Há quem tenha começado pelos Macintosh ainda beges com um logótipo às cores. Outros encantaram-se pelas cores mais atrevidas dos iMac, já no fim da década de 90. No novo milénio, há quem tenha sentido o apelo do iPod, que abalou a indústria com promessa de “mil músicas no bolso”. E, desde 2007, o iPhone transformou-se na principal porta de entrada para o mundo da Apple.
A empresa fundada por Steve Jobs e Steve Wozniak foi criada a 1 de abril de 1976, completando 50 anos de vida. Passou por altos e baixos e por uma enorme quantidade de produtos, nem todos sucessos de mercado. Ao mesmo tempo que conquistou fãs também gerou críticas, que vão desde os preços (elevados) dos produtos até ao ambiente computacional fechado ou ainda de telefones pouco personalizados em comparação com o Android. Mesmo com discórdia, a Apple conseguiu tornar-se numa das empresas mais valiosas do mundo.
No 50.º aniversário, o Observador falou com utilizadores de produtos da Apple, alguns deles há várias décadas, para perceber o que os mantém agarrados à empresa. As razões diferem, assim como as funcionalidades favoritas, mas muitos destacam a facilidade de uso dos equipamentos. E todos têm mais do que um equipamento da marca criada por Steve Jobs e Steve Wozniak, destacando as vantagens do uso numa lógica de ecossistema.
E, embora alguns apontem como vantagem o valor de revenda dos produtos Apple, mesmo que já tenham vários anos de uso, poucos vendem os seus equipamentos. Alguns por receio de deixar informação pessoal cair em mãos alheias, apesar das limpezas e reposição das definições de fábrica. Mas há quem fale na “estima”, na vontade de guardar memórias e… até nas caixas.
Pedro Aniceto. Apple criou um sistema pensado para “ser óbvio, simples”
Ouviu falar da Apple pela primeira vez no fim da década de 70, poucos anos depois da dupla Jobs e Wozniak fazer chegar os primeiros computadores ao mercado. Em 1978, Pedro Aniceto “vendia hardware das mais variadas espécies”. “Havia sistemas operativos de todos os géneros, coisas que hoje já são a poeira da história”, diz ao Observador. Com o Apple II ainda fresco no mercado, foi contactado por dois clientes que precisavam de ajuda com os computadores. Em ambos os casos, os “visionários”, como diz, queriam trabalhar com folhas de cálculo e esperavam que o computador pudesse acelerar esse trabalho.

“Os primeiros Apple II eram revolucionários, porque o software era amigável, fácil de aprender. Na altura a Apple era, de facto, uma coisa do outro mundo”, reconhece. Anos mais tarde, já em 1984, chegou o Macintosh ao mercado, que trouxe outro “salto absolutamente radical na forma de trabalhar”, diz Pedro Aniceto, hoje com 61 anos.
Naquela altura, trabalhar com um computador implicava saber comandos de texto para dar instruções ao computador. Com o Macintosh, a Apple passa da escrita dos comandos à lógica dos ícones, com uma interface gráfica. A acompanhar tinha um rato para que fosse apenas necessário apontar o cursor para o que se queria fazer. Nos anúncios da altura, a Apple foi direta: é um computador para os “confusos e intimidados”. E, “se consegue apontar, consegue usar um Macintosh”. A lógica mais visual no computador era, para a época, distintivo, diz Pedro Aniceto. “Trabalhar com uma interface gráfica” era muito diferente, apesar de “algumas tentativas” que já tinha havido. “Mas nada que se aproximasse daquilo.”
[Uma demonstração da interface do Macintosh em 1984]
https://youtu.be/ZmWOtf4Ziso?t=111
Numa indústria cada vez mais interessada em colocar um computador em cada secretária, o Macintosh era “um Rolls-Royce em termos de preço”. “Eram máquinas caríssimas, mas a verdade é que aquilo funcionava muito bem. E, para as pessoas no mercado da produção gráfica, nos jornais, revistas, foi uma autêntica revolução da maneira de trabalhar.”
Pedro Aniceto foi mantendo a empresa debaixo de olho. A 1 de abril de 1998, no 22.º aniversário da Apple, passou a ter outra visão ao tornar-se gestor de produto da Apple em Portugal. Acompanhou de perto lançamentos como o do iMac G3, do iPod e, mais tarde, do iPhone. “Não éramos funcionários da Apple, mas estávamos dentro da estrutura e recebíamos ordens e comunicações diretas do fabricante”, explica.
Chegou a estar com Steve Jobs em várias ocasiões. No 25.º aniversário da Apple o então CEO recebeu todos os colaboradores da estrutura europeia à porta de um museu em Paris. “Gabei-lhe a paciência de estar duas horas a dar apertos de mão às pessoas”, conta.
Eram tempos bem diferentes. “Foi antes de a Apple ser o que é hoje. Na altura, era uma empresa muito pequena e os distribuidores na Europa eram geridos diretamente pelo próprio Steve Jobs. (…) O negócio era tão pequeno que se podia falar ao telefone com o dono da empresa.”
[A apresentação do primeiro iMac, em 1998]
https://youtu.be/dtaSDVpAo4c?t=1205
Quando deixou de ser gestor de produto, em 2013, já o leme da Apple estava com Tim Cook. A relação profissional chegou ao fim, mas, até hoje, Pedro Aniceto mantém-se fiel aos seus produtos. “Estamos a falar de um ambiente de trabalho que é amigável, que tem uma curva de aprendizagem relativamente curta, mesmo para quem mude de outro mundo”, justifica. “O sistema está bem pensado para ser óbvio, simples.”
“Há produtos em que o hardware é muito bom, mas em que a interface, a comunicação com o utilizador, é horrível, quase impossível.” Já na Apple, defende, “os sistemas operativos são desenhados com o utilizador em mente, sem que tenha de inventar e pensar em como chegar de ‘A’ a ‘B’”. Justifica que é uma questão de “paz de espírito” que o leva a manter a ligação. “É a certeza de que vou investir numa máquina que não me vai durar um ano ou dois, mas mais do que isso.”
Mas esclarece que há uma diferença entre a quantidade de tecnologia que lhe passou pelas mãos a nível profissional e a primeira vez em que se apaixonou por um produto da Apple. “Meu, meu, meu, foi um portátil G3”, explica. “Havia — e há — um manto de secretismo sobre as máquinas a lançar. Steve Jobs encarregava-se de manter o segredo até ao último instante e muito raramente fazia apresentações prévias internas de hardware”, explica. Numa dessas apresentações, viu a ‘tal’ máquina. “Fiquei louco para comprar uma”, admite. “Nunca me tinha sucedido profissionalmente apaixonar-me por um computador, mas era uma máquina super versátil, que me permitia uma autonomia de bateria bastante interessante para a época.”
Pedro Aniceto foi colecionando equipamentos da Apple. “Continuo a ter um iMac, sou fã da linha M de processadores. Mas não tenho uma máquina favorita: tanto posso usar iPad, como o portátil ou o desktop”, saltando com “facilidade de hardware”. Usa um iPhone 14, mas está a ponderar mudar para um mais recente. Mas, “como pessoa experimentada”, não irá para um produto acabado de lançar. “Aquela coisa do early adopting sempre me enervou, embora para quem vende tenha de ser assim”, assume. “Para uso pessoal, prefiro perceber as falhas e defeitos, os pontos fracos, e só depois decidir com base numa opinião fundamentada.”
Com a companhia a completar cinco décadas de vida, Pedro Aniceto olha para trás e vê a empresa a reinventar-se “a cada meia dúzia de anos”. Agora está numa fase sem “um produto ‘uau’, de golpe de asa”. “Mas estou convicto que uma empresa que já ‘mataram’ tantas vezes antes do comeback de 1998 [após o regresso de Steve Jobs] ainda se pode reinventar mais algumas vezes”.
Daniel Nascimento. O primeiro Macintosh na Revolta das Máquinas e uma “revolução brutal” no design
Não há apresentação da Apple em que não associe uma palavra dirigida ao mundo criativo. E não é por acaso — a relação entre a tecnológica e as profissões na área do design é já longa. Em casos como o de Daniel Nascimento, designer gráfico desde 1990, o uso de produtos da maçã mudou mesmo a forma de trabalhar.
“Sempre usei Apple a nível profissional”, diz. “Nunca mais saí da Apple, desse ecossistema, porque na realidade ainda não apareceu nada que o superasse”. Após tantos anos de hábito, desconfia que também não é agora que vai experimentar outras opções.
A primeira vez que se cruzou com um computador da Apple foi no primeiro ateliê onde trabalhou, com o curioso nome de a Revolta das Máquinas, em Lisboa. Terá sido dos primeiros estúdios a usar os computadores da maçã. “Depois foi o Público, um jornal que também se apoiou na Apple, no início. Era uma bolha dos Apple em Lisboa, era muito giro.”

“O meu primeiro computador foi um Macintosh IIci, que era muito pequenino, com uma disquete”, recorda. Em termos gráficos, “estava a anos-luz de qualquer concorrência”, descrevendo que, para a altura, “era muito mais robusto e mais rápido”. “Os equipamentos da Apple direcionados para o design gráfico foram uma revolução brutal.” Na época, “levavam-se as coisas à gráfica, com uma fita de texto e slides e depois faziam a composição”, explica. Quando um dia Daniel Nascimento chegou à gráfica já com a composição feita, ouviu logo a pergunta “e o resto?”.
Podia ser uma forma diferente de trabalhar, mas não era rápida — pelo menos a comparar com a atualidade. “Mais ou menos por essa altura, usava o Photoshop 1.0, em que se executava um comando e depois ia para o Quarteto, do outro lado da rua, ver um filme. Um copiar e colar às vezes demorava três horas, mas não ia abaixo”, ri-se.
Quando passou a ter a própria empresa, a Spiff Design, continuou com os computadores da Apple. “Os Mac eram caros porque a qualidade era excecional”, diz. “Nunca paguei um cêntimo de manutenção de um computador que seja da Apple — e já comprei dezenas. É um feito, sem dúvida.” Até chegou a comprar para a empresa um NeXT, um dos computadores concebidos por Steve Jobs quando se afastou da Apple, entre 1985 e 1997. “Se os Mac eram caros, os NeXT eram uma coisa terrivelmente cara. Foi nessa altura que a Apple correu muito mal.”
Já no novo milénio, quando apareceu o iPod, decidiu comprar um para ter “a novidade” na empresa. Depois de alguns problemas com a “roda mecânica, que estava no centro”, deixou passar algum tempo até comprar um iPod para usar a título pessoal. “E ainda o uso”, passados mais de 20 anos. “É o meu iPod de andar no carro. Troquei-lhe a bateria, mas ainda funciona.”
A usar produtos da Apple há mais de 30 anos, a ideia da “revolução” a nível gráfico dilui-se com o tempo. “Acho que hoje é mais do mesmo, já não é o que era. Não sei se pode ser [pela ausência] de Jobs, mas arrefeceu um bocadinho a evolução da novidade”, ainda que considere que seja algo generalizado na indústria. “Jobs podia ser carrancudo, mas era realmente visionário.”
Mesmo assim, continua a optar por equipamentos da marca. “É o procedimento, é o pensamento que está por detrás da forma de uma pessoa trabalhar com o computador. What you see is what you get. É coerente e, na área gráfica, é fluído.”
João Diogo Ramos. Do mundo “anti-Apple” até ao título de fã assumido
Se há quem não precise muito para se ‘converter’ aos produtos da Apple, há quem precise de muitos anos para ser conquistado. É o caso de João Diogo Ramos, de 47 anos, CEO de uma empresa tecnológica na área da inteligência artificial (IA) na saúde, a Retmarker. Além da vertente de empreendedor, também é o criador do museu Load ZX, dedicado ao ZX Spectrum, em Cantanhede.
Embora o foco do museu em Cantanhede seja o Spectrum, que foi o seu primeiro computador, João Diogo Ramos conseguiu arranjar espaço para ter em exposição alguns produtos da Apple. Um deles é o Macintosh Plus, um modelo que tem a assinatura da equipa na carcaça, incluindo a de Steve Jobs. “Quando descobri fiquei super contente”, explica. “Steve Jobs obrigou a equipa da Apple a assinar o molde do computador”, quase da “mesma forma que um artista assina um quadro”. Com o auxílio de autocolantes, há duas assinaturas assinaladas para despertar a atenção dos visitantes do museu: a de Jobs e a de Wozniak.



A Apple “é um tema que gera enormes discussões” que até gosta “de provocar algumas vezes”, admite. Ao telefone com o Observador, numa pausa de apresentações na Escócia dedicadas ao Spectrum, faz uma viagem no tempo. “O meu colega, com quem cresci, era um grande fã da Apple, tinha um Macintosh. (…) Havia muito pouca gente a ter um na altura, era um computador caro, diferente. Não era como hoje, que os Mac estão em todo o lado.”
Na adolescência, o interesse principal da dupla era mesmo jogar. “Ele podia ter um computador que, a nível de som, era muito mais avançado do que o meu”, reconhece. “Mas eu, tendo um PC, tinha acesso a mais coisas, mais jogos. Portanto, eu estava num mundo completamente anti-Apple.”
