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O maior crime contra a matemática

Terá sido uma questão de gosto? Como na Miss Universo? O júri considerou que o tráfico transatlântico de escravos fica melhor em biquíni do que o Holocausto, e por isso deu-lhe a coroa?

José Diogo Quintela
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Na semana passada, após votação na Assembleia-Geral, a ONU declarou o tráfico transatlântico de escravos como o maior crime contra a humanidade. A declaração foi aprovada com 123 votos a favor e apenas 3 votos contra (EUA, Israel e Argentina). Portugal absteve-se, juntamente com 52 outros países, incluindo os membros da União Europeia e o Reino Unido.

O Governo português foi fortemente criticado. Quer por parte de quem acha uma vergonha não ter votado a favor, quer por parte de quem acha que não ter votado contra é uma vergonha. À primeira vista, parece uma abstenção sonsa. Das duas, uma: ou Portugal considera que participou no maior crime de sempre e votava a favor; ou considera que o tráfico transatlântico de escravos não foi o maior crime de sempre e votava contra. Posto perante estas duas hipóteses, optou por não se decidir.

Fez bem. Portugal é um país com níveis razoáveis de numeracia, portanto sabe que não se tratou do maior crime de sempre. Por outro lado, como lhe dá jeito a fama de ter entrado no maior crime de sempre, deixou passar. Isto é o que se faz na prisão: mesmo sendo uns choninhas, convém que os outros prisioneiros julguem que somos o bad boy do refeitório.

A votação está envolta em polémica. O principal problema é que não se conhecem os critérios usados para avaliar o conjunto de todos os grandes crimes contra a humanidade e, cotejando-os, decidir que o tráfico transatlântico foi o maior de todos.

Terá sido uma questão de gosto? Como na Miss Universo? O júri considerou que o tráfico transatlântico de escravos fica melhor em biquíni do que o Holocausto e por isso deu-lhe a coroa? Relegou a patifaria de Hitler para Miss Simpatia? Nesse caso, suponho que o tráfico transaariano de escravos para o mundo árabe tenha recebido a faixa de Miss Fotogenia, por ser tão parecido com o seu congénere transatlântico. Se tiver sido esse o caso, não há muito a dizer. Os padrões de beleza são subjectivos e mudam consoante as culturas.

Ou, pelo contrário, será que se estabeleceram métricas rigorosas para comprar os diferentes crimes, avaliando o número de vítimas? Nesse caso, é capaz de já haver razão para protesto. É que, segundo as estimativas dos historiadores, o tráfico de escravos no Atlântico, realizado pelas potências marítimas europeias e suas colónias (alô, Brasil! Tamo junto!) terá afectado 12.5 milhões de africanos, dos quais perto de 2 milhões morreram na travessia. É muito. Ainda assim, menos do que os 17 milhões de escravos transportados por mercadores muçulmanos pelo deserto do Saara e por portos do Índico e Mar Vermelho, viagens em que terão morrido perto de 3 milhões. E muito menos do que os mortos noutros grandes crimes, ainda que de espécies diferentes: só no Grande Salto para a Cova, os comunistas chineses mataram 40 milhões de compatriotas. Também em fomes, gulags e purgas variadas, a URSS de Lenine e Estaline liquidou entre 12 a 15 milhões de inimigos do povo.

Posto isto, como é que os membros da ONU terão decidido atribuir o primeiro lugar da infâmia a um crime que teve muito menos vítimas que a concorrência? Admito que possa ser difícil aceitar a discrepância. Mas só para quem não segue o futebol europeu e não está a par das regras para atribuição da Bota de Ouro. O troféu que premeia o maior goleador do continente não é ganho pelo jogador que marca mais golos. Nada disso. Há uma ponderação consoante a importância do campeonato em que joga. Se jogar num dos campeonatos mais competitivos, como o inglês ou o espanhol, os golos valem a dobrar. Se joga numa liga intermédia, como a nossa, os golos multiplicam por 1.5. E se joga num dos campeonatos mais fracos, é atribuído o valor nominal. Assim, um avançado pode marcar 50 golos no Chipre, mas perder para outro que marque apenas 30 em Itália.

Há de suceder algo parecido com os Grandes Crimes. Os mortos têm uma valorização diferente, conforme o verdugo. Se tiver sido um ocidental, multiplica por 2; se não, divide por 5. É injusto, admito. Um tirano comunista bem pode esforçar-se e, ainda assim, nunca ter o reconhecimento merecido. Teria de chacinar toda a sua população 3 ou 4 vezes para poder ter uma chance contra os reinos europeus dos séc. XVI a XVIII, que não precisam de matar tanto para serem considerados os melhores facínoras.

Só isto explica que um crime com menos impacto seja considerado o maior de todos. E que a ONU, uma criação ocidental, inspirada em leis e direitos estabelecidos pelo ocidente, consiga afirmar que a escravatura, uma prática de todas as civilizações, foi o pior crime de sempre, mas apenas a parte cometida pelo ocidente. Que, por acaso, até foi o primeiro a pará-lo e a fazer os outros pararem de o praticar.

Entretanto, o proponente desta resolução é o Gana. O que é uma coincidência gira: o Império Axânti, antepassado do Gana, foi um dos mais bem sucedidos abastecedores de escravos aos europeus. Capturava inimigos nas tribos vizinhas, armazenava-os no seu território e vendia-os para exportação. Portanto, temos aqui o fornecedor a censurar moralmente o retalhista. Isto é o Pablo Escobar a apontar o dedo ao dealer do Casal Ventoso. São espertos, os ganeses: lucraram a vender escravos e ainda vão tentar ganhar algum com as reparações que se preparam para pedir. O proverbial homem que mata os pais e depois pede ajuda ao Estado por ser órfão.

Percebe-se a incoerência, é um tema sensível. Na verdade, muitos dos escravos que foram traficados no Atlântico seriam hoje ganeses. E custa aceitar que isto aconteça a compatriotas, mesmo que apenas a um. Por exemplo, eu estou maçado porque António Guterres é um vendido.