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“Esse é o medo. Se eles tomarem o [rio] Litani, virão depois para aqui”. O receio de Shahira Ahmad Dabdoub, libanesa de 61 anos, é que a expansão das operações militares no sul do Líbano coloquem Beirute no centro do confronto. As declarações são proferidas à agência de notícias Reuters a partir de um centro para deslocados na capital depois de o primeiro-ministro israelita anunciar que deu instruções ao exército para expandir a atividade militar no sul do país vizinho, numa altura que continua a sua campanha contra o Irão.
“Dei instruções para expandir ainda mais a zona de segurança existente, a fim de finalmente frustrar a ameaça de invasão e afastar o fogo de mísseis antitanque da nossa fronteira”, revelou no domingo Benjamin Netanyahu.
Numa declaração em vídeo, a partir do Comando Norte de Israel, o governante sublinhou que Israel já eliminou “centenas de terroristas” do Hezbollah e 150.000 mísseis e rockets que o grupo xiita libanês lançou “com o objetivo de destruir as cidades” israelitas. “No entanto, o Hezbollah ainda tem uma capacidade residual para lançar rockets contra nós”, afirmou, acrescentando que Israel está “determinado a mudar fundamentalmente a situação a norte” da sua fronteira.
https://twitter.com/netanyahu/status/2038277919584158006
Antes disso já o ministro da Defesa israelita, Israel Katz, tinha revelado que o exército ia criar “uma linha de defesa avançada” de cerca de 30 quilómetros até ao rio Litani, no sul do Líbano. Israel Katz afirmava então que as forças de Telavive tinham destruído cinco pontes sobre o rio e que o exército iria “controlar as restantes pontes e a zona de segurança até ao Litani”. Por quanto tempo? Enquanto existisse “terrorismo e mísseis”, sublinhou.
O ministro das Finanças israelita, Bezalel Smotrich, chegou mesmo a afirmar que deviam rescrever as fronteiras com o Líbano. “Digo-o aqui definitivamente, em cada sala e em cada discussão também: a nova fronteira israelita tem de ser o Litani”, disse em entrevista a uma rádio nacional. Noutra ocasião avisou que os subúrbios a sul de Beirute iriam em breve assemelhar-se a Khan Younis, cidade na Faixa de Gaza que ficou devastada no conflito após o início da guerra a 7 de outubro.
Apesar do foco a sul, a capital não tem escapado aos ataques. Esta segunda-feira bombardeamentos atingiram zonas residenciais a sul de Beirute.
Não é a primeira vez que Israel fala sobre expansão no Líbano. Dias antes, a 25 de março, Netanyahu avisou que Israel estava a alargar a “zona de segurança” no Líbano para “eliminar a ameaça de mísseis” do Hezbollah. “Criámos uma verdadeira zona de segurança que impede qualquer infiltração na Galileia e na fronteira norte [de Israel com o Líbano]. Estamos a expandir esta zona para eliminar a ameaça dos mísseis”, indicou.
https://observador.pt/2026/03/25/netanyahu-confirma-expansao-de-zona-de-seguranca-no-libano/
A ocupação israelita no Líbano não é novidade. Em 1978, as tropas israelitas invadiram o sul do país e estabeleceram uma estreita zona de ocupação durante uma ofensiva contra guerrilhas palestinianas depois de um ataque perto de Telavive, recorda a Reuters. Quatro anos depois, uma nova invasão: os soldados chegaram até à capital, Beirute, numa operação após trocas de disparos na fronteira entre os dois estados. O exército israelita acabaria por retirar-se da zona centro do Líbano em 1983, mantendo ainda assim algumas forças no sul.
Em 2006 deu-se o reverso: o Hezbollah cruzou a fronteira para Israel e raptou dois soldados, matando outros, o que deu início a uma guerra de cinco semanas. Mais recentemente, em outubro de 2023, depois de o Hamas ter matados mais de mil pessoas e raptado centenas de israelitas, o grupo xiita lançou ataques aéreos contra o território vizinho. Telavive respondeu com uma campanha também aérea e mais tarde enviou tropas terrestres. Apesar de se ter alcançado um cessar-fogo, Israel não se retirou totalmente da região, mantendo uma presença militar em alguns pontos estratégicos no sul do Líbano. Agora espera-se a nova expansão anunciada pelas autoridades israelitas.
O Hezbollah já avisou na terça-feira que vai lutar para impedir as tropas israelitas de ocupar o sul. Descreveu as ações de Telavive como uma “ameaça existencial” ao Líbano.
https://observador.pt/2026/03/26/israel-envia-divisao-do-exercito-para-reforcar-operacoes-no-libano/
“Estamos a testemunhar o início de uma invasão terrestre no sul, com o ministro da Defesa israelita a falar abertamente sobre a ocupação de grande parte do sul do Líbano por Israel”, relatam os jornalistas do New York Times na região, que descrevem o conflito como uma segunda frente da guerra com o Irão e, ao mesmo tempo, “uma guerra por si própria”. “Tudo isto representa uma grande escalada em relação à última guerra”.
Ambos os lados vão relatando algumas baixas. O exército israelita adiantou apenas que quatro soldados morreram no sul do país vizinho desde o dia 2 de março e que um ataque com rockets provocou a morte de dois civis na região norte. O Hezbollah não divulgou números oficiais, mas uma fonte indicou à Reuters que teriam morrido 400 combatentes no mesmo período.
O Ministério da Saúde do Líbano divulgou, segundo a Al Jazeera, que mais de um milhão de pessoas ficaram deslocadas devido ao conflito. Disse ainda que 1.238 morreram, incluindo 124 crianças, e que 3.500 ficaram feridas.
A Organização das Nações Unidas lamentou, entretanto, a morte de um elemento da sua força interina no Líbano, a FINUL. O secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que a vítima era um homem da Indonésia e que o ataque provocou outro ferido.
Esta segunda-feira a ministra de Defesa espanhola — confirmou que há uma segunda baixa entre os “capacetes azuis” (como são conhecidos os militares que integram as missões da ONU) da FINUL. O militar, também indonésio, morreu após um segundo ataque contra um comboio sob comando de militares espanhóis que também integram a missão, indicou Margarita Robles, lembrando que a Indonésia está sob comando espanhol nesta missão.