Mais tarde, na Universidade de Coimbra, a estudar Engenharia Informática, o debate estava longe de ser Mac versus PC. “Era entre o Windows e o Linux. Ficava sentado, a rir-me, a ver os meus colegas esgrimir argumentos.” E, durante muito tempo, via a Apple como apenas mais uma empresa. “Até porque o que se tornou o símbolo do computador em casa foi o PC da IBM.” Só muitos anos depois, já com a Apple noutra fase, é que a ‘guerra’ Mac versus PC surge.
https://youtu.be/gfWyI5ZhL2g
A trabalhar em tecnologia, João Diogo Ramos “começou a ver cada vez mais Macintosh a aparecer”. Mas ainda não em quantidade suficiente para o fazer mudar de opinião. Quando o iPhone já era um modelo consolidado no mercado, compra um iPhone 3GS. “E a partir daí sempre tive iPhone.”
A “conversão”, como brinca, só aconteceu mesmo em 2010, quando passou a usar também um computador da marca. Foi sendo “conquistado ao longo dos anos” e hoje não consegue deixar a maçã. “Os sistemas operativos estão muito bem feitos. Por mais que o Windows tenha avançado, na Apple é melhor, na minha modesta opinião.”
A passagem dos anos só cimentou o estatuto de fã. E, do ponto de vista de João Diogo Ramos, há uma campanha que muda o jogo, a Think Different, que marca o regresso de Steve Jobs à Apple. Começa a época da cultura pop e dos equipamentos às cores na Apple, um trabalho do designer Jony Ive. “A Apple é uma empresa muito especial e tem, na realidade, fãs. Mais do que utilizadores, tem fãs, pessoas que se apaixonam de tal maneira pela marca que fazem coleções.”
[A campanha Think Different da Apple, lançada em 1997]
https://www.youtube.com/watch?v=GEPhLqwKo6g
João Diogo Ramos assegura que “não tem o discurso de um fã cego, mas sim de quem utiliza e vê coisas que, mesmo que tecnicamente não sejam das mais avançadas, funcionam muito melhor”. Até compreende os argumentos do outro lado da barricada sobre as especificações técnicas. “As pessoas podem criticar, os meus amigos informáticos vão todos dizer que há outros aparelhos que têm especificações técnicas muito melhores”, diz. Eu sou engenheiro informático, não quero saber de especificações técnicas, quero saber de facilidade de utilização. Eu não quero ter um Ferrari se só posso andar a 120 km/h.”

“Não são as características técnicas no papel que fazem a diferença, é a facilidade para o utilizador”, continua. “Porque há sistemas que são demasiado técnicos e complicados — a Apple simplificou.”
Ao contrário de outros utilizadores, rejeita o “mar de rosas” do Mac. “Também avariam e, quando acontece, chateia bastante, porque não podemos ir à loja da esquina”, explica. “Qualquer avaria é um filme…”
Ana Guerra. Na Apple “as coisas simplesmente funcionam e funcionam todas juntas”
Ana Guerra, de 31 anos, descreve-se como uma “geek em relação à tecnologia”. É responsável de marketing da Focus BC, uma empresa de software, mas também streamer de jogos. E é uma fã assumida dos produtos da Apple, ainda que se descreva como “minimalista”. “Não gosto de ser consumidora só porque sim ou só porque é novidade.” Ana até já usou equipamentos Android e o conhecido Windows, mas acabou por voltar à maçã.
Puxa pela memória para se lembrar do primeiro produto que comprou da Apple: um “iPod Nano de 5.ª geração, quando era adolescente”. Anos mais tarde, já na faculdade, juntou um iPhone 4S à sua “coleção”. “Era um telefone muito popular na altura. E foi aí que comecei a acompanhar mais a empresa.” Até porque, na faculdade, já em Lisboa, e a estudar gestão de marketing, era impossível passar ao lado. “A Apple é uma marca popular e conhecida por ter um fandom [comunidade de fãs] muito grande, fala-se muito dos fanáticos da Apple e da guerra com o Android e a Google.”

Atualmente usa todos os dias, “tanto em contexto pessoal como de trabalho”, o iPhone 17 Pro, um MacBook e os AirPods Pro 2. É essa lógica de ecossistema que a faz continuar a juntar equipamentos da Apple à lista. “As coisas simplesmente funcionam e funcionam todas juntas”, resume. “É tudo muito intuitivo, mesmo que a pessoa não tenha um grande conhecimento tecnológico.”
