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(A) :: Não está farto de ser consumidor-trabalhador?

Não está farto de ser consumidor-trabalhador?

Sou eu que escolho, sou eu que transporto, sou eu que leio os códigos de barras, que faço aquele tic-tic-tic da maquineta de leitura, sou eu que pago, sou eu que emito a factura...

Nuno Gonçalo Poças
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Devo confessá-la ao leitor, não por julgar que não seja já do seu conhecimento, ou, pelo menos, que não tenha, legitimamente, essa suspeita, mas porque julgo que é um dever de honestidade dar-lhe nota da minha ignorância. Suponho mesmo que o assunto a que se deve a invocação de tal ignorância possa ser indiferente, porque ela se manifesta largamente sobre variadíssimos temas – e, sendo rigoroso, ela avoluma-se à medida que os anos passam; é essa outra grande mentira que nos impingem quando somos jovens, a de que a velhice nos traz sabedoria e conhecimento, quando qualquer velho com tino o melhor que tem a fazer é reconhecer que não sabe praticamente nada ou, no mínimo, andar com a cabeça cheia de dúvidas. Uma delas, e que não me tem ocupado pouco espaço funcional, diz respeito a esta não tão nova modalidade de consumidor-trabalhador em que nos transformámos todos sem oposições, quando não com absoluto encanto e prontidão. Desconheço ou, pelo menos, não me recordo de ter lido grande coisa sobre o assunto, embora desconfie de que sobejam teses de mestrado, de doutoramento, ensaios filosóficos, sociológicos, psicológicos e intelectuais em geral sobre o tema. A minha ignorância, para o caso que aqui me importa, é esta: não faço ideia se se tem escrito muito ou pouco sobre isto. Mas que importa, afinal, o que se escreve se o produto dessa escrita não tem como consequência um debate, por mais pequeno que seja, ao balcão de um café, num lanche com amigos, numa viagem de carro? O que me interessa é que estou absolutamente farto, cansado, irritado, com náuseas profundas, tudo por causa deste fenómeno tristemente implantado que é o do consumidor que trabalha de borla.

Suponho que não esteja aqui a oferecer dados novos, mas o leitor permitir-me-á que partilhe o incómodo. Estou farto, categoricamente saturado, das hiper-coisas, das grandes marcas que monopolizam este e aquele mercado, assegurando maus serviços sempre que são chamadas a intervir, e que normalmente não o são porque é suposto sermos nós a fazer tudo por elas. Ou por nós, como é suposto. Parece-me evidente que há cada vez menos funcionários disponíveis. Uma, duas almas, no máximo, à disposição de clientes perdidos, cheios de dúvidas, que fazem filinhas atrás uns dos outros para serem de alguma forma esclarecidos. À saída, nem vê-los, que lhe chamam self-checkout ou lá o que é. Sou eu que escolho, que transporto, que vou com a cabeça cheia de dúvidas para casa sem saber se o produto serve, se não serve, a adivinhar o inferno que vai ser se precisar de trocar, sou eu que leio os códigos de barras, que faço aquele tic-tic-tic da maquineta de leitura, sou eu que pago, sou eu que emito a factura, sou eu que transporto para o carro, sou eu que carrego até casa, sou eu que abro as caixas de papelão, sou eu que conto as peças, os parafusos, as chaves de fendas, sou eu que monto tudo, depois de parecer um chimpanzé enquanto tento interpretar manuais de instruções nada evidentes, e no fim da tarefa, presumo, é suposto que tudo aquilo me tenha dado prazer, que me sinta o ministro plenipotenciário da bricolage internacionalista.

Eu, que não morro de amores por pessoas estranhas, em geral, e por algumas menos estranhas, em particular, claro está, começo a sentir necessidade de pedir um ser humano em todo o lado. Alguém que me atenda, que me explique ao certo que porcaria estou a comprar, alguém que me diga ‘não leve esse, que não é grande coisa, experimente antes este, que é mais barato e faz o mesmo efeito’, alguém que não se pareça com um aparelho formatado em técnicas de venda, alguém que me passe as compras na máquina, que me dê uma factura, que me monte os móveis, a sanita, o que for. Ainda me lembro de um senhor que trabalhava na portagem da ponte sobre o Tejo que, mesmo nas horas de ponta, fazia questão de ser rapidíssimo na recolha do valor da portagem, enquanto dava os bons dias com voz sonora, soltava um ‘obrigado, boa viagem!’, com apreço e uma humanