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(A) :: Até quanto subirá o preço do petróleo?

Até quanto subirá o preço do petróleo?

Embora seja sempre quase impossível fazer previsões, se considerarmos a experiência passada talvez seja provável a subida do preço do petróleo até ao limiar de 140 dólares.

Luís Valadares Tavares
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1 A Nova Crise do Petróleo

A recente ofensiva de Israel e dos EUA sobre o Irão veio criar profunda e vasta instabilidade na região do Golfo a qual produz cerca de 35% do petróleo e 25% do gás natural a nível mundial. Na verdade, esta situação não é inédita pois,  já desde a década de 70, que se têm multiplicado as confrontações militares nesta região, criando importantes crises energéticas, designadamente:

  1. A crise de 73 na sequência da guerra de Yom Kippur relativa à ofensiva da Síria e do Egipto contra Israel;
  2. A revolução islâmica que implantou o atual regime no Irão em 1979 e posteriores sanções;
  3. A guerra entre o Irão e Iraque, de 1980 a 1988 não obtendo qualquer desempate embora originando centenas de milhares de mortos, especialmente iranianos,pois o Iraque tinha evidente superioridade militar resultante da vasta gama de apoios desde os EUA à União Soviética;
  4. Primeira invasão do Iraque liderada pelos EUA para libertar o Kuwait em 1990;
  5. Segunda invasão do Iraque liderada pelos EUA para depor Saddam Hussein em 2003;
  6. Confrontações entre a Arábia Saudita e os Houtis, desde 2019.

Em suma, parece ser estável a sucessão de intervenções militares que instabilizam esta região a qual talvez só deixará de existir quando a percentagem de petróleo exportada pela América latina crescer significativamente o que parece possível graças aos novos recursos já identificados na costa equatoriana do Brasil (Oiapoque) com direitos de prospecção  atribuídos à Chevron, Exxon e China National Petroleum Corporation apesar dos graves impactes ambientais os quais  não influenciaram as decisões do atual Presidente do Brasil.

2 Os Cenários Prováveis

Os dados conhecidos atualmente parecem permitir concluir que o Irão, embora atacado fortemente, não conhecerá mudança de regime em consequência de tais ataques nem parece verosímil admitir que se irá render a curto prazo, face a exigências americanas e de Israel pelo que surgem dois cenários possíveis:

  1. Continuação dos ataques e alargamento a operações terrestres procurando-se alcançar a rendição do Irão;
  2. Termo do conflito pelos EUA e Israel com a justificação de já terem atingido os objetivos centrais de destruição do programa nuclear iraniano.

O primeiro cenário corresponderá ao alongamento da crise por alguns meses e o segundo por semanas mas o primeiro cria vasto descontentamento nos EUA acelerando a inflação para mais de 4,5% e a atual e já grave subida do preço dos combustíveis (mais de 35%) e da taxa de juro dos empréstimos hipotecários. Ou seja, mesmo que a opção assumida seja a primeira, infletirá provavelmente para a segunda.

Em suma, o mais provável é que as atuais confrontações continuem durante 3 a 8 semanas.

3 Os Efeitos Económicos

Atendendo à situação criada, talvez o proxy mais relevante a considerar seja a crise de 1973, na qual muitos de nós, como eu próprio, nos vimos sitiados em filas longas para atestar os veículos, tendo de imaginar o trabalho ou as leituras que teríamos de levar para o carro de modo a ocupar o tempo de espera.

Convém recordar que então o consumo anual de petróleo na Europa per capita era de cerca de 3,5 toneladas tendo diminuído para cerca de 1,5 atualmente graças ao desenvolvimento do nuclear, especialmente em França, e das energias renováveis, ou seja, houve redução pelo fator f=0,43.

Ora as consequências económicas da crise de 1973 são bem conhecidas:

  1. O preço do barril passou de 3 para 12 dólares, equivalentes em dólares atuais a 22 e 90, respetivamente;
  2. Estagnação e, ou, recessão, na maioria dos países europeus em 74 e 75 tal como aconteceu na Alemanha com apreciável recessão.

Em Portugal, estes efeitos sobrepuseram-se às consequências da revolução de 74 pelo que Portugal que vinha crescendo no início da década de 70 a mais de 10% (em 72 e 73 com cerca de 11%/ano) mergulhou em -1,6% e em -5,6% nos anos de 1974 e 1975 só recomeçando a ter fraco crescimento em 1976.

Embora seja sempre quase impossível fazer previsões, especialmente sobre o futuro, mas se considerarmos a experiência passada, talvez seja provável considerar que o fator referido é aplicável à estimação de impactes pelo que se deverá antecipar cenário de estagnação/recessão de um em vez de dois anos, ou seja em 2026/7, e subida do preço do petróleo pelo fator não de quatro mas sim de dois pelo que atingirá o limiar de 140 dólares. Mas o futuro dirá e este poderá afastar-se do racional apresentado, em especial se os principais atores fugirem de tal paradigma, o que não deixará de ser possível postulado a admitir.