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(A) :: Ha-Joon Chang procurou na comida soluções económicas: será esta uma receita pouco apurada?

Ha-Joon Chang procurou na comida soluções económicas: será esta uma receita pouco apurada?

O livro "Economia Comestível" promete ideias ousadas, irreverência e desafio ao pensamento dominante nas faculdades, mas é prudente ler com Alka-Seltzer à mão —ensaio crítico de José Carlos Fernandes.

José Carlos Fernandes
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Os livros sobre economia não costumam ostentar na contracapa recomendações vindas de figuras lendárias do pop-rock. Economia Comestível destaca-se dos seus competidores ao contar com este caloroso endosso de Brian Eno: “O único livro que li que me fez rir, salivar e reavaliar os meus pensamentos sobre economia – tudo ao mesmo tempo. Um volume divertido, profundo e apetitoso”.

Ha-Joon Chang (n.1963, Seul) é um economista reputado, que se doutorou na Universidade de Cambridge e aí leccionou entre 1990 e 2021, tornando-se em 2022, professor na School of Oriental Studies, em Londres. Chang tem trabalhado como consultor para prestigiadas instituições económicas de âmbito internacional, como o Banco Mundial, o Banco de Desenvolvimento Asiático, o Banco Europeu de Investimento e várias agências das Nações Unidas; para governos e agências estatais do Reino Unido, Arábia Saudita, Malásia, Singapura, Indonésia, Japão, Canadá, México, África do Sul, entre outros países; para várias empresas e instituições privadas, entre as quais se contam a Shell e a Hyundai; e para ONGs, como a Oxfam e a Christian Aid.

No impressionante curriculum de Chang destaca-se ainda a inclusão na lista dos 20 pensadores mais notáveis do mundo, elaborada em 2013 pela revista britânica Prospect, e a autoria de largas dezenas de artigos académicos em publicações especializadas em economia e de uma vintena de livros. Porém, mesmo no detalhado curriculum disponível no website de Ha-Joon Chang, não se encontra qualquer indício de que alguma vez tenha preparado ceias para cardeais, que tenha estado à cabeça de um restaurante distinguido pelo Guia Michelin, ou que tenha qualquer habilitação ou actividade pública na área da gastronomia, qualidades que poderiam ser pertinentes – ainda que não imprescindíveis – no contexto do seu livro mais recente, Edible Economics: A hungry economist explains the world (2022), editado em Portugal como Economia Comestível: Um economista faminto explica o mundo, com tradução de Dinis Pires, pela mão da Casa das Letras.

Dada a estonteante variedade de assuntos tratados nas pouco mais de 200 páginas do livro, o presente artigo apenas abordará algumas das suas facetas.

Um apóstolo do “capitalismo progressivo”

De Ha-Joon Chang estão também disponíveis em Portugal Economia: Guia do utilizador (edição original de 2014) e As Nações Hipócritas: Os segredos incómodos dos países ricos e os mitos que ameaçam a prosperidade global, um título que se desvia substancialmente do original, que é Bad Samaritans: The myth of free trade and the secret history of capitalism (2010). Se o título do primeiro livro é o mais neutro que possa conceber-se, o título do segundo deixa claro, sobretudo na versão original, que Chang não está alinhado com o pensamento “neoliberal” dominante nas faculdades de economia ocidentais. Enquanto este crê no comércio livre sem restrições, não vê inconvenientes na globalização e deposita inteira confiança na sabedoria dos mercados, Chang advoga uma “terceira via” entre a economia planificada e o capitalismo sem rédeas e defende que os países em desenvolvimento não devem ceder à pressão dos países desenvolvidos e das instituições internacionais para que adoptem uma política de mercado “pura” e que devem proteger os seus sectores de actividade embrionários da competição internacional – até porque foi isso que os países ricos e poderosos de hoje fizeram quando ainda não eram ricos e poderosos.

As reservas de Chang em relação ao capitalismo vêm na linha das que têm sido expressadas por Joseph Stiglitz (Prémio Nobel da Economia 2001) desde o início do presente século, sobretudo a partir do livro Globalization and its Discontents (2002). Stiglitz cunhou o termo “capitalismo progressivo” para designar uma forma de capitalismo, inspirada em John Maynard Keynes e no New Deal de Franklin D. Roosevelt, em que as forças de mercado são moderadas e dirigidas pelo Governo, de forma a evitar a alternância entre euforia desvairada e depressões ruinosas e o agravamento das profundas desigualdades sociais que são propiciadas pelo capitalismo quando não lhe são aplicados freios. Chang foi o organizador e comentador do livro Joseph Stiglitz and the World Bank (2001), uma colectânea de discursos de Stiglitz na qualidade de economista-chefe do Banco Mundial, entre 1997 e 2000, e, naturalmente, Stiglitz exprimiu concordância com as ideias veiculadas por Ha-Joon Chang em Kicking Away the Ladder: Development Strategy in Historical Perspective (2002), a obra que deu a conhecê-lo junto do público não-especializado.

Kicking Away the Ladder denuncia as “boas políticas” do Consenso de Washington, ou seja, as políticas “neoliberais” perfilhadas pelo Fundo Monetário Internacional, pelo Banco Mundial e pelo Departamento do Tesouro dos EUA e que estas instituições têm vindo a impor aos governos dos países em desenvolvimento como contrapartida pela assistência financeira. O nome do Consenso de Washington provém de todas estas instituições terem sede na capital dos EUA e o título do livro de Chang, Kicking Away The Ladder (“dando um pontapé na escada”), designa a prática de os países desenvolvidos não permitirem que os países em desenvolvimento usem a mesma “escada” que, em tempos, permitiu aos países ricos ascender a um patamar superior de desenvolvimento – ou seja, recorrer a medidas proteccionistas (nomeadamente pela imposição de taxas aduaneiras) que dêem à sua economia, ainda em fase incipiente, tempo para se consolidar, modernizar e “ganhar músculo”, em vez de abrir de imediato as fronteiras aos produtos concorrentes vindos das economias “maduras”.

Se comeres os brócolos, podes comer gelado

A par de livros dirigidos a um público mais especializado, Chang tem vindo a publicar livros para o público generalista – como o já mencionado Bad Samaritans e 23 Things They Don’t Tell You About Capitalism (2010) – e escrito artigos para a imprensa – nomeadamente para o Financial Times, com a coluna “Food for thought” (“alimento para o espírito”, numa tradução livre). Esta produção intelectual tem como denominador comum a oposição ao chamado “neoliberalismo”, ou, mais precisamente, ao “fundamentalismo de mercado livre”, um termo que terá sido cunhado na primeira metade da década de 1990 e que Stiglitz tem empregado amiúde (em sentido depreciativo, como é óbvio). Chang afirma que o conceito que preside a Economia comestível lhe ocorreu em 2006, mas que foi adiando a sua concretização e que só em 2015, com os artigos da coluna “Food for thought”, essa ideia começou a ganhar forma. Ainda assim, só em 2020 Chang se dispôs a escrever o livro, que incorpora versões expandidas dos artigos publicados na coluna “Food for thought”.

