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"Vidas em risco". Bloqueio petrolífero dos Estados Unidos deixa sistema de saúde cubano em colapso

Apagões, falta de medicamentos, ambulâncias paradas e quimioterapia interrompida. Sistema de saúde cubano, outrora um modelo mundial, está à beira do abismo. Médicos falam em "mortes evitáveis".

Manuel Nobre Monteiro
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Jorge Pérez Álvarez, cubano de 21 anos, vive ligado a um ventilador. Sofre de uma doença genética que impede os pulmões de funcionarem sozinhos. Quando a eletricidade falha, a linha entre a vida e a morte passa a ser ténue. A bateria de reserva da máquina foi pensada para durar mais de um dia, mas os apagões sucessivos colocam este limite à prova. “Não sei quanto tempo mais vamos aguentar”, disse a mãe, Xenia Álvarez, ao jornal New York Times, acrescentando que “a vida dele depende da eletricidade“.

O bloqueio petrolífero dos Estados Unidos a Cuba está a esgotar rapidamente o combustível disponível na ilha, provocando apagões, falta de alimentos, aulas canceladas e preços altos no mercado paralelo. Mas o impacto mais grave desta crise humanitária faz-se sentir nos hospitais, maternidades, farmácias e ambulâncias: um sistema de saúde que durante décadas foi considerado uma das grandes conquistas da revolução cubana vê-se agora aflito para garantir os cuidados básicos.

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“Não se pode prejudicar a economia de um Estado sem afetar os seus habitantes”, disse o ministro da Saúde numa entrevista à Associated Press, em fevereiro. “Esta situação pode colocar vidas em risco“, acrescentou José Ángel Portal Miranda.

Vários médicos ouvidos pelo New York Times dizem que as condições já se agravaram ao ponto de estarem a ocorrer “mortes evitáveis“, ou seja, doentes que poderiam sobreviver, mas que não têm medicamentos, transporte, eletricidade e equipamento funcional. “Não consigo dizer quantas mortes [o bloqueio já provocou], mas tenho a certeza de que são mais do que no mesmo período do ano passado”, afirmou Alioth Fernandez, chefe de anestesiologia do maior hospital pediátrico de Havana, sublinhando que percebe isto durante as trocas de turnos, com os “comentários dos colegas”.

A pressão no sistema nacional de saúde cubano faz-se sentir em toda a linha. Segundo o jornal nova-iorquino, há hospitais a cancelarem cirurgias e a mandar doentes para casa porque os médicos e enfermeiros não conseguem chegar ao trabalho. As clínicas estão com dificuldade em assegurar tratamentos, como a quimioterapia, diálise e radioterapia por causa das falhas de luz. Muitas ambulâncias estão paradas porque não há gasóleo e gasolina e as farmácias, em muitos bairros, têm as prateleiras praticamente vazias.

O Hospital Pediátrico William Soler, em Havana, está a funcionar com equipas reduzidas, enquanto médicos, enfermeiros e famílias percorrem quilómetros a pé, debaixo do calor das Caraíbas, para ali chegar. Os hospitais têm prioridade no fornecimento de eletricidade, o que lhes permite manter as luzes acesas quando o resto da cidade está às escuras. Ainda assim, este mês, três apagões nacionais obrigaram várias unidades a depender exclusivamente de geradores.

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Na principal maternidade do país, a obstetra e ginecologista Liliam Delgado Peruyera garantiu que o estrago já é visível. O hospital enfrenta falta de antibióticos, medicamentos e equipamento, enquanto a escassez alimentar tem feito aumentar o número de grávidas subnutridas e de recém-nascidos com baixo peso. Em fevereiro, morreram três recém-nascidos na unidade: o maior número de que a médica se lembra num único mês. E os casos de prematuridade extrema, disse, dispararam nas últimas semanas.

Os números oficiais ajudam a perceber a dimensão do problema. O Governo cubano reconheceu, este mês, que há 96.400 doentes à espera de cirurgia, embora não seja claro quantos entraram na lista já depois do agravamento do bloqueio. Mais de 30 mil crianças viram as suas vacinas atrasadas por causa da falta de combustível e quase 20 mil doentes estão a receber de forma irregular tratamentos de radioterapia e diálise renal.

“Comprar uma couve é um luxo”: a crise que não é só na saúde

A crise na saúde em Cuba não nasceu agora. O sistema já vinha a degradar-se por causa da estagnação económica, da pobreza estrutural e do isolamento internacional. Ainda assim, durante muito tempo, a saúde foi uma das áreas em que Havana conseguia apresentar resultados comparáveis aos dos países desenvolvidos. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, o Estado canalizava cerca de um quinto do orçamento para o setor, o dobro da média mundial. Até à pandemia, a esperança média de vida e a mortalidade infantil estavam em níveis próximos dos países ricos e o rácio entre médicos e doentes era dos melhores do mundo.

Porém, o endurecimento das sanções norte-americanas veio agravar esta fragilidade na saúde. As medidas dificultaram a substituição de equipamentos velhos e complicaram pagamentos, levando fornecedores norte-americanos e europeus a suspender contratos por receio de violarem as regras de Washington.

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A crise afeta todo o país. Cuba não recebe um carregamento de petróleo desde o dia 9 de janeiro. O Presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, já avisou a população de que a rede elétrica nacional está profundamente instável e de que a situação poderá piorar. Em resposta, o Governo instalou painéis solares em centros de saúde de bairro, lares e nas casas de 120 crianças doentes que dependem de ar condicionado. Também distribuiu painéis solares a 10 mil trabalhadores da saúde e da educação, para que possam trabalhar remotamente.

As condições sanitárias também estão a piorar. A água falha porque as bombas dependem da rede elétrica e a comida é cada vez mais difícil de encontrar. Um dos traços mais reconhecidos do sistema de saúde cubano era a entrega regular de pacotes com alimentos, suplementos e medicamentos a mães recentes e bebés. Foi isso que ajudou Cuba, até à pandemia, a manter uma das taxas mais baixas de desnutrição infantil da região. Hoje, esses apoios chegam muito menos vezes.

A médica de família Roxana Martínez Rodríguez disse ao New York Times que, este ano, as suas utentes não receberam leite nem suplementos, como ácido fólico, que antes eram fornecidos regularmente pelo Estado. Confirmou, ainda, que os preços dos alimentos dispararam desde janeiro, sendo que “um salário mal chega para o pequeno-almoço” e que “comprar uma couve é um luxo”.

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Cuba está a viver uma emergência silenciosa. O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem reiterado ameaças ao Governo cubano, garantindo que Havana seria a próxima a cair após as intervenções na Venezuela e no Irão.