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(A) :: “Afinal os bonequinhos somos nós” - a  (con)fusão entre real e virtual 

“Afinal os bonequinhos somos nós” - a  (con)fusão entre real e virtual 

Foi justamente a fusão de dois factores, os smartphones e as redes sociais, que  ditou, ironicamente, o fim do “mundo virtual” - a constante exposição ao digital, a obrigatoriedade de estar presente.

João Santos Silva
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Reza a lenda que, em tempos idos, a socialização era relativamente simples. É difícil,  hoje em dia, conceber o que ia na cabeça daquela gente. Imagine-se: saíam das suas casas,  iam até um sítio qualquer e…falavam com outras pessoas – por vezes, até, completos  desconhecidos!

Perdão, desde já, por esta visão dantesca, mas garanto que era verdade. Esta perspetiva  (considerada, talvez, como bárbara, pelos padrões de hoje) de que uma pessoa poderia  simplesmente chegar onde quer que fosse e coabitar com os restantes – quem sabe, até mesmo  estabelecer relações sociais com eles – parece algo extraído de um passado profundo, uma  relíquia de tempos bem distantes. Porém, era um facto da vida há vinte anos, e um assunto sobre  o qual nem se discutia (ou “filosofava”) há trinta.

(NOTA: Não quer com isto o autor ser causador de dano psicológico ao leitor, ao  relembrar que o início dos anos noventa se deu há mais de trinta anos). 

Sucede que, a meio de um advento tecnológico sem precedentes, a meados dos anos 90  e inícios do novo milénio, surgem os chats primordiais – chegam a Portugal o mIRC, o MSN  Messenger, e o Blá do AEIOU. O sucesso é estrondoso, e o fenómeno depressa se espalha a  outros setores – é comum encontrarem-se salas de chat em jogos, sites de pequena dimensão,  blogs. O mundo virtual em larga escala tinha acabado de chegar e, ao que tudo indicava, vinha  para ficar.

Eis que surge o primeiro impacto no modo como passámos a socializar – era  perfeitamente expectável, e por vezes até rotineiro, chegarmos a casa vindos do trabalho (ou da  escola, no caso dos mais novos) e aceder ao mundo virtual, um “picar o ponto” numa realidade  alternativa. E entra aqui a magia dos avatars. Neste “faroeste digital”, sob um nome virtual  (nickname) e/ou uma imagem representativa, qualquer pessoa seria livre de falar sobre qualquer  tema, emitir qualquer opinião. O Roberto, saído do seu escritório de contabilidade, poderia discursar virtualmente sobre as virtudes do anarcocapitalismo. A Gertrudes, após fechar a sua  padaria, era livre para se conectar ao “outro lado” e debater epistemologia. O António, acabado  de jantar, depressa poderia voltar a uma animada conversa com os colegas do 11.ºC. Atente-se  que tudo isto acontecia de forma planeada e contida. Era um momento próprio, vivido em pleno,  de forma consciente – aquilo a que a certa altura alguns chamavam “navegar na net”. Tão  facilmente se conectavam (“vou falar com uns amigos na net”), como facilmente abandonavam  este mundo (“bem, vou andando, está na hora de dar banho aos miúdos”, “malta, tenho de sair,  esqueci-me do TPC de Geografia”).

E desenganemo-nos, isto não constitui um fenómeno de nicho: por idos de 2003, os chats de IRC contavam com cerca de 1 milhão de utilizadores frequentes. Em 2009, o MSN, que por  esta altura já se considerava um tanto démodé (especialmente quando comparado com  plataformas como o Skype), registava uns espantosos 330 mil utilizadores mensais.  Seguramente se podia afirmar que, a qualquer dado momento, e em auge de popularidade,  milhões de pessoas socializavam entre si. E isto sem contar com os inúmeros fóruns e blogs independentes.

Para além disso, surgem, concomitantemente, os mundos virtuais: softwares e jogos que  simulavam um mundo no qual os participantes, após criarem um avatar, eram livres de interagir  com o ambiente ao seu redor, assim como com outras pessoas, e de personalizarem o mundo  que os rodeava. Assim nasceram casas, aldeias, clubes, discotecas, praças, e todo um sem-fim  de criações digitais das quais se podia participar de forma consciente. Ênfase na palavra  consciente. Plataformas como o Second Life, o Habbo Hotel e o Gaia Online moviam inteiras  massas populacionais, com picos de 1 milhão de utilizadores frequentes, 200 milhões de  utilizadores totais e 7 milhões de utilizadores mensais, respetivamente. O mundo desfrutava  desta segunda vida (piadas à parte), que parecia formar uma espécie de simbiose com o  quotidiano.

Porém, tudo o que é dourado depressa capta a atenção de “salteadores” (leia-se  “aproveitadores”). E como qualquer bom roubo, as intenções iniciais aparentavam ser  completamente inocentes. E, de facto, talvez até fossem, pelo menos no início. Em finais da  primeira década de 2000, surge o primeiro iPhone. Sim, já existiam modelos precursores do  smartphone, mas, ódios pessoais à parte, julgo ser indiscutível a escala do fenómeno americano  – apenas 2 meses e meio após o seu lançamento, era vendido o milionésimo(!) iPhone. E seria desonesto presumir que seria um fenómeno temporário. A intenção era objetivamente boa – um  contacto com o mundo digital de uma facilidade nunca antes vista, agregando ainda uma data  de funcionalidades adicionais. Um excelente presente, sem dúvida, mas envenenado. Estava em  andamento o primeiro passo para a atenuação dos limites entre o físico e o virtual.

