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(A) :: Quantos votos vale a decência na era dos bad boys?

Quantos votos vale a decência na era dos bad boys?

Seguro provou que a seriedade é um valor eleitoral que estava subestimado. Essa seria uma imagem que Carneiro teria facilidade em afirmar publicamente. Problema: só isso é insuficiente para chegar lá.

Rui Pedro Antunes
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O Congresso do PS do último fim-de-semana foi, em muitos momentos, sofrível. Um grande bocejo e uma constrangedora mobilização que levou a que, em alguns momentos altos, a sala estivesse meio-vazia. Por entre táticas políticas, leituras eleitorais (quer da estrondosa derrota nas legislativas, quer do resultado competente nas autárquicas) e a natural distribuição de cargos internos, a pergunta que importa a qualquer partido da oposição sobre o seu líder é: será que consegue chegar lá? Lá, a São Bento, entenda-se.

A resposta parece, à primeira vista, particularmente cruel para José Luís Carneiro. Herdou o pior resultado da história do PS, não é propriamente um político que transborde carisma, está longe de entusiasmar as bases, parece faltar-lhe o gravitas político que se associa a um candidato a primeiro-ministro e pode ter de esperar mais de 1200 longos dias para ir a votos em legislativas (e com novas diretas pelo meio, algures no primeiro trimestre de 2028).

A juntar a tudo isto, pela primeira vez, o líder do PS não é o líder da oposição, o partido vai perdendo força em vários lugares estratégicos do Estado e a alternância democrática a dois está fortemente ameaçada com um terceiro partido (o Chega) a ter ambições de vencer. Antes de André Ventura aparecer qualquer líder da oposição, fosse do PS ou do PSD, corria o risco de ser primeiro-ministro. Mais que não fosse pelo desgaste normal de quem estava do Governo.

A marca PS está pelas ruas da amargura. As propostas dos socialistas, por mais populares que possam ser (como o IVA zero nos bens essenciais), precisariam de ter votos no Parlamento (que não existem) para serem viabilizadas. E, depois disso, que houvesse uma associação direta ao partido que lhe desse crédito eleitoral. Que não existe. Nem quando há pouca distância entre a medida e o ato eleitoral. O PS de Pedro Nuno Santos de nada beneficiou, por exemplo, de ter acabado, em conjunto com o Chega, com portagens em antigas SCUT.

José Luís Carneiro pode chamar as melhores pessoas para o PS, fazer os melhores Estados Gerais que o Partido Socialista já vivenciou, fazer até as melhores propostas que, no fim do dia, o que vai contar é a avaliação que os eleitores fazem (e farão no momento da eleição) dele próprio e de quem é o seu opositor em 2029 (se Montenegro ou Passos, que seriam à partida ameaças maiores, ou um outro menos experiente como Hugo Soares, Leitão Amaro ou Carlos Moedas).

Pressupondo que o mais provável seria enfrentar Luís Montenegro na ida a votos, o que teria, nesse cenário, José Luís Carneiro para oferecer? Parece extemporâneo e precoce, porque podem faltar três anos e meio para a eleição, mas é agora que o líder do PS tem de definir a sua personalidade eleitoral.

Valores como a seriedade e a decência têm sido menosprezados na política. José Luís Carneiro já teve os seus momentos infelizes (como ligar para a RTP por causa de um cartoon, nomear o filho do líder da distrital de Braga para o seu gabinete ou meter uma cunha a um ministro para nomear um amigo), além de lhe ser reconhecida uma costela de Maquiavel (que destacados notáveis do PS lhe atribuem). Apesar disso, foi autarca durante vários anos em Baião e não se lhe conhecem filmes como de autarcas que elogiou no Congresso (Luísa Salgueiro e Armando Mourisco, só para citar dois, fizeram contratos públicos com os empregadores das filhas). Não sendo um santo, por comparação com muitos outros autarcas, merecia da canonização.

Não podem pedir ao atual secretário-geral que tenha a esperteza de José Sócrates, a habilidade de António Costa, a dicção do Manuel Alegre, nem a intuição de Mário Soares. Mas cola bem em José Luís Carneiro, por mérito do seu histórico, a ideia de que é um homem sério e uma pessoa decente. A questão é se isso vale votos. Carneiro já parece ter percebido que vale. No discurso de encerramento do Congresso, acrescentou uma frase que não estava no suporte escrito, que aponta nesse sentido: “Ainda há poucos dias, com 3,5 milhões de votos, os portugueses disseram o que queriam para o nosso país.”

António José Seguro parece ser a prova de que a imagem de pessoa séria pode ser uma mais-valia para vencer eleições em Portugal. No entanto, a José Luís Carneiro, mais do que os 3,5 milhões de votos da segunda volta, até interessará mais o resultado da primeira volta em que Seguro juntou as duas variáveis: ter uma imagem do político decente; e ser o único do campo da esquerda que podia ficar em primeiro lugar.

Não há dúvidas de que a seriedade é um valor que José Luís Carneiro devia explorar do ponto de vista eleitoral. Mesmo que se venha a provar que é injusto, a Luís Montenegro vai estar sempre associada a imagem das negociatas, da Spinumviva, da casa com não-sei-quantas-casas-de-banho e elevador interno.

A segunda parte da questão é se ter uma imagem de homem sério é suficiente ou tem um peso determinante para ser primeiro-ministro. O eleitorado pode querer alguém com essas características para Presidente da República, mas preferir um político mais matreiro e espertalhaço para primeiro-ministro. Quem é que se quer em Bruxelas a negociar fundos comunitários ou para estar numa war room: um santo ou um pecador? Para funções executivos, o eleitorado tende a preferir a segunda opção, ainda para mais numa era em que os bad boys estão na moda: de Trump a Milei; de Órban a Putin.

Para mal de Carneiro, os tempos não estão para os nice guys. Ser um homem decente não chega para vencer. À decência teria de juntar um posicionamento mais esclarecido (como acontece, por exemplo, com Passos Coelho). Ainda assim, a lição de Seguro é que a seriedade tem, ainda em 2026, mais valor eleitoral do que se imaginava. Num contexto tão complexo, se o líder do PS quer uma linha a seguir, já tem por onde começar. O resto não depende dele.