A apresentação e os títulos dos capítulos – “Bolota”; Quiabo”, “Coco”, etc. – de Economia Comestível podem sugerir que versará sobre o efeito da introdução de novos cultivos no curso da história; outra possibilidade seria, como sugere o autor, um livro sobre a “economia da comida – como se cultiva, processa, marca, vende, compra e consome”. Porém, na introdução, Chang trata de esclarecer que esses tipos de intersecções entre comida, história e economia já foram explorados em muitos livros e que aquilo a que se propõe é algo bem diferente: “As minhas histórias gastronómicas são um pouco como o gelado que algumas mães oferecem para subornar os filhos a comer os vegetais, só que, neste livro, o gelado vem primeiro e os vegetais depois” (pg. 29). Chang não parece inteiramente satisfeito com esta analogia, uma vez que, na página seguinte, providencia outra: “As minhas histórias económicas serão recompensas em si mesmas, porque as tornei mais saborosas do que o habitual, ao torná-las mais variadas e mais ricas em sabor”.

É uma afirmação que instila apreensão no leitor, pois revela presunção – não cabe ao cozinheiro classificar a comida que se prepara para servir como recompensadora e saborosa – e recorre a um raciocínio tautológico – é mais saboroso porque é mais rico em sabor.

À medida que se avança na leitura, a apreensão revela-se justificada: para lá de nem sempre fundamentar as suas afirmações e de estabelecer analogias desajeitadas e de duvidosa validade, Chang parece não dar qualquer importância à congruência, justapondo temas e argumentos com escassa relação entre si. Economia comestível não é gelado antes dos brócolos, é gelado despejado sobre os brócolos; não é, como promete a badana, “um banquete de ideias ousadas sobre globalização, alterações climáticas, imigração, austeridade, automação”, é o saco onde se recolhem os restos do banquete.

Economia comestível combina três grupos de ingredientes:

1) Considerações sobre as falhas e inadequações da teoria económica “neoclássica” hoje dominante e sobre as consequências nefastas dessa hegemonia.

2) Informações sobre a origem, evolução, nomenclatura e difusão global de vários alimentos.

3) Apontamentos sobre a vida pessoal do autor e, em particular, sobre as suas preferências alimentares e os seus dotes culinários.

Os argumentos apresentados no grupo 1 são razoáveis e são apresentados de forma razoavelmente convincente, ainda que nada acrescentem à obra publicada de Chang – em termos culinários, são restos aquecidos. As histórias do grupo 2 são quase sempre enriquecedoras e as confrontações entre a forma como diferentes culturas encaram diferentes alimentos e os inserem nas suas tradições são iluminadoras – são a parte mais “nutritiva” do livro. Já os ingredientes do grupo 3 assentam na presunção do autor de que os factos comezinhos da sua banalíssima biografia e as idiossincrasias do seu palato têm interesse para alguma outra pessoa no planeta que não ele próprio. Mas a principal falha do livro não são os ingredientes, mas a forma como são combinados: Economia comestível é o resultado de se atirar, às cegas, para dentro de um panelão com água a ferver o conteúdo da despensa e do frigorífico.

Sigam a anchova

Para se ter uma ideia da “estrutura” de Economia Comestível, decomponha-se o capítulo “Anchova”: Receita telegráfica. Popularidade da anchova (“o mais conhecido peixe pequeno”) à volta do mundo. Uso da anchova “como matéria-prima para o molho de peixe fermentado”. Presença da anchova no cocktail Bloody Mary (“eles bebem aquilo – quem é que bebe aquilo? que nojo?”). Anchova como alimento das aves marinhas do litoral peruano. Excrementos de aves marinhas (guano) como principal produto de exportação do Peru em meados do século XIX. Importância do guano e dos nitratos nele contidos para a agricultura. Invenção do processo Haber-Bosch como fonte ilimitada de nitratos. Consequente declínio da procura pelo guano do Peru. Outros exemplos de inovações tecnológicas que permitiram produzir artificialmente um produto natural, levando à ruína da região ou país que detinha o seu monopólio. Sucesso do Japão, país sem combustíveis fósseis, no desenvolvimento de motores de elevada eficiência. Sucesso da Holanda, país de modesta área agrícola, nas técnicas de cultivo de elevada eficiência. Conclusão: “A história mostra que padrões de vida elevados e sustentáveis só podem ser alcançados através da industrialização, isto é, do desenvolvimento do sector manufactureiro, que é a principal fonte de inovação e de capacidade tecnológica. […] Quando adquires tais capacidades, torna-se possível sustentar o teu nível de vida elevado durante muito tempo, porque as capacidades não se esgotam da mesma forma que os recursos naturais” (pg. 72-73).

Para lá de ser manifesto que a sequência “narrativa” tem um trajecto ébrio, também salta à vista que a conclusão a que Chang chega ignora olimpicamente dois factos incontornáveis: 1) na esmagadora maioria dos casos, os insumos do sector manufactureiro são recursos naturais, muitos deles não-renováveis; e 2) até as indústrias que se propõem criar um futuro mais sustentável os requerem. Veja-se, por exemplo, como a “transição energética” – de uma sociedade assente em combustíveis fósseis para uma sociedade assente em energias renováveis e “limpas” – tem vindo a criar uma procura desmedida por terras raras, lítio, cobre, níquel, cobalto, manganês e crómio, tudo recursos naturais não renováveis e cuja extracção e processamento estão longe poderem ser classificados como “limpos”.