Em segundo tempo, ocorre o despertar das redes sociais, com o Facebook na vanguarda.  Existiam fenómenos como o Myspace, o Hi5 em Portugal, ou o Orkut no Brasil, mas constituíam  apenas nichos, pelo menos comparativamente ao que o gigante azul se viria a tornar. O apelo  do Facebook contagiou as massas: de um momento para outro, passámos a poder falar com  familiares distantes, organizar eventos, publicar fotografias e vídeos acerca dos nossos  momentos favoritos e uma data de outras coisas. Em 2012, apenas 8 anos após o seu  lançamento, contavam-se cerca de mil milhões de utilizadores mensais, em média.

E foi justamente a fusão destes dois fatores, os smartphones e as redes sociais, que  ditou, ironicamente, o fim do “mundo virtual” – um constante acesso e exposição ao digital, e  a lenta migração do pensamento para um senso de obrigatoriedade de estar presente a todo o  momento. Passa a ser quase necessário estar online para estar presente nos acontecimentos.  E este perigoso precedente foi justamente desembocar no panorama caótico atual. Agora,  estamos à mercê do digital no nosso quotidiano: Queremos ver uma ementa num restaurante?  É preciso uma app. Queremos saber sobre um negócio? Convém visitarmos a sua página no  Instagram. Precisamos de informação acerca de um evento? Boa sorte se não tiverem redes  sociais. Toda esta participação “virtual” com a nossa própria identidade e com a nossa imagem  (e, em breve, segundo se discute, possivelmente com a nossa Chave Móvel Digital). Nada de  avatars, nada de identidade construída, nada de “sem filtros”. Agora, os “bonequinhos” somos  nós. Tudo envolto num misto de exposição a conteúdo excessivamente estimulante, anúncios  invasivos, coleção de dados pessoais para vender aos licitantes com o bolso mais fundo.

Atenção, que nem tudo são “velhismos-do-Restelo” – a Internet está mais acessível do  que nunca, e propicia oportunidades a públicos cada vez mais vastos. Porém, a que custo? Os  domínios pessoais escasseiam cada vez mais, a troco do crescimento desmedido dos titãs  tecnológicos. O que era um “faroeste digital” agora classifica-se melhor como uma “rua virtual”,  bem organizada e classificada, sem espaço para personalização ou identidade própria, em que  todos os “postos” são de aluguer, e os senhorios só veem potenciais de lucro trimestral.

E assim, num piscar de olhos, o paradigma inverteu-se: agora, tomamos a existência  virtual como constante e quotidiana (acessível através dos dispositivos que fundimos aos  metacarpos), e procuramos, de forma planeada e consciente, momentos para nos  desconectarmos – ou melhor, para nos conectarmos ao lado físico (ou será este o novo “virtual”?).  O ato de fazer “login” para aceder ao mundo maravilhoso para lá do ecrã foi substituído pelo ato  de fazer “logout” para aceder ao mundo para cá do ecrã, simples e aborrecido como é (mundano,  se quisermos ser redundantes), sem estímulos audiovisuais berrantes e anúncios a cada 30  segundos.

Já há quem escolha subverter este status quo. Esta mudança já se verifica. Não como se  de um êxodo se tratasse, mas em pequenos movimentos. Redes sociais a perderem utilizadores,  smartphones a diminuir em volumes de vendas, adoção de telemóveis de baixas funcionalidades  (os chamados dumbphones): é o que parece ser o advento daquilo a que se chama o  “minimalismo digital” – uso consciente e propositado de tecnologia, apenas para serviço e  eficiência, e não para imersão constante e dependência.

Estas ondas de manifestação ainda não possuem magnitude suficiente para sinalizar uma  grande mudança. Talvez porque não haja grande apelo. Afinal de contas, um torpor alegre e  divertido é mais fácil de vender do que uma realidade aborrecida. Já não existem avatars que  nos permitam exprimir-nos sem filtros ou bloqueios sociais. Já não há o incentivo de explorarmos  território desconhecido, ou de afirmarmos uma identidade própria.

Talvez seja esse o caminho. Talvez tenhamos estado desde sempre destinados a  perdermos a nossa identidade, de tanto a usar. Ou talvez, quem sabe, se tentarmos interagir  fisicamente com máscaras de animais, ou disfarçados de objetos inanimados e com nomes  fictícios, possamos novamente, e coletivamente, convencermo-nos a “reconectar” com o mundo  real. Talvez o Roberto ganhe coragem de voltar a falar sobre o anarcocapitalismo. Talvez o  António perca a vergonha de falar presencialmente com as miúdas do 11.ºF. Talvez a Gertrudes  compareça a um encontro de Filosofia. E talvez sejamos capazes de voltar a deixar o telemóvel  longe de nós, e o computador encerrado, no escritório, à espera do momento do “login”.