia construída por Rui Melo. A criar uma moldura gigante há uma estrutura de madeira com as vigas visíveis que nos mostra que estamos a ver um palco — em cima do palco do Teatro Tivoli BBVA. De cada lado do palco há três painéis que chegam ao teto e que, juntamente com outra tela que preenche o fundo do palco, vão sendo trocadas consoante as cenas (podem invocar um tribunal, uma praia ou uma prisão), e até uma tela onde se conta uma história com sombras chinesas foi incluída. Estamos, assumem, perante uma “farsa à moda antiga”, tal como no tempo de Gil Vicente, tal como Rui Melo desejava. “Depois das primeiras conversas, de repente ela apresenta-me a ideia de construirmos um palco dentro do palco, com telões a descer, pintados, em vez de serem coisas em led”, diz o encenador.
Sr. Engenheiro — Alegadamente Um Musical, produzido pela UAU, tem uma hora e 30 minutos, mas o ritmo é tão acelerado que não há tempo (nem vontade) de olhar para o relógio.
A dada altura, o protagonista canta: “Vocês acham que eu vou preso? Vou de recurso em recurso, alegadamente até à prescrição final”.
O timing não podia ser mais perfeito. O assunto — o da vida real — está de novo em todo o lado, a toda a hora, com advogados oficiosos a sucederem-se. “Foi uma daquelas sortes”, reconhece Henrique Dias. “Esta saga dos advogados oficiosos abre-nos a porta para uma parte dois. Há muitas coisas que, se não estivessem a acontecer na realidade e eu as escrevesse num texto, não seriam minimamente credíveis.”
Os desenvolvimentos mais recentes na Operação Marquês ditam uma nova data, 15 de outubro de 2026, para o ex-primeiro-ministro começar a ser julgado num processo mais pequeno de crimes de falsificação de documentos e branqueamento de capitais. Independente dos antigos e novos capítulos, para Rui Melo a preocupação foi só uma. “Quisemos construir um espetáculo que fosse divertido e que servisse um bocadinho como espelho. Todos conhecemos a história, só nos resta rir um bocadinho dela.”
“Sr. Engenheiro — Alegadamente Um Musical” está em cena de 1 de abril a 10 de maio de 2016 no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa. As sessões acontecem de quarta a sexta-feira, às 21 horas; sábado, às 16 horas e às 21 horas; e domingo, às 16 horas. Os bilhetes podem ser comprados online ou no Teatro Tivoli BBVA e custam entre 23€ e 37,50€.
O espetáculo está depois em cena no Coliseu Porto AGEAS, de 14 a 17 de maio. As sessões estão marcadas para as 21 horas (nos dias 14 e 15) e 16 horas (a 16 e 17 de maio), os bilhetes estão igualmente disponíveis online ou no local e custam entre 20€ e 37,50€.