(c) 2023 am|dev

(A) :: Portugal: o país onde arrendar é um risco e  comprar é uma obrigação

Portugal: o país onde arrendar é um risco e  comprar é uma obrigação

Como o bloqueio ao arrendamento urbano alimenta o crédito à habitação e mantém Portugal refém de um sistema disfuncional.

Jorge Coutinho de Miranda
text

Portugal não tem um problema de falta de casas. Tem um problema de falta de confiança. Mas tem também algo mais profundo e raramente assumido: um sistema de incentivos que beneficia diretamente do mau funcionamento do mercado de arrendamento. Enquanto este bloqueio persistir, continuaremos a empurrar gerações inteiras para o endividamento como única forma de acesso à habitação.

Os números são claros. Segundo o Banco de Portugal, o crédito à habitação representa cerca de 80% do crédito total às famílias e ultrapassa os 100 mil milhões de euros. Para a banca, trata-se do ativo mais seguro, previsível e rentável, sustentado por garantias reais e contratos de longo prazo. Num país onde arrendar é caro e inseguro, este modelo torna-se dominante por força das circunstâncias, não por livre escolha. Entretanto o agregado familiar mudou, com famílias mais pequenas, um mercado de trabalho a clamar por maior mobilidade e um sistema que continua preso ao passado.

Um mercado de arrendamento historicamente disfuncional em que décadas de congelamento de rendas, legislação enviesada e uma justiça lenta criaram um ambiente de desconfiança tal que faz com que o proprietário não se fie do sistema, que o inquilino cumpra, que o imóvel seja preservado e  acima de tudo, não acredita que a justiça funcione em tempo útil quando há incumprimento e a razão impõe-se à emoção: prefere não arriscar por isso não arrenda.

Esta retração da oferta gera o efeito previsível: menos casas, rendas mais altas e mais informalidade entre as partes, que fogem ao radar do fisco. Em Lisboa, segundo dados recentes do INE, o preço médio das rendas subiu mais de 30% nos últimos anos, enquanto o número de contratos disponíveis permanece insuficiente face à procura. Perante este cenário, milhares de famílias fazem uma escolha que não é verdadeiramente livre: compram casa.

Comprar passa a ser visto como a alternativa mais “segura” e racionalmente mais económica, versus optar pelo arrendamento, mesmo quando implica contrair dívida por 30 ou 40 anos. Esta realidade alimenta diretamente o sistema bancário. Cada falha do mercado de arrendamento traduz-se, na prática, em mais crédito concedido. Não por conspiração, mas por um claro alinhamento de incentivos: quando arrendar falha, comprar torna-se inevitável.

A questão que raramente se coloca é simples: o que aconteceria se o arrendamento funcionasse? Se existisse confiança jurídica, contratos equilibrados e justiça célere? A resposta é incómoda para o modelo atual. Será que muitas famílias optariam por arrendar? Haveria maior mobilidade, menor endividamento e uma relação mais flexível com a habitação? E teria isso um impacto direto e menos dependência estrutural na banca e no endividamento da nossa juventude a 30-40 anos?

É precisamente por isso que a reforma do arrendamento não é apenas uma questão social, é uma questão económica de fundo. E a solução não exige complexidade, mas sim clareza e coragem política.

Primeiro, é necessário garantir proteção social sem distorcer o mercado. Famílias em situação comprovada de incapacidade financeira devem ser apoiadas diretamente pelo Estado, através do adiantamento da renda ao senhorio após avaliação independente do imóvel e definição de valores justos, durante um período limitado e com obrigação futura de reposição ao Estado, garantindo justiça sem perpetuar dependências. Desta forma, protege-se quem precisa sem transferir o risco social para os proprietários, garantindo previsibilidade e segurança jurídica para quem investe e arrenda.

Segundo, é indispensável restaurar a credibilidade do contrato. Isso implica tribunais especializados, decisões rápidas e execução efetiva. Um princípio simples deve prevalecer: quem não paga, sai; quem destrói, paga e quem, de forma temporária, não pode, tem tempo para reorganizar a sua vida, com urgência e dignidade.

A evidência recente mostra que, quando a confiança regressa, a oferta responde rapidamente e os preços ajustam-se. Não há razão estrutural para que Portugal não consiga replicar este efeito.

O verdadeiro dilema nacional é continuar a sustentar um modelo que empurra cidadãos para o endividamento ao invés de libertar um mercado que pode funcionar com regras claras. Um país onde o acesso à habitação depende quase exclusivamente do crédito não é um país equilibrado. E um mercado de arrendamento que não funciona não é um acidente, é o resultado de escolhas acumuladas de políticas erradas sempre e no clamor da justiça social para uns e da injustiça social para os outros, pois existe em Portugal a irrazoável noção de que os proprietários, os senhorios, são pessoas abastadas, anafadas e imorais que podem acarretar sem consequências com os problemas dos outros.

Portugal precisa de compreender uma verdade fundamental: o sistema mais justo do ponto de vista moral não é aquele que tenta manipular preços ou impor equilíbrios artificiais, mas aquele que permite que os preços emergem livremente da interação entre oferta e procura, sustentados por um sistema judicial que funciona em prol de todos, inquilinos e proprietários e que o Estado, quando interfere de forma arbitrária, tentando impor uma justiça social desligada da realidade económica, destrói os incentivos, reduz a oferta e agrava precisamente os problemas que pretende ver resolvidos.

Sem preços livres, não há sinal económico; sem justiça célere e a funcionar, não há confiança, e sem confiança, não há mercado. Proteger a propriedade, garantir contratos e permitir o funcionamento do mercado não é apenas uma opção económica: é uma exigência ética.

Recuperar a confiança é o primeiro passo. E sem confiança, nenhuma reforma será suficiente.

Viva La Libertad Carajo!