A “stream of consciousness” aplicada ao marisco

Não podem atribuir-se os ziguezagues acima descritos à ingestão por Ha-Joon Chang de um bom número de Bloody Marys, pois o capítulo “Camarão ou gamba?” faz um percurso ainda mais imprevisível e cambaleante: Receita telegráfica. Diferenças morfológicas entre camarão e gamba. Popularidade destes crustáceos na cozinha asiática e em todo o mundo. Desafio aos preconceitos do leitor ocidental: por que razão as pessoas que apreciam camarões e gambas se repugnam com a ideia de comer insectos, que pertencem, tal como os crustáceos, ao filo Arthropoda? Vantagens dos insectos sobre as fontes tradicionais de proteína em termos de produtividade e sustentabilidade. Exemplos de culturas (mexicana, coreana) em que os insectos são manjares muito apreciados. Recordações de infância do autor ao comprar pupas de bichos-da-seda cozidas a vendedores de rua em Seul. Importância económica do bicho-da-seda e panorama histórico da difusão da produção de seda pelo mundo. Alusão ao filme 1900, de Bernardo Bertolucci. O Japão como maior produtor mundial de seda em meados do século XX. Aspiração japonesa a desafiar as grandes potências noutras áreas que não a seda. Proteccionismo promovido por sucessivos governos japoneses desde o final da II Guerra Mundial em relação aos sectores do aço, do automóvel, da construção naval, dos produtos químicos e da electrónica. Precedentes da política de protecção governamental a “indústrias nascentes” nos EUA (Alexander Hamilton) e na Grã-Bretanha (Robert Walpole). Conclusão: “Sem a protecção da indústria nascente, todos aqueles países que em tempos foram camarões económicos – como a Grã Bretanha no século XVIII, os EUA, a Alemanha e a Suécia no século XIX e o Japão, a Finlândia e a Coreia no século XX – não teriam conseguido transformar-se nos grandes peixes da economia mundial de hoje” (pg. 81).

É revelador dos dotes de Chang como pensador e prosador (ou do fraco julgamento que Chang faz dos padrões dos leitores) que julgue que, para criar uma ilusão de coerência e consequência num capítulo que derivou caoticamente das gambas al ajillo à protecção das indústrias nascentes, basta que, no último parágrafo, cole arbitrariamente a designação “camarões” aos países em vias de desenvolvimento.

Da paixão coreana por massa à crítica da idolatria do empreendedor visionário

Outro exemplo típico da caprichosa linha de pensamento de Chang é o capítulo “Massa”, que se desenrola assim: Receita telegráfica. Os sul-coreanos como consumidores n.º 1 de massa no mundo. Estonteante variedade das massas coreanas (ainda que limitada no que toca à forma, que só admite fios e tiras). Estupefacção do autor quando, no final dos anos 1980, em Itália, provou pela primeira vez massa (pasta) italiana. Estonteante variedade de formas da massa italiana. “Obsessão italiana com as formas da pasta” leva a marca Voiello (do grupo Barella) a encomendar “ao famoso designer industrial Giorgetto Giugiaro a criação da forma de massa perfeita”. Giugiaro concebe a massa Marille, lançada em 1983. Massa Marille redunda em fiasco, mas Giugiaro torna-se no “mais bem sucedido e influente designer automóvel do último meio século”. Em 1975, a então ainda “completamente desconhecida” Hyundai encomenda a Giugiaro o design do seu primeiro modelo original de automóvel, o Pony. O Pony tem um sucesso modesto. Nas décadas seguintes, a Hyundai cresce “a um ritmo incrível”. Em 2015, a produção da Hyundai ultrapassa a da General Motors. Primeira explicação para o sucesso da Hyundai: a “visão ambiciosa” dos fundadores e líderes da empresa, os irmãos Chung. Segunda explicação: a qualidade dos força de trabalho da Hyundai. Terceira explicação (a mais relevante, no entender de Chang): a política proteccionista do Governo coreano no sector automóvel. Conclusão: “Desde o final do século XIX, com a produção em grande escala, as tecnologias complexas e os mercados globais, o sucesso empresarial tem sido o resultado de um esforço colectivo, e não individual, envolvendo não só líderes empresariais, mas também trabalhadores, engenheiros, cientistas, gestores profissionais, decisores políticos e até consumidores” (pg. 92).

A arte da tecelagem

Quando faz um balanço do seu próprio livro, na “Conclusão”, Chang admite que, “muitas vezes, o tema económico e o percurso que nos levou até ele foram, francamente, bizarros”, mas diz gostar “de pensar que o fiz de uma forma que não desmerece o género em que Alan Bennett e W.G. Sebald são mestres” (pg. 214). Infelizmente para Chang, as suas divagações erráticas estão menos próximas de W.G. Sebald do que de Donald Trump. A concatenação arbitrária de assuntos díspares praticada por Chang tem afinidades com a técnica de “tecelagem” empregue por Donald Trump nos seus discursos e que o próprio descreveu assim, com a modéstia que lhe é inata, num comício em Setembro de 2024: “Sabem, eu faço a tecelagem [I do the weave]. Falo de, tipo, nove coisas diferentes e todas elas se reencontram brilhantemente. E há amigos meus que são, tipo, professores de Inglês e dizem ‘É a coisa mais brilhante que alguma vez vi’. Mas as ‘fake news’, sabem o que dizem? Que eu divago. Isto não é divagar. Quando tens, o que faço é, desvio-me de um assunto e menciono outro nacozinho e depois regresso ao tema, e faço isto durante duas horas a fio e não falho a pronúncia de uma só palavra” (ver capítulo “Um tipo muito esperto” em Donald Trump: Anatomia de um narcisista).

Trump tem imenso orgulho nesta sua “habilidade” e a 10 de Abril de 2025, numa reunião do seu gabinete na Casa Branca proclamou: “Sou o maior tecelão de todos os tempos. Para tecer é preciso ser um génio”. Só não reivindicou estar no patamar de W.G. Sebald (ou até superá-lo) porque não faz a mais pequena ideia de quem Sebald possa ser.

As narrativas em roda livre de Trump e de Chang são facilmente desmontáveis se o ouvinte ou leitor parar para pensar. Retomando o exemplo do capítulo “Massa”, Giugiaro entra de supetão numa história que, até à altura, tratara de massas alimentícias apenas porque foi chamado a desenhar uma massa para a Barella, o maior fabricante mundial de massas – mas a massa de Giugiaro foi um fiasco e foi tão rapidamente esquecida que não deixou qualquer marca na gastronomia italiana. O elo seguinte da “cadeia” é outra falácia: o Hyundai Pony foi apenas um dos cerca de trezentos modelos de automóveis, de dezenas de marcas, desenhados por Giugiaro ao longo da sua prolífica carreira; não foi um sucesso de vendas, não colocou o nome Hyundai nas bocas do mundo e não é o modelo em que todos pensam quando se fala de Hyundai. Por outro lado, o Pony está longe de ser o design mais emblemático, inovador ou esteticamente conseguido de Giugiaro, não foi copiado pelos designers rivais e não representa um marco na história do design automóvel.

