A Associação de Professores de Português disse esta segunda-feira que os alunos continuarão a estudar as obras do escritor José Saramago, mesmo se os seus livros deixarem de ser de leitura obrigatória no 12.ºano.
“Saramago continua nas aprendizagens e os professores não vão deixar de trabalhar Saramago”, disse à Lusa o presidente da Associação de Professores de Português (APP) João Pedro Aido.
Em causa está a proposta de alteração das aprendizagens essenciais do 12.º ano, que até aqui tinham duas obras de José Saramago como opção na categoria romance (“Memorial do Convento” ou “O Ano da Morte de Ricardo Reis”) e que passam a contar com um livro de Mário de Carvalho como alternativa (“Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde”).
Para João Pedro Aido, a proposta em relação é acompanhada por outras que reforçam hábitos de leitura e a interpretação de textos.
O dirigente disse que as obras de José Saramago “O Memorial do Convento” e o “Ano da Morte de Ricardo Reis” continuarão a ser trabalhadas no âmbito do contrato de leitura, uma iniciativa que faz parte da proposta da revisão das aprendizagens essenciais (AE) do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI).
O contrato de leitura prevê que os alunos trabalhem obras que fazem parte das AE do 12.ºano, relacionando por exemplo temas das obras de José Saramago com temas das obras do escritor Mário de Carvalho (o autor que entra na lista de opções do programa de português, na proposta do Governo).
O responsável referiu que o contrato de leitura permite que os alunos “façam um diálogo com outras obras ou com outras artes” e possam desenvolver “para além do prazer de ler, o prazer de interpretar”.
Para João Pedro Aido, a questão de ler ou não Saramago é secundária porque os alunos vão sempre estudar o autor “em cruzamento com outras obras e outras artes”.
O presidente da APP destacou que a questão “é o que fazer com essas obras”, porque muitas vezes os alunos só reproduzem o discurso dos professores.
João Pedro Aido disse que o contrato de leitura é “uma forma de os alunos pensarem pela sua cabeça sobre as obras que leram”, podendo depois trabalhá-las como apresentações orais, debates interpretativos, peças de teatro, entre outras.
Em relação à inclusão do escritor Mário de Carvalho e da sua obra “Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde” como uma das opções nas aprendizagens essenciais do 12.ºano, João Pedro Aido disse que o escritor é “muito importante” e que o livro leva a uma reflexão sobre a sociedade e temas como a imigração.
“Não estamos a pôr obras mais complexas de Saramago em alternativa a uma obra mais acessível”, acrescentou o responsável, indicando que a obra de Mário de Carvalho é complexa e consegue relacionar-se com outras “peças clássicas” que são sugeridas no exame de português do 12.ºano.
A proposta da revisão das aprendizagens essenciais integra ainda o projeto pessoal de leitura, que também faz parte do currículo, que pretende fazer com que os alunos leiam mais.
Através do projeto pessoal de leitura, os alunos do ensino secundário devem ler pelo menos 60 minutos por dia, um livro à sua escolha, sendo que esta leitura deverá ser verificada pelos professores.
João Pedro Aido indicou que a APP e a Associação Nacional de Professores de Português (Anproport) fizeram uma proposta de alteração das aprendizagens essenciais (AE), na sequência de um pedido MECI para a revisão das mesmas.
Uma versão preliminar revista das aprendizagens essenciais entrou em consulta pública na sexta-feira.
O documento foi divulgado no sábado pelo MECI e a consulta pública prolonga-se até ao dia 28 de abril.
O Governo qualificou esta iniciativa como uma “etapa de aperfeiçoamento e validação”, que “pretende recolher contributos da comunidade educativa, de especialistas e da sociedade em geral, com o objetivo de reforçar a qualidade da revisão curricular”, com participações de professores, escolas, universidades e politécnicos, e “outros atores com conhecimento relevante” sobre a matéria.