“Troquei de telefone há pouco tempo, passei de um iPhone 13 Pro para um 17 Pro. Não sou fanática ao ponto de comprar um iPhone novo todos os anos”, afirma. O processo de configuração e passagem de informação foi “intuitivo”. “É como se fosse o mesmo telefone”, mas com alguns ajustes em termos da câmara. Dá outro exemplo. “Se estou a fazer uma chamada no telefone e passo para o computador, com os AirPods a transição é suave. Ou, se receber uma chamada no telefone e estiver no computador, ela toca no computador… O ecossistema realmente funciona muito bem e é fácil.”
Ana Guerra trabalhou durante algum tempo na Microsoft, na área da Xbox. “Também sou muito fã da Microsoft, mas quando se compara o Windows com o macOS… Uso o MacBook há três anos e meio e nunca me deu problemas, não há bugs, não há ecrãs azuis”, referindo-se ao ecrã de erro do sistema. “Quando alguém usa um computador com Windows, a não ser que seja um Surface, as peças são de várias marcas e fornecedores diferentes. Na Apple, como o produto e o software é deles, faz com que funcione como um todo, sem problemas.”
Apesar de reconhecer valor aos equipamentos, Ana Guerra reconhece que a empresa tem “produtos um bocadinho caros, mas já não tanto como antes”. “Todo o mercado subiu os preços”, mas, por agora, ainda sente que compensa o investimento.
Sente é falta de ser surpreendida. “Olhando para a Apple como um todo, já há muito tempo que não trazem produtos verdadeiramente revolucionários que se pensa ‘nunca vi isto no mercado’. Não se tem visto nada muito interessante da parte deles”, admite. “E acho que está relacionado também com a diferença a nível de CEO — Steve Jobs era um criativo que misturava a componente de design e artista com a componente mais tech. Tim Cook é um homem de negócio, que quer otimizar os produtos para ter o máximo de acionistas e as ações a subir.”
Manuel Reis. Apesar dos preços elevados, há “segurança no investimento”
“Entrei neste esquema com um iPod”, brinca o podcaster de cultura pop Manuel Reis, de 34 anos. Em 2008, decidiu investir parte do dinheiro que ganhou no primeiro emprego de verão num “iPod clássico, de sexta geração, com 160 GB de capacidade”. Na altura, já um “investimento considerável”, nota.
O iPod pode ter sido o seu primeiro produto da maçã, mas já tinha reparado na marca antes. “Acho que sempre houve um certo elã com a Apple. Quando era miúdo os computadores da Apple sempre tiveram alguma coisa de especial… Ia frequentemente a um escritório que tinha um iMac, daqueles de primeira geração, transparentes e coloridos. Havia algo de diferente. E nesse aspeto sempre me despertou alguma atenção.”

Ainda usa “de vez em quando” o primeiro iPod que comprou. Depois foi aumentando a coleção: em 2009, comprou o seu primeiro MacBook, que “esteve em funcionamento regular até 2017”. O atual computador, o seu terceiro, comprado em 2020, “está para as curvas e a funcionar muito bem”. Em 2013, completou o ecossistema com um iPhone 5S. “Durou-me até 2022, foram nove anos de utilização do mesmo telemóvel”, ainda que admita “alguns desafios” nos últimos tempos de utilização.
Usa a longevidade dos equipamentos que já teve da Apple como argumento para se manter agarrado à marca. “Há essa segurança de investimento”, explica. Comprar produtos da tecnológica norte-americana pode representar um “investimento considerável, mas dá segurança de funcionamento ao longo de vários anos”, considera. “É preciso ver a coisa a longo prazo: é efetivamente um computador para cinco anos ou mais.”
Logo a seguir, usa a crise das memórias RAM como argumento. Estes semicondutores estão cada vez mais caros devido ao ajuste feito pela indústria para responder à procura por chips para a infraestrutura de inteligência artificial (IA). Perante a crise, “o Mac é se calhar o melhor investimento que pode ser feito a longo prazo. Não há sistema mais otimizado do que o Mac, em que 8 GB de RAM se calhar são melhores do que 12 ou 16 GB num PC.”