Luis Suárez e Milton Friedman entram num bar…

O capítulo “Carne de vaca” é um exemplo paradigmático das capacidades de Chang como “tecelão” de narrativas: abre com a pergunta “Qual é a melhor nação de futebol do mundo?” e dá como resposta o Uruguai, que, além de ser “a casa de Luis Suárez, o brilhante jogador que é, de forma bizarra, célebre por morder outros jogadores”, também “tem registos impressionantes em matéria de direitos políticos e cívicos”. Mas não é destes registos nem de futebol que Chang quer falar, pois logo inflecte para “outra área em que o Uruguai tem estado no topo da liga internacional”: a carne de vaca. Desta passa para o “corned beef” (carne curada em sal) e aproveita-se do vínculo etimológico entre o termo “corned” (alusivo aos grãos de sal usados na cura) e o termo “corn”, usado na Grã-Bretanha para designar genericamente os cereais (ou os seus grãos), para dar um salto para as Corn Laws de 1815, que instituíram taxas aduaneiras e outras medidas restritivas da importação de cereais estrangeiros, de forma “a proteger os produtores britânicos”; assim, após uma estonteante sucessão de piruetas, entramos no assunto que Chang pretende realmente abordar, que é o do histórico confronto entre livre comércio e proteccionismo – em que o economista Milton Friedman intervém como paladino do livre comércio.

Mas Chang não é capaz de manter-se focado num assunto durante muito tempo e na penúltima página do capítulo, insere um parágrafo, completamente despropositado, sobre os custos ambientais da produção de carne de vaca, antes de retomar a denúncia da hipocrisia subjacente, na prática, ao conceito de livre comércio, pois este “não significa que todos beneficiem de forma igual, uma vez que as regras do comércio internacional são definidas e administradas pelos países mais fortes em seu próprio proveito”.

Mesmo que se esteja alinhado com a perspectiva que Chang tem do comércio livre, é difícil não ficar nauseado com a forma errática e arbitrária com que encadeia ideias. Usando a técnica de associação livre de Chang é possível partir de um alho-porro e, após meia dúzia de “saltos” argumentativos, concluir que a aplicação das teorias de Milton Friedman e da “Escola de Chicago” tende a produzir sociedades igualitárias e centradas na responsabilidade social, ou que nenhum modelo económico é tão eficaz na promoção da prosperidade dos povos como o socialismo bolivariano.

Contra a “estereotipagem cultural”

No capítulo “Bolota”, Chang pretende desmontar a ideia muito difundida de que o desenvolvimento económico dos diferentes países é determinado em boa parte pelos valores culturais da sua sociedade – é disto exemplo a atribuição do “‘milagre económico’ do Leste Asiático à cultura confucionista da região” (pg. 38) e do declínio económico do mundo islâmico à intolerância, ao fundamentalismo e ao alheamento das questões práticas que seriam inatos à fé islâmica. Chang alerta para o risco de a “estereotipagem cultural” poder “deturpar a realidade e [impedir-nos] de compreender os verdadeiros mecanismos em jogo” (pg. 38).

No caso dos países de fé islâmica, Chang lembra que:

1) O Corão enfatiza o valor do conhecimento, nomeadamente quando afirma que “A tinta do erudito é mais sagrada do que o sangue do mártir”.

2) Os muçulmanos, ao traduzirem “muitas obras clássicas gregas e latinas para árabe, [preservaram-nas] para que que mais tarde pudessem ser retraduzidas para as línguas europeias”, enquanto os cristãos da Europa tinham negligenciado ou até destruído activamente textos gregos e latinos anteriores ao cristianismo, declarando-os pagãos” (pg. 36).

3) “Na Idade Média, o mundo muçulmano estava muito mais avançado do que a Europa em matemática e ciência” (pg. 36).

Chang defende, portanto, que “não há nada de intrinsecamente antidesenvolvimento na cultura muçulmana” e que “a Malásia e o Dubai ilustram que o Islão é compatível com o progresso económico” (pg. 38). Porém, a sua argumentação apresenta várias falhas.

Por um lado, sobrevaloriza e interpreta enviesadamente a chamada Idade de Ouro da ciência árabe, ao não considerar que esta:

1) Começou a perder fulgor logo no início do século XII.

2) Apenas teve lugar dentro do círculo muito restrito e pouco poroso das cortes de alguns governantes “iluminados”, sem que os conhecimentos aí acumulados ou criados se difundissem para o resto da sociedade e produzissem mudanças na forma como esta gerava riqueza e se organizava.

3) Não resultou de os valores islâmicos promoverem a livre inquirição e a busca de conhecimento – pelo contrário, resultou de alguns governantes invulgarmente liberais e tolerantes terem, temporariamente, ignorado ou relegado para segundo plano os preceitos ditados pela hierarquia religiosa; assim, com o triunfo, a partir do século XII, do movimento de retorno da sociedade islâmica à “pureza inicial” da religião, as limitadas conquistas da Idade de Ouro da ciência árabe esfumaram-se sem deixar vestígio na sociedade islâmica.

4) Teve, sem dúvida, o mérito de chamar a atenção da Europa para muitos textos clássicos latinos e gregos negligenciados nos primeiros tempos da Idade Média europeia e suscitou frutuosos comentários e debates em torno deles, mas a maior parte desses textos não tinham sido perdidos e a Europa do Renascimento reencontrou-os, na versão original, e devolveu-lhes protagonismo a partir do século XV.

Comprovando que a Idade de Ouro da ciência árabe se revestiu de um carácter pontual, excepcional e alheio (ou até contrário) à fé islâmica (sobretudo à versão mais fundamentalista desta), a ciência & tecnologia no mundo islâmico entraram, a partir do século XIII, num marasmo que se tem prolongado até aos nossos dias.

Basta considerar que, proporcionalmente ao número de crentes, é modesto o número de muçulmanos que se distinguiram na ciência e tecnologia no último século e que, nesse pequeno número, a esmagadora maioria corresponde a investigadores que abandonaram o mundo islâmico e trabalharam em instituições académicas e científicas ocidentais (para uma análise mais detalhada da relação entre Islão e ciência & tecnologia ver Como a Idade de Ouro da ciência árabe mudou o mundo pt.1: Ascensão, A Idade de Ouro da ciência árabe pt.2: Como um admirável progresso encontrou o declínio e A Idade de Ouro da ciência árabe pt.3: Um longo sono).

Países ricos e países pobres

O debate sobre a relação entre os valores incutidos na sociedade pela religião dominante e o desempenho económico dessa sociedade é antigo e tem como obra mais famosa e influente A ética protestante e o espírito do capitalismo (1934), de Max Weber, que associa o triunfo económico da Europa Setentrional – em particular da Holanda e de Inglaterra, países-berço do capitalismo moderno – à ética de trabalho e ao encorajamento da literacia associados ao protestantismo (e, em particular, ao calvinismo), dois factores que seriam propícios ao empreendedorismo e à acumulação de capital.

