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(A) :: Dançar, chorar e brindar na cave, com Ora Cogan

Dançar, chorar e brindar na cave, com Ora Cogan

No bar imaginário desta canadiana vamos da folk eletrificada ao psicadelismo melancólico. Tudo para gente com maleitas emocionais por confessar. Este bar chama-se "Hard Hearted Woman", o novo álbum.

João Bonifácio
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Com alguma frequência, quando alguém quer descrever certo tipo de objeto musical, dá por si a fazer menção a um qualquer imaginário bar da má vida: um sítio fumarento, com sofás de veludo, povoado por personagens duvidosas, com muito cigarro e álcool e em que, invariavelmente, as canções ruminam obsessivamente sobre temas como o pecado e o arrependimento.

Esses bares imaginários de má fama são, hoje, isso mesmo: imaginários. Quem quer ver alguém cantar tem de comprar um bilhete para um concerto; o bar para o qual os solitários da vida (e os bêbedos, os drogados e os adúlteros) se dirigiam para beber e se sentirem vingados ao ouvir a voz do crooner em cima do palco – esses bares desapareceram. Hoje os bares não são para gente parada ao balcão – têm DJs e só aceitam felicidade na pista.

Mas é exatamente num bar assim que penso quando ouço o magnífico Hard Hearted Woman, de Ora Cogan. Não nos bares folk do início dos anos 60, em Nova Iorque, quando começou o revivalismo do género, mas nos bares fumarentos, com cortinas de lantejoulas e bola de espelhos, como o Maxime, aquando da segunda passagem dos Beach House por cá, em 2008.

Isto apesar de Hard Hearted Woman ser, teoricamente, um disco folk. Digo teoricamente porque depois, a meio, acontecem coisas como Bury Me, uma faixa que usa as regras do pós-punk para se mover entre sombras, antes de uma torrente de violinos nos recordar que ela não aprecia propriamente purismos e que, com ela, temos sempre de esperar justaposições inesperadas.

Numa recente conversa com a revista Treble ela citava os seus artistas de eleição: tínhamos J.J. Cale, Nina Simone, Dolly Parton, música klezmer, Norma Tanega e Townes Van Zandt – OK, é gente que em geral tende a ir para o negrume da vida, mas o caminho que escolhe rumo a esse negrume é diferente.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/1r3wE07afZnLGbikNXDt3X?si=bEY4cffOSsuFVIhaLCCzOg

E mesmo o grau do negrume não é o mesmo: se Townes van Zandt tivesse escrito (ou feito uma versão de) Limits, seria ainda mais duro, ainda mais desesperado, porque apesar de tudo há aqui uma leveza, uma humanidade – a progressão a subir quase traz esperança; e, sim, estou perfeitamente consciente que leveza e esperança não são palavras que associemos a Cogan.

Esta é, afinal, a mesma pessoa que durante anos fez parte da cena noise canadiana – embora o seu trajeto até aí chegar tenha, apropriadamente, sido pouco linear (apropriadamente porque nada nela é linear; por exemplo, Love You Better, uma canção country com slide-guitar, é quase carinhosa e tem um refrão prenhe de doçura e não, não esperávamos isto dela).

O pai de Cogan era um foto-jornalista; a mãe era música e ativista – com um pouco de azar, ela podia ter sido crítica musical; ao invés, ela dedicou-se desde cedo a aprender música, experimentando todos os géneros com que se deparou, do punk à folk, até finalmente descobrir a cena noise.

A cena acerca das cenas é que, pelo menos durante um tempo, pelo menos quando nos abrem a porta do clube, quando pertencemos a uma cena sentimos que encontrámos um lugar, o que para um certo tipo de pessoa, propensa a pensar que tudo o que faz é errado, pode ser extremamente poderoso. No limite, as cenas tornam-se altamente castradores: estão cheias de regras, de pessoas com que nos podemos ou não dar, de coisas que devemos ou não fazer. Mas pertencer a uma cena pode ser o primeiro passo para um artista ganhar confiança em si mesmo: de repente ali tem 10, 20, 30 pessoas like-minded e dispostas a ouvir a música que cada um dos artistas wannabe faz.

https://www.youtube.com/watch?v=z8CKzcZHImo

Ora gostava de duas coisas no noise: o lado catártico do e a simplicidade – liga a guitarra a pedais e tens noise, não é preciso um curso universitário para pertencer à coisa. Não há muito noise em Hard Hearted Woman, o mais próximo disso é um certo tom gótico em algumas das escolhas das texturas das guitarras ou dos sintetizadores; com a mesma facilidade, ela ascende a lugares etéreos, basta rodar o botão do ruído ou modular a sua voz.

É, obviamente, um disco com negrume, mas em que o negrume não se impõe à musicalidade – Outgrowing é uma canção excecionalmente bem escrita, que se recusa a soar a carta de suicídio; é, certamente, um disco menos pesado do que Formless, de 2023, escrita na sequência da morte do seu pai – um acontecimento trágico que a fez regressar à música: depois de Bells in the Ruins, o seu disco de estreia, de 2020, ela abandonou a música dedicando-se, curiosamente, a atividades que conhecia dos seus pais: o ativismo ambiental e o fotojornalismo. Também não lhe parecia possível viver da música.

Formless é, claramente, um disco de quem está a lidar com algo de muito severo; de quem acabou de descobrir que pode não haver fundo ao poço e aquela luz ali não é o fundo do túnel – é o comboio que nos vai atropelar. Em Hard Hearted Woman as emoções já foram mais maturadas, a pele já não está em carne viva e o milagre é musical: é impressionante como o grau de experimentação que para aqui vai não cai na auto-indulgência e cria canções imaculadas.

Não vos quero cansar, mas por outro lado apetece-me mesmo deixar este argumento, pelo que vou recorrer a alguma argumentação que demonstre cabalmente a variedade musical do álbum: Honey lembra a Joni Mitchell de início, enquanto em Bury Me alguém tomou uma pastilha que azedou; Limits dá espaço à espantosa voz de Cogan, antes de a banda toda entrar e aquela pequena ascensão nos atirar para a cena psicadélica de LA dos anos 70; e logo a seguir, em Love You Better, estamos a brincar ao country-rock clássico – e ainda passaremos pela soul, pela dream pop, por algo de vagamente gótico e por uns blues espectrais que entristecem mas confortam – e estranhamente tudo isto faz sentido.

https://www.youtube.com/watch?v=DoPWqILvcgs

O que não significa que tenha sido essa a reação inicial dela – a de achar “Sim, senhora, isto faz tudo sentido”. Porque “isto”, e por isto entenda-se o disco, tem a cada momento um lado redentor, um lado melódico – um lado quase pop. E o que ela se tinha proposto fazer era mais danado, mais tortuoso, mais tecnicamente complexo, mais confuso. E o que acabava por lhe sair era ligeiramente menos tortuoso, um pouco mais agradável ao ouvido. Até que por fim ela cedeu e percebeu que era esse o caminho que o seu corpo queria seguir.

A explicação para isto é, possivelmente, simples: os artistas evoluem, os seus gostos mudam, a imagem que temos de nós está muitas vezes desfasada do que realmente queremos. Além disso, esta é a primeira vez que Cogan pôde passar algum tempo em estúdio, mais ainda com banda – o que significa que é a primeira vez que pôde explorar condignamente a sua musicalidade.

Hard Hearted Woman coloca Cogan no campeonato das Angel Olsens desta vida, pelo menos até que as Angel Olsens desta vida regressem ao nível a que nos habituaram – e que Cogan atinge em Hard Hearted Woman.