Agustina, Camões, Pessoa e Saramago subiram ao Espaço. Estes quatro escritores portugueses, que compõem a Constelação Lusíada, foram lançados para a órbita terrestre esta segunda-feira à boleia do Falcon 9 da Space X, ao lado de um satélite da Força Aérea Portuguesa e outro do CEiiA. Foram, no total, seis satélites portugueses que ascenderam ao Espaço, num dia que ficará “para a história” como a “mudança de paradigma” do setor espacial em Portugal, como descreveu o ministro da Economia e Coesão Territorial.
Membros do Governo, altas patentes militares e “lusonautas” reuniram-se esta segunda-feira no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, para celebrar o lançamento destes seis satélites 100% portugueses. A conclusão da primeira fase da operação que ainda está a decorrer para colocar estes dispositivos nos locais desejados, perto de nove minutos após a conclusão da contagem decrescente, foi recebida em alvoroço pela plateia no Auditório José Mariano Gago, que foi um dos vários homenageados esta manhã e assinalado como uma das principais figuras que impulsionou a revolução espacial no nosso país.
Nesta cerimónia, Manuel Castro Almeida garantiu que o Espaço já “não está distante, longe de Portugal” e que o lançamento desta segunda-feira significa que o país deixou de ser “um mero espetador” e passou oficialmente a “ator”. O governante garantiu, então, que até ao final do ano, Portugal terá “11 satélites em operação” — algo que seria “inimaginável” até há poucos anos, mas que revela a “maturidade, ambição e solidez do ecossistema espacial”.
“Hoje, Portugal lança mais do que tecnologia. Dá o passo decisivo para alcançar a autonomia para chegar ao Espaço”, afirmou Castro Almeida. E, numa mensagem mais dirigida aos membros da Lusospace — empresa responsável pela produção da Constelação Lusíada — e aos responsáveis do CEiiA e da agenda New Space Portugal, admite que o seu sucesso “é verdadeiramente o sucesso de Portugal”.
Ivo Vieira, CEO da Lusospace, frisou ao Observador estar confiante com o sucesso do lançamento e satisfeito ao ver a presença de tantos convidados naquele espaço para acompanhar um momento “determinante” para o setor em Portugal”. “Quatro portugueses, quatro satélites. A literatura recorda-nos que estamos aqui para as pessoas”, referiu o empresário que, a poucos minutos da descolagem, era acompanhado no palco pela filha de Agustina Bessa-Luís, Mónica Baldaque, e pela sobrinha-neta de Fernando Pessoa, Isabel Murteira França.
Mónica Baldaque foi “a grande inspiração” para a nomeação dos satélites que formam a primeira constelação de satélites portugueses. Como contou ao Observador em novembro de 2025, no dia em que batizaram oficialmente o satélite “Agustina” com a inscrição de uma frase da autora, Mónica reforçou o sentimento de “luta” que durou cerca de três anos até arranjar alguém que levasse esta sua ideia avante. “Disseram-me que só era possível com o [Elon] Musk”, admitiu. Em palco, num discurso que foi acompanhado pela banda sonora do filme Interstellar, a filha de uma das maiores escritoras portuguesas afirma que “as palavras de Agustina têm asas e voarão no infinito”.
Isabel Murteira França também fez questão de mencionar como o Espaço sempre esteve presente na vida e na obra do tio-avô, referindo que Fernando Pessoa era um aficionado de astrologia e que chegou a traçar horóscopos no seu tempo livre. “Até adivinhou o dia da própria morte”, sublinhou Isabel, para marcar que o lançamento do satélite “Fernando Pessoa”, com um pequeno autocolante com a frase “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, vai de acordo com as vontades do seu familiar.
Mas foi Ivo Vieira quem invocou os quatro autores para explicar a magnitude desta missão que visa criar o “Waze dos Oceanos”. O CEO da Lusospace abriu a sua intervenção — ainda ao som da trilha produzida por Hans Zimmer — citando Camões. Será “por mares nunca dantes navegados” que os agora cinco satélites da constelação — os quatro agora lançados vão juntar-se ao Po-SAT2, que está em órbita há mais de um ano — vão servir de apoio à navegação e comunicação entre navios no Atlântico.
Entre os 119 satélites que seguiram a bordo do Falcon 9 pelas quatro da manhã de segunda-feira em Vandenberg, na Califórnia, estavam também dois reforços da Constelação Atlântico (que se destina à observação contínua da Terra e que está ativa desde 2022). O CA-01, produzido pela Força Aérea, vai contribuir para a vigilância contínua do Oceano Atlântico e “prepara Portugal para maiores ambições de futuro da presença”, como indicou o Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, General Sérgio Pereira.
O sexto satélite foi desenvolvido pelo CEiiA e chama-se VHRLight NexGen. É um satélite ótico, desenhado com o objetivo de captar imagens da superfície terrestre com resolução de 70 cm por pixel, como explicou o diretor da Agenda New Space Portugal, um consórcio que reúne os principais atores deste setor em Portugal.
Por agora, espera-se que os satélites portugueses sejam implementados pelo segundo estágio do foguetão norte-americano — os diferentes satélites vão ser ejetados a alturas diferentes, consoante as necessidades das respetivas operações. “Foi a Space X que colaborou connosco, hoje”, declarou o General Sérgio Pereira que, no encerramento da cerimónia, admitiu que “agora é que começa o trabalho”.