O facto de as teorias de A ética protestante e o espírito do capitalismo terem ampla difusão não significa que sejam consensuais – aliás, mal o livro foi publicado, começaram a ser alvo de objecções várias, vindas de diversos quadrantes. Eis alguns exemplos dessa contestação: 1) num estudo sobre o desempenho económico das cidades alemãs entre 1300 e 1900, as cidades que abraçaram o protestantismo não registaram melhores resultados do que as que se mantiveram fiéis ao papa; 2) o catolicismo não impediu que França fosse, durante séculos uma das maiores potências económicas da Europa e ainda ocupe hoje o 7.º lugar no ranking global do PIB; 3) apesar de a Finlândia ter aderido no final do século XVI ao luteranismo e de este ter moldado profundamente a sociedade finlandesa, em 1900 a economia finlandesa ainda assentava quase exclusivamente numa agricultura pouso sofisticada e o PIB per capita, de 340 dólares/ano, era similar ao espanhol (351 dólares), ao italiano (335 dólares) e ao grego (300 dólares).

No aceso debate sobre os factores que podem explicar a razão de umas nações prosperarem e outras estiolarem, uma das obras mais relevantes do presente século é Porque Falham as Nações: As origens do poder, da prosperidade e da pobreza (2012), de Daron Acemoğlu (que viria a receber o Prémio Nobel da Economia em 2024) e James A. Robinson, que refuta as explicações de ordem religiosa propostas por Weber (e também as explicações de outra natureza propostas por David S. Landes, Jared Diamond e outros autores) para a desigualdade entre países; Acemoğlu & Robinson apontam antes como factor determinante a qualidade das instituições políticas de cada país.

A verdade é que a história económica (e a história em geral) é demasiado complexa e caótica (no sentido da Teoria do Caos de Edward Lorenz) para poder ser reduzida a um único factor – por muito sagazes que sejam as teorias explicativas dificilmente podem ser aplicadas a todos os países, todos os produtos e todas as épocas. A religião pode ser determinante no condicionamento (positivo ou negativo) do progresso económico num país, ou grupo de países, durante um certo período de tempo, mas, noutros períodos, pode ser suplantada por outros factores e circunstâncias, ainda que a fé religiosa da população e os valores que lhe estão associados não tenham sofrido alteração.

A Coreia do Norte e a Coreia do Sul partilharam a mesma cultura confucionista durante muitos séculos, mas tomaram caminhos radicalmente diferentes após a cisão da Península da Coreia após a II Guerra Mundial. Em 1953, quando foi assinado o armistício que pôs termo à Guerra da Coreia, a Coreia do Sul era um dos países mais pobres do mundo, com um PIB per capita de 67 dólares; a Coreia do Norte, por ter sido a região mais industrializada durante a ocupação japonesa de 1910-45, registava 117 dólares, uma quantia ainda assim irrisória, correspondente apenas a 5% do PIB per capita dos EUA em 1953. Em 1957, o PIB per capita do Norte pouco ou nada crescera, mas o do Sul já era de 490 dólares, um valor idêntico ao do Gana, que obtivera a independência nesse ano e era um dos países africanos mais ricos (ou melhor, menos pobres).

Nas estimativas de PIB per capita para 2026 calculadas pelo Fundo Monetário Internacional, a Coreia do Sul ronda os 37.500 dólares e ocupa o 35.º lugar do ranking global, enquanto o Gana se queda pelos 3200 dólares e pelo 137.º lugar e a Coreia do Norte, sobre as quais não existem dados económicos fiáveis, terá um PIB per capita a rondar 640 dólares (estimativa da ONU para 2024), o que a coloca em 189.º lugar, apenas acima do Burundi, do Afeganistão, do Yemen e do Sudão do Sul (quatro países que são ou foram recentemente perturbados por guerras civis, guerras regionais e movimentações maciças de refugiados, enquanto a Coreia do Norte tem gozado de 73 anos ininterruptos de paz e estabilidade).

A diferente evolução das economias da Coreia do Sul e do Gana tem sido recorrentemente citada por economistas e politólogos, nomeadamente por Samuel P. Huntington, no seu célebre livro de 1996, O choque de civilizações (ver capítulo “O fim da história, o choque de civilizações e outros equívocos” em Civilização ocidental: Josephine Quinn desafia a visão tradicional da história?). Chang cita um trecho em que Huntington justifica a diferença por “os sul-coreanos [valorizarem] a poupança, o investimento, o trabalho árduo, a educação, a organização e a disciplina. Os ganeses tinham valores diferentes”. Chang denuncia esta explicação como “um exemplo perfeito de estereotipagem cultural”, nega que os valores coreanos apontados por Huntington decorram do confucionismo e defende que “o que uma sociedade faz com a sua matéria-prima cultural é, em grande parte, uma questão de escolha e, portanto, de acção política”. O velocíssimo desenvolvimento da Coreia do Sul (e do Japão) a partir da década de 1950 foi, segundo Chang, consequência de uma série de medidas governamentais que instauraram hábitos de pontualidade e “disciplina industrial”, incentivaram a frequência de cursos superiores na área das ciências e engenharias e, em paralelo, fomentaram o nascimento de indústrias capazes de acolher e potenciar esta mão-de-obra altamente qualificada.

Simplificações primárias e conclusões falaciosas

Se, no caso da Coreia do Sul, a argumentação de Chang é convincente, já a afirmação de que “a Malásia e o Dubai ilustram que o Islão é compatível com o progresso económico” é muito discutível:

1) Chang pretende refutar uma afirmação que ninguém sensato faz: a de que o Islão é incompatível com o progresso económico ou, mais genericamente, que a religião maioritária de um país determina automaticamente o seu destino. O que muitos pensadores têm defendido é que a fé islâmica tende a gerar condições que não favorecem o progresso científico e tecnológico. Porém, as circunstâncias geográficas, geológicas e históricas, a natureza do Estado e as medidas tomadas pelos governantes podem sobrepor-se à componente cultural e gerar um invejável nível de prosperidade – que não está, necessariamente, correlacionado com o progresso científico e tecnológico do país.

2) Existem cerca de 50 países em que o islamismo é professado por mais de 50% da população e a população somada dos 57 países-membros da Organização para a Cooperação Islâmica ronda os 1800 milhões. Cada um destes países tem características próprias, pelo que não existe um “país islâmico padrão”; na verdade, como se verá adiante, a Malásia e o Dubai são dois casos excepcionais (por razões diferentes) no panorama dos países islâmicos, pelo que não permitem fazer generalizações (positivas ou negativas) sobre islamismo e desenvolvimento económico.

3) O simplismo primário da divisão do mundo em países islâmicos e não-islâmicos decorre de se ignorar a existência neles de diferentes graus de separação entre Estado e religião. Entre os países com população maioritariamente islâmica há a) os que se assumem como Estados islâmicos (Arábia Saudita, Omã, Yemen, Irão, Afeganistão, Paquistão, Mauritânia, etc.); b) os que, embora reconhecendo o Islão como religião oficial, não se assumem como Estados islâmicos (Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Egipto, Iraque, Kuwait, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Bangla Desh, Malásia, etc.); c) aqueles cuja Constituição é omissa quanto à relação entre Estado e religião (Sudão, Indonésia, etc.); d) os que se assumem (pelo menos formalmente) como Estados seculares (Turquia, ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central, etc.). Um dos elementos mais relevantes na maior ou menor separação entre Estado e religião é a interferência da lei islâmica (sharia) no sistema judicial do país.

4) As circunstâncias geológicas também podem ser determinantes na prosperidade dos países e acontece que todos os países islâmicos que hoje desfrutam de um elevado PIB per capita foram abençoados com copiosas jazidas de petróleo e/ou gás natural. É certo que os combustíveis fósseis não garantem vida desafogada – que o digam os venezuelanos, detentores das maiores reservas de petróleo do mundo – mas dão uma boa ajuda.

5) O PIB per capita médio nos países islâmicos ronda os 16.000 dólares/ano, mas este valor tem escasso significado, pois resulta da confluência de realidades muito diversas, que podem assim ser sintetizadas: num extremo estão as monarquias do Golfo Pérsico, como o Qatar (PIB per capita de 76.500 dólares; estimativa do FMI para 2026), os Emirados Árabes Unidos/EAU (54.000 dólares) ou a Arábia Saudita (36.000 dólares); no outro extremo estão países como a Somália (800 dólares), o Sudão (763 dólares), o Afeganistão (417 dólares) ou o Yemen (400 dólares). A prosperidade das monarquias do Golfo Pérsico deve-se maioritariamente à lotaria geológica e na maior parte deles o petróleo e o gás natural são a fonte de rendimentos n.º 1.

Como Chang não gasta uma linha sequer a justificar a sua afirmação de que “a Malásia e o Dubai ilustram que o Islão é compatível com o progresso económico” – o que não é de estranhar num livro em que a economia propriamente dita disputa o espaço com a enumeração dos gostos e embirrações gastronómicas do autor – os dois próximos capítulos apresentarão os factos que atestam a excepcionalidade da Malásia e do Dubai no panorama dos países islâmicos.

O caso da Malásia

É abusivo colocar a Malásia entre os países prósperos, pois ocupa o 73.º lugar no ranking do PIB per capita (estimativas do FMI para 2026), enquanto o país mais pobre da União Europeia, a Bulgária, ocupa o 57.º lugar. Ainda assim a sua posição é bem mais confortável do que a de países como Argélia (113.º lugar), Indonésia (117.º lugar), Marrocos (120.º lugar), Irão (131.º lugar), Egipto (134.º lugar), Bangladesh (142.º lugar) ou Paquistão (160.º lugar), que integram o grosso do “pelotão islâmico” e representam a maior fatia da população islâmica global.

A Malásia tem a seu favor uma economia dinâmica, moderna, competitiva e profundamente integrada no comércio internacional e conta com uma força de trabalho qualificada. Embora a lotaria geológica também a tenha contemplado com petróleo e gás natural, que representam 12-14% das exportações do país, o seu sector mais forte é o fabrico de produtos eléctricos e electrónicos (36-42% das exportações); outros sectores exportadores relevantes são os produtos químicos (7%) e o óleo de palma (5%). O sector dos serviços representa mais de 50% do PIB malaio, com destaque para os serviços financeiros, transportes e turismo. A Malásia parece estar bem posicionada para enfrentar as próximas décadas, sendo uma potência emergente no fabrico de microprocessadores e tendo, recentemente, sido escolhida pelas empresas de Big Tech para fortes investimentos em centros de dados e de “computação na nuvem”, pelo que se prepara para assumir o papel de nó principal da indústria digital no Sudeste Asiático. Estas características justificaram que, em 2025, a economia malaia figurasse no 23.º lugar (entre 69) do Relatório de Competitividade Global do Fórum Económico Mundial (a economia portuguesa ficou em 37.º).

O caso do Dubai

Uma vez que o Dubai faz parte dos Emirados Árabes Unidos/EAU não é fácil analisar separadamente os seus dados económicos. Mas é seguro afirmar que não só era, à partida, o membro dos EAU menos dotado de petróleo e gás natural, como essas reservas já foram praticamente esgotadas e os combustíveis fósseis representam hoje 1% do seu PIB, enquanto continuam a representar 23% do PIB dos EAU como um todo. Esta parcela era, nos EAU, de 85% em 2009, o que mostra que o país tem vindo a fazer um notável esforço de diversificação económica, num processo que tem sido claramente liderado pelo Dubai.

O colossal investimento do Dubai em infra-estruturas portuárias e aeroportuárias e na companhia de aviação Emirates converteu o pequeno emirado de 3.5 milhões de habitantes num crucial entreposto marítimo e aéreo, quer no contexto do Médio Oriente quer à escala planetária. A posição privilegiada nos transportes e a pujança dos sectores turístico, imobiliário e de serviços financeiros permitem compensar a perda de receitas do petróleo e gás e assegurar a Dubai um PIB apenas ligeiramente inferior à média dos EAU (sobre o passado e o presente do Dubai ver Dubai: A história, a política, os números e o paradigma da insustentabilidade).

Apesar de o Dubai poder gabar-se de a sua presente prosperidade não estar dependente do petróleo, a verdade é que, se não fosse a sua pertença aos EAU, não teria tido os meios financeiros – e a coragem – para operar a metamorfose da sua estrutura económica e para perseverar perante conjunturas adversas. Quando a crise financeira de 2008 suspendeu os megalómanos projectos imobiliários que tinham colocado o Dubai nas primeiras páginas e causou perdas de 50-60% no valor do seu sector imobiliário, o que salvou o emirado da bancarrota foi o amparo financeiro dos seus parceiros produtores de petróleo e gás.

Apesar da ostentação futurista da arquitectura, do gigantismo e opulência dos centros comerciais, da profusão de eventos desportivos, conferências e outros eventos mediáticos de dimensão planetária e do glamour de uma vida social abrilhantada pelos mais de 80.000 milionários residentes (dos quais cerca de 250 possuem mais de 100 milhões de dólares e uma vintena ultrapassa os 1000 milhões), o Dubai está longe de ser um modelo de desenvolvimento sustentável do ponto de vista ambiental, económico ou social – na verdade, pode ser visto como a mais espectacular e feérica manifestação do instável conúbio entre capitalismo financeiro e especulativo de última geração e monarquia absolutista de inspiração islâmica (ver capítulos “Um arranha-céus assente em areias movediças” e “Castelos de areia à beira-mar” em Dubai: A história, a política, os números e o paradigma da insustentabilidade).

O “progresso económico” do Dubai tem como faces visíveis o porto de Jebel Ali, o Aeroporto Internacional do Dubai, as 1200 lojas e 200 restaurantes do Dubai Mall, os 250 aviões da Emirates (metade dos quais são gigantescos Airbus A380), os 345 arranha-céus (com o Burj Khalifa à cabeça), os 14 campos de golfe, as sumptuosas moradias das Palm Islands, os iates na Dubai Marina, as corridas de cavalos da Dubai World Cup, o Grande Prémio de Fórmula 1 e as camisolas das equipas de futebol do Arsenal, Real Madrid, AC Milan, Lyon e Benfica.

Mas esta fachada refulgente oculta uma realidade sombria e a verdadeira razão do sucesso do Dubai não reside na ética de trabalho, na tolerância, no apetite pelo conhecimento ou no talento para o negócio supostamente associados à cultura islâmica, mas numa razão bem mais prosaica: os seus governantes tomaram uma série de medidas que converteram o emirado num dos mais sedutores paraísos fiscais do planeta. O Dubai, que tem de importar tudo o que come e até a água que bebe (ou de obter esta através da dessalinização da água do mar), e que, com excepção do alumínio saído das instalações da DUBAL em Jebel Ali, não produz matérias-primas dignas de relevo nem fabrica produtos transaccionáveis (sejam eles úteis e satisfaçam necessidades reais, ou sejam estritamente frívolos), é hoje o mais afamado fornecedor de três “bens” avidamente procurados pelas classes possidentes e pelo crime organizado de todo o planeta: discrição, impunidade e um regime fiscal absurdamente benévolo.

O Dubai acolhe, de braços abertos e sem fazer perguntas, empresários e banqueiros de toda a sorte, traficantes de armas e de drogas, influencers, investidores em criptoactivos, socialites, estrelas do desporto, do cinema e da trash TV, figuras da realeza caídas em desgraça, autocratas afastados do poder, cleptocratas que perderam o favor do regime, ex-governantes com contas a prestar à justiça ou às autoridades tributárias. O Dubai é um oásis para quem sente relutância em pagar impostos, uma das maiores e mais buliçosas “lavandarias” de dinheiro sujo do mundo, um hub para a criminalidade de colarinho-branco que veste Gucci e Hugo Boss e tem malas de viagem Louis Vuitton. É, ao mesmo tempo, a Meca do consumo conspícuo (é o campeão mundial em despesa per capita em artigos de luxo) e, tal como assegura privacidade a quem a deseje, é também o lugar ideal para quem busca notoriedade e “likes”, pois as qualidades eminentemente “instagramáveis” do seu “skyline” e a aura associada ao seu “lifestyle” fazem dele um íman para quem tem como ocupação principal exibir (ou simular) uma vida de luxo e dissipação nas redes sociais. O foco de atracção para os turistas que demandam o emirado não são as suas paisagens naturais nem o seu património histórico e artístico: é a celebração – em modalidade kitsch e em tonalidades oriental-futuristas – da opulência, do excesso e do poder bruto do dinheiro.

Outra vertente da diversificação económica do Dubai passou pelo desenvolvimento da indústria de refinamento de metais preciosos (ainda que o emirado não os produza) e da tomada de medidas que propiciaram a sua ascensão a primeira praça do mundo no comércio de diamantes em bruto e de segunda praça do mundo no comércio de ouro (só atrás da Suíça). Porém, este último triunfo tem um lado sinistro: o Dubai é também a principal “lavandaria” para ouro proveniente do Rwanda e do Burundi e que na verdade é “blood gold”, extraído por métodos artesanais e em condições desumanas nas regiões dilaceradas pela guerra da República Democrática do Congo e contrabandeado para os países vizinhos.

O Dubai não gera riqueza; atrai riqueza gerada noutros lugares ao oferecer condições aliciantes aos detentores daquela (os três “bens” acima mencionados) e ao criar o caldo de luxo e privilégio em que as classes possidentes adoram banhar-se – os pobres gostariam de poder evitar a companhia dos outros pobres, mas os ricos necessitam da validação dos seus pares (de que serve andar com uma mala Birkin, da Hermès, no meio de ignaros que não sabem o que é e quanto custa uma mala Birkin e quão longa é a lista de espera para adquirir uma?). O Dubai é, como todos os paraísos/oásis fiscais, uma entidade parasitária e o seu modelo de “desenvolvimento económico” não é replicável no resto do mundo, pois o conceito de paraíso fiscal só é viável se tiver um carácter excepcional (e, de preferência, restrito a micro-estados) e se a grande maioria dos países continuar a comportar-se de forma genericamente “correcta”.

O Dubai é, também, um comprovativo eloquente da tese de Chang de que as políticas implementadas pelo Estado prevalecem sobre o substrato cultural de um país. Para que um país alcance o tipo de “progresso económico” de que o Dubai é hoje símbolo, é indiferente que os seus valores culturais de origem sejam islâmicos, confucionistas, calvinistas, presbiterianos ou budistas: o que é essencial é o oportunismo e a ausência de escrúpulos. Estranha-se, pois, que Chang se limite a mencionar o Dubai, sem nada acrescentar ou elucidar, até porque Chang teria um excelente pretexto gastronómico para contar a história de sucesso do emirado: poderia partir do pistácio e usar o “chocolate do Dubai” como trampolim. Porém, Economia comestível foi publicado em 2022, o mesmo ano em que o “chocolate do Dubai” foi discretamente lançado (o seu ritmo de fabrico era, então, de apenas 25 barras por dia) – seriam precisos mais dois anos para que os influencers das redes sociais fizessem dele um “fenómeno viral”.

Elvis Sandwich (e Coca-Cola para empurrar)

Sendo a componente económica do livro pouco substancial e requentada, poderia esperar-se, ao menos, que a parte gastronómica fosse recompensadora e original. Ainda que as histórias da origem e difusão dos alimentos se leiam com proveito, a parte em que o autor enumera os seus gostos não só é de nulo interesse para o leitor como arruína a imagem de gastrónomo sofisticado e bem informado que Chang pretende projectar.

É disto exemplo a abertura do capítulo “Banana”, que começa com a exaltação de uma das mais infelizes criações da “culinária” norte-americana: a Elvis Sandwich, “uma sanduíche de banana e manteiga de amendoim (muitas vezes, mas não necessariamente, com bacon; às vezes com mel ou jelly), adorada por Elvis Presley. […] A combinação do sabor doce e cremoso da banana com o sabor ligeiramente salgado da manteiga de amendoim é simplesmente irresistível”. A única coisa abonatória que pode dizer-se desta abominação é que o nome é apropriado: a “Elvis Sandwich” está para a gastronomia como Elvis Presley (sobretudo o Elvis dos anos 70) está para a música.

Na América do Norte, o eficaz extermínio dos ameríndios (e o acantonamento dos poucos sobreviventes nos recantos mais remotos e inóspitos do país), aliado às muito diferentes origens dos colonos europeus que tomaram o seu lugar, criaram um “vazio gastronómico” ou uma “indefinição gastronómica” (com excepções localizadas como a cozinha crioula da Louisiana), de que a indústria se apropriou desde muito cedo, inventando “tradições”, hediondas dos pontos de vista gustativo e nutricional, mas fabulosamente lucrativas para as empresas que as comercializam. Com o inestimável contributo de maciças campanhas de marketing, estas “tradições” conquistaram rapidamente todo o país, saltando sobre barreiras geográficas e de classe e passando a fazer parte integrante da “identidade americana”.

A natureza “democrática” das mais populares “tradições gastronómicas” americanas – que, na verdade, não passa de um nivelamento pelo mínimo denominador comum, algo bem diferente de democracia – foi assim celebrada pelo artista-comerciante-intrujão Andy Warhol num texto de louvor à Coca-Cola: “O que é fantástico neste país é que a América foi iniciadora da tradição de os consumidores mais ricos consumirem basicamente as mesmas coisas que os pobres” (ver capítulo “O reino do dólar (e da Coca-Cola)” em Ideologia, pop art e refrigerantes: Uma monumental história intelectual dos anos da Guerra Fria). Note-se que a observação de Andy Warhol sobre a “democraticidade” da Coca-Cola não foi inovadora, já que a própria marca há muito se ufanava dessa sua virtude nas suas campanhas publicitárias.

Chang coloca a Coca-Cola no título de um capítulo – onde argumenta contra o Consenso de Washington – embora admita que ela não o satisfaz inteiramente: “Não posso dizer que seja um consumidor regular de Coca-Cola ou de qualquer outro tipo de cola. Mas, por vezes, numa tarde quente de Verão […], não há nada como uma Coca-Cola gelada” (pg. 128). Chang diz bebê-la “com (muitos) cubos de gelo”, porque o defeito que encontra nela é ser “demasiado doce por si só e preciso de a diluir”.

É revelador que alguém que, ao longo de duas centenas de páginas, se esforça por projectar a imagem de gourmet criterioso e de homem do mundo não tenha outro reparo a fazer a um produto industrial feito de “água gaseificada, cafeína, ácido fosfórico, um corante sintético (E150d), doses generosas de açúcar, doses mínimas de extractos vegetais e doses cavalares de marketing” e em que o ingrediente mais dispendioso é, por larga margem, o marketing (ver capítulo “Coca-Cola” em Da Coca-Cola à Inca Kola: Breve história dos refrigerantes de cola). O americano médio que está convencido de que sanduíches de manteiga de amendoim e jelly e refrigerantes industriais são uma combinação irresistível poderá invocar como atenuante o facto de ter sido condicionado desde a mais tenra idade pelo ambiente familiar, pelos seus pares, por uma paisagem gastronómica dominada por megacadeias de fast food e pela poderosa máquina publicitária do complexo alimentar-industrial. Porém, o professor Ha-Joon Chang formou o seu gosto na culinária coreana e é um homem cosmopolita e abastado, pelo que a sua opção por Elvis Sandwiches e Coca-Cola recai inteiramente sobre ele, sem qualquer atenuante.

Fast food de fusão

Num mundo cada vez mais gerido por critérios económicos e em que o debate político é, frequentemente, reduzido à dimensão económica, é crucial para o cidadão comum possuir conhecimentos elementares sobre esta matéria (o que inclui estar consciente de que a economia está longe de ser uma ciência exacta) e ter capacidade para analisar a exequibilidade e as consequências previsíveis das medidas económicas que são diariamente debatidas no palco mediático por governantes, políticos e opinadores. Assim, sendo, são bem-vindos livros que explanem a economia de forma acessível e interpretem a complexidade do mundo à luz do pensamento económico.

Economia comestível não faz parte deste grupo, devido às debilidades estruturais já apontadas, mas também porque os vários desmazelos e falhas de rigor dão a impressão de ter sido enjorcado para satisfazer um compromisso com o editor, ainda que o autor nos informe de que a obra teve 16 anos de gestação e beneficiou do contributo de académicos conceituados, familiares, amigos e editores, que providenciaram comentários, críticas e sugestões.

A natureza heteróclita e incongruente de Economia comestível faz pensar nos produtos de fast food ostensivamente contra natura que, nos últimos anos, têm sido colocados no mercado pelo complexo alimentar-industrial americano, não com a intenção de conquistar com eles uma significativa fatia de mercado (são quase sempre “edições limitadas”), mas de gerar excitação e falatório nas redes sociais e, assim, reforçar a notoriedade da marca e conferir-lhe uma aura de inovação, originalidade e audácia. As reacções a estes híbridos nem sempre são positivas – houve quem tivesse cunhado o termo “stupid food” para os designar – mas, na Era da Economia da Atenção, a velha máxima “não existe má publicidade” é mais válida do que nunca.

Entre muitos exemplos possíveis desta tendência estão os Mustard Skittles (drageias coloridas com cobertura rígida de açúcar, mas em que o usual sabor sintético a frutas dá lugar ao sabor a mostarda industrial), as Velveeta Gold Chocolate Truffles (“trufas” de chocolate com sabor a pseudo-queijo industrial Velveeta), o Kraft Macaroni & Cheese Ice Cream (gelado com sabor às populares refeições instantâneas de macarrão cozido com pseudo-queijo de viva coloração laranja), e o Doritos Flamin’ Hot Limón Sushi (rolo de sushi com tempura de camarão, caranguejo picante, pepino e abacate, envolto em bocados triturados de Doritos Flamin’ Hot Limón Flavored Tortilla Chips, ou seja, batatas fritas industriais ultra-picantes com sabor a lima). Economia comestível está longe de ser tão frívolo e obnóxio como estes produtos – na verdade tem porções legíveis e enriquecedoras – mas partilha do seu espírito e pode indispor estômagos mais sensíveis.