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Estudo científico revela que cigarros eletrónicos podem causar cancro do pulmão e da boca

Estudo concluiu que cigarros eletrónicos provocam alterações nas células dos pulmões e da boca e alerta que quem fuma e usa "vapes" em simultâneo tem risco quatro vezes maior de ter cancro do pulmão.

Manuel Nobre Monteiro
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Os cigarros eletrónicos podem, afinal, não ser a melhor solução para combater os cigarros ditos “tradicionais”. Um estudo científico, publicado esta segunda-feira na revista Carcinogenesis, concluiu que o uso de vapes com nicotina é “provavelmente cancerígeno para os humanos” e pode estar associado ao desenvolvimento de cancros do pulmão e da boca.

“Considerando todos os resultados, desde monitorização clínica a estudos em animais e dados mecanísticos, os cigarros eletrónicos são suscetíveis de causar cancro do pulmão e cancro oral”, afirmou Bernard Stewart, investigador da Universidade de New South Wales, em Sydney, que liderou o estudo, à Bloomberg.

O estudo coloca em causa uma indústria que surgiu para ser uma alternativa ao tabaco tradicional. Países como a Nova Zelândia e o Reino Unido têm apoiado o uso de cigarros eletrónicos como forma de ajudar os fumadores a controlarem o vício. Mas os autores do estudo alertam que esta visão pode estar a subestimar os riscos de longo prazo.

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Os investigadores analisaram dados clínicos, experiências laboratoriais e estudos em animais, recorrendo a biomarcadores (alterações biológicas precoces associadas ao desenvolvimento de cancro), uma vez que os cigarros eletrónicos só se tornaram amplamente usados há uns anos, o que significa que a prova definitiva baseada em resultados humanos de longo prazo ainda poderá demorar muito tempo a chegar.

Segundo o estudo, quem usa cigarros eletrónicos absorve compostos relacionados com a nicotina, metais pesados e outras substâncias químicas capazes de provocar danos no ADN e inflamação, dois mecanismos habitualmente associados ao aparecimento de tumores. “Não há dúvida de que as células e os tecidos da cavidade oral e dos pulmões são alterados pela inalação proveniente dos cigarros eletrónicos”, disse Stewart.

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Ainda assim, os autores da investigação reconhecem que a experiência não permite, por agora, avaliar com exatidão o risco. “A nossa avaliação é qualitativa e não envolve uma estimativa numérica do risco ou do peso do cancro”, explicou Stewart.

O estudo chama também à atenção para o “duplo uso“, ou seja, o caso de fumadores que não substituem totalmente os cigarros tradicionais pelos eletrónicos e mantêm ambos. Segundo os investigadores, trata-se de uma situação comum e mais de metade dos fumadores não consegue abandonar nem o tabaco nem os vapes.

“Sabemos, com base em evidência epidemiológica recente dos Estados Unidos, que quem fuma e usa cigarros eletrónicos em simultâneo tem um risco adicional quatro vezes superior de desenvolver cancro do pulmão”, afirmou Freddy Sitas, coautor do estudo, à Bloomberg.

Os especialistas sublinham, porém, que estas conclusões não devem ser lidas como um argumento a favor do regresso aos cigarros tradicionais. O tabaco continua a ser muito mais nocivo e representa um risco muito superior para a saúde. “O que sempre assumimos foi que os vapes eram mais seguros do que os cigarros, mas aquilo que estamos a mostrar é que podem, afinal, não ser seguros“, concluiu Sitas.

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A Organização Mundial de Saúde tem alertado para o “uso alarmante” de cigarros eletrónicos por crianças e jovens, apelando para uma “ação urgente” de controlo do consumo, para minimizar danos para a saúde. Estima-se que pelo menos 15 milhões de jovens entre os 13 e os 15 anos fumem estes dispositivos em todo mundo.