Mas, tal como outros fãs da empresa, também é capaz de apontar defeitos e áreas em que a empresa poderia evoluir. “A reparabilidade”, diz prontamente. “A Apple tem dúvidas de que os seus utilizadores possam mexer com alguma qualidade nos seus aparelhos”, lamenta. Ainda assim, vê alguma evolução nesse tema, dando como exemplo o MacBook Neo, supostamente mais reparável.
Pedro Vieira. “Todas as outras marcas têm qualquer coisa incrível. Mas falta o resto”
Ao contrário de muita gente da sua faixa etária, para quem o iPod foi a porta de entrada para o mundo da Apple, Pedro Vieira, de 35 anos, não sentiu o apelo. “Tinha um MP3 pequenino, da Creative, não tinha necessidade de ter um iPod”, explica o diretor de marketing da empresa de videojogos açoriana Redcatpig.
Apesar de, anos mais tarde, ter comprado um iPod, a estreia de Pedro Vieira foi mesmo com o iPhone 3GS, o terceiro modelo apresentado pela Apple, em junho de 2009. Um produto que, admite, gerava curiosidade na altura. “Estamos a falar de um tempo em que o teclado era supremo”, a Nokia ainda tinha uma boa quota de mercado e a BlackBerry conquistava muitos utilizadores do mercado empresarial.
Pedro Vieira foi conquistado pelo design do iPhone. “Era o primeiro telefone que, até na mão, não ‘sabia’ a telefone”, diz. “Estávamos habituados a um telefone premium ser grande, um matacão com muitas teclas. E o iPhone era um modelo muito mais compacto, era um telefone bonito, cabia bem na mão. E o facto de ser todo ecrã era um diferencial incrível.” Recorda que, na altura, havia pessoas a perguntar “como é que se escrevia” sem teclado.

Depois do 3GS, juntou mais telefones da Apple à sua coleção. Mas, ao contrário de outros fãs da maçã, não foi acumulando. “O primeiro guardei, mas os outros já não tenho.” Pedro Vieira até já usou outras marcas de telefones — teve equipamentos da Samsung, Oppo, Huawei. “Mas regresso sempre à Apple porque sinto que se adapta a mim”, explica. “Uma coisa que sempre senti enquanto utilizador da Apple é que funciona. Não vai ter a última funcionalidade do momento, é um facto, mas para mim funciona.”
Nos smartphones, considera que “quem está a disputar a frente tecnológica de desenvolvimento de funcionalidades, neste momento, é a Xiaomi e a Samsung”. Voltando à Apple, já ouviu muitas vezes o argumento “‘mas o Android também faz isso há x anos!’”. “Está tudo bem, é a primeira vez para mim e funciona”, desdramatiza. “Não me queixo. Adoro o meu Apple Pay, adoro poder atender telefonemas no relógio, fazer pagamentos. Gosto de poder andar só com o relógio e ele sincroniza com o telefone à primeira”, exemplifica. Em comparação com outras marcas, defende que é uma experiência “pré-formatada, orientada para ser fácil para mim”.
“As pessoas que usam Android podem meter as pastas como querem, o fundo, o toque, tudo como querem. Acho fantástico, mas para mim não funciona. São muitas escolhas — as escolhas que tenho de fazer são no meu trabalho e com a minha família”, acrescenta. “O meu telefone é para eu pagar muito dinheiro por ele e para funcionar até deixar de dar. E, até hoje, só a Apple é que me deu isso. Tentei com a Samsung, mas não consegui. Com a Xiaomi também, com a Oppo…” Porém, confessa que sente falta do carregamento de 100% da bateria em menos de meia hora da Oppo. “Todas as outras marcas têm qualquer coisa incrível, mas falta o resto.”
Em uníssono com os restantes fãs ouvidos pelo Observador, também sente falta de “ser surpreendido” pela Apple. “Continuo à espera de ver uma apresentação à Steve Jobs, mas eu tenho um viés profissional muito grande”, reconhece.
Tim Cook, que lidera a Apple desde 2011, é um “CEO injustiçado”, que “ainda hoje tem a sombra muito grande” de suceder a Jobs, diz Pedro Vieira. “As coisas que lança não são más, mas há uma indústria muito mais competitiva”. “Quando Steve Jobs fazia telefones estava cinco anos à frente, hoje em dia está tudo muito taco a taco.”
Também acompanha com curiosidade o debate sobre a linha de sucessão de Cook. “A pessoa que venha a seguir vai ter a benesse de ter um CEO que expandiu muito o catálogo da Apple em produtos e serviços”, podendo “voltar a focar só em pura tecnologia.”