Passaram 10 anos. Em 22 de Março de 2016, os atentados terroristas cometidos em Bruxelas, nomeadamente no aeroporto de Zaventem e na estação do metropolitano de Maelbeek, causaram 39 mortos e 340 feridos. Os autores eram terroristas islâmicos, e o país, até ver, era europeu e cristão.
Julgar-se-ia que a data desse acontecimento ficaria marcada na memória colectiva do país. Vã esperança. O principal monumento que assinala o dia foi inaugurado um ano depois do atentado. Ficou dado o mote e institucionalizada a necrose colectiva. No seu sítio, o artista, Jean-Henri Compère, apresenta a obra. A retórica pocha realça o vazio das frases, uma a seguir à outra. «Feridos, mas sempre de pé face ao inconcebível» [Blessés mais toujours debout face à l’inconcevable]. Feridos e mortos, e o inconcebível foi realizado. Que quererá dizer J-H Compère? A resposta precisa-se na linha seguinte. «Erguermo-nos como cidadãos do mundo contra a ignomínia, o absurdo, o horror, um face ao outro, num diálogo perpétuo» [Se dresser en citoyen du monde contre l’ignominie, l’absurde, l’horreur, l’un en face de l’autre, dans un dialogue perpétuel]. A história de uma comunidade concreta desaparece por detrás da invocação vaporosa do cosmopolitismo, que se insurge contra entidades conceptuais igualmente indeterminadas – a ignomínia, o absurdo e o horror – e, para rematar a fantasmagoria, tudo isso com sujeitos inexistentes – um diálogo, certo, mas com quem? – num processo que, por nunca mais acabar, flutua sem chegar a nenhum resultado concreto. Trata-se de uma obra dedicada a «todas as vítimas do terrorismo» – assombro moral que os meios de comunicação não deixaram de salientar.
A questão põe-se de imediato. Tal como descrita pelo seu autor, a obra deslegitima-se por si. Se se pretende referi-lo a todas as vítimas do terrorismo, porquê erigir o monumento aqui e agora? No seu texto justamente célebre, O culto moderno dos monumentos, o historiador da arte Alois Riegl afirma que o «monumento no sentido mais antigo e originário» tem por «fito determinado conservar sempre presentes e vivos na consciência das gerações seguintes feitos ou destinos humanos particulares». A ideia de um monumento universal, isto é, um monumento cujo objecto é universal e se dirige a uma humanidade universal anula as coordenadas concretas que são, ou deveriam ser, a sua condição de possibilidade. As vítimas são as vítimas passadas e as vítimas futuras, e as gerações, que estão sempre num dado momento do tempo, são também as passadas e as futuras. Os actos que deveriam ficar na memória são também eles passados e futuros, perdem o seu carácter individualizado. E este é o objectivo único e exclusivo desta universalização monumental – as acções universais dissolvem o acto humano, histórico-concreto, e são engolidas pela natureza mítica, que as regurgita como eterno retorno imanente. Provavelmente sem se aperceber, uma circunstância agravante, Compère estabelece uma gradação; da ignomínia, que pressupõe um mundo humano, passa ao absurdo, a ausência de finalidade, e capitula no horror sem saída onde todas as violências, destituídas de conteúdo moral, se substituem num automatismo cego. Não são as vítimas universais que são lembradas por uma humanidade universal – são os autores dos actos que são esquecidos. Depois de terem sido mortas pelos terroristas islâmicos, as vítimas são mortas pela memória na medida em que são sub-repticiamente instrumentalizadas pela via perversa da universalização, que se apresenta como a sua aparente valorização suprema. A universalização é apenas o banho lustral para inocentar os autores dos atentados. A operação foi bem conseguida.

Ao assinalar os 10 anos dos atentados, repetindo em ponto grande o que fez durante uma década, a imprensa belga, na sua maior parte (La Capitale foi uma excepção), arrancou os olhos – era preciso não ver. As notícias e os «especiais 10 anos» cingiram-se às vítimas, declinando sofrimentos e emoções, promovendo a despolitização dos atentados. Mas até aqui, não se finja surpresa, a despolitização é unilateral. O cartunista Kroll do Le Soir (ver fotografia) põe a vítima em 2026 no meio do labirinto, com o selo made in Belgium, no entanto, à entrada, em 2016, o sangue derramado é anónimo, já não há qualquer made in. No suplemento especial dos 10 anos, o mesmo jornal reproduz o depoimento de duas filhas de vítimas dos atentados, ambas com nomes árabes (ainda que falsos, para efeitos de ocultação da identidade), cujo sofrimento não está de modo nenhum em causa, o mesmo faz o La libre, que entrevista o marido de uma vítima, de nome Mohamed El Bachiri, cujo sofrimento, obviamente, também não está em causa. O problema é que se trata do apagamento deliberado das outras vítimas, uma escolha que à força de se querer mostrar multicultural exclui liminarmente uma cultura, e precisamente aquela que foi atacada. Uma vez mais, se a escolha não foi reflectida, o caso é ainda pior: para a submissão interior não há remédio. A moral da história é instrutiva, o caso não passou de um incidente intra-islâmico; o Ocidente, os países, até ver, europeus e cristãos, não têm inimigos. Fazendo subir ao palco os conflitos, que assim são externalizados e justificam o quietismo patológico, fica coonestada a desonrosa rendição incondicional. Por sua vez, a despolitização mítico-natural também encontrou o seu paladino. No editorial do Le Soir, Louis Colart escreveu, presume-se que sem corar, «les attentats terroristes qui ont touché Bruxelles». Como a chuva ou o granizo se abatem sobre uma cidade. De facto, os dias estão sombrios.