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(A) :: Rede recrutava moldavos com promessas de viagens pagas e dinheiro para treinos de sabotagem na Sérvia. Investigação liga operação à Rússia

Rede recrutava moldavos com promessas de viagens pagas e dinheiro para treinos de sabotagem na Sérvia. Investigação liga operação à Rússia

Treinados para romper cordões policiais e pilotar drones, moldavos foram recrutados para causar distúrbios em cidades europeias. Justiça da Moldávia aponta para rede organizada ligada à Rússia.

Mariana Furtado
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Prometeram-lhe uma viagem de duas semanas pagas. Entre 300 e 500 dólares — o correspondente a 5.000 e 8.800 leus moldavos (cerca de 260 a 430 euros), num país onde o salário mínimo ronda os 800 leus. O resto das indicações só seriam dadas mais tarde, por um contacto em Moscovo. Maxim Roșca, mecânico em Chișinău, aceitou. Semanas depois, estava em campos de treino militar na Bósnia e na Sérvia, onde recrutas aprendiam a pilotar drones com óculos de realidade virtual e joysticks, a manusear dispositivos incendiários e a escapar à polícia em cenários de protesto. Para os investigadores moldavos, tratava-se de um esquema organizado, com apoio russo, para recrutar operacionais destinados a ações de desestabilização em vários países europeus, segundo uma investigação do Politico.

A 11 de outubro de 2024, Roșca foi detido ao regressar da Roménia num microautocarro. No interior, a polícia encontrou moeda sérvia e bósnia, lanternas, cartões SIM, pen drives, componentes de drones e ainda seis objetos descritos no processo como dispositivos descartáveis para lançamento aéreo de granadas. Os três passageiros foram condenados no mês passado a penas entre quatro e cinco anos de prisão por incitamento a distúrbios em massa. Em tribunal, Roșca disse ter sido agredido depois de se ter recusado participar nos treinos.

“Esses jovens, falantes de russo, foram recrutados, transportados para campos especialmente organizados e treinados para [táticas, incluindo] como romper cordões policiais”, disse a ministra do Interior (equivalente ao ministro da Administração Interna português) da Moldávia, Daniella Misail-Nichitin, ao Politico. “Alguns foram formados para usar dispositivos não tripulados. E o treino chegou mesmo a ensinar como prestar primeiros socorros em caso de violência.” Os participantes dos acampamentos recebiam os pagamentos em criptomoedas, através de plataformas populares como a Trust Wallet, de acordo com várias testemunhas no tribunal.

Um homem chamada Prizenco está no centro da investigação moldava. Os procuradores apontam o antigo vendedor de maçãs em Moscovo — segundo uma entrevista dada pela mulher a uma revista moldava — como um dos recrutadores de uma rede, entretanto desmantelada, que terá preparado dezenas de pessoas para campanhas de influência e ações de desestabilização ligadas à Rússia. Em França, Prizenco é também investigado por alegadamente ter contratado cidadãos moldavos para desenhar Estrelas de David em muros de Paris, após os ataques do Hamas em Israel a 7 de outubro de 2023 — um gesto interpretado como tentativa de provocar tensão política, no qual a Rússia nega qualquer envolvimento. Prizenco admitiu ter organizado a ação, afirmando ao Libération que queria demonstrar apoio aos judeus europeus.

Mais de 80 pessoas suspeitas de envolvimento e de promoverem distúrbios em massa estão a ser investigadas pela Procuradoria da Moldávia, das quais 20 já foram formalmente acusadas. E pelo menos duas estarão ligadas a operações de desestabilização em França e na Alemanha. Os dois países, no âmbito de um momento de alerta na Europa para operações de guerra híbrida atribuídas a Moscovo, já tomaram ações: em França, foram identificadas campanhas de desinformação durante eleições locais recentes. Na Alemanha, o governo convocou o embaixador russo após denúncias de ciberataques e interferência eleitoral.

https://observador.pt/2026/01/13/recrutados-com-falsas-promessas-mercenarios-africanos-estarao-a-ser-usados-pela-russia-como-carne-para-canhao-na-guerra-na-ucrania/

A Moldávia diz estar a desmantelar redes deste tipo desde 2024. “Falamos de treinos organizados na Sérvia, na Bósnia-Herzegovina e na Federação Russa”, afirmou a ministra do Interior. Num documento citado pelo Politico, o país considera-se um caso “único”, mas deixa um aviso: “Nem os Estados-membros da União Europeia nem os seus vizinhos estão a salvo de ameaças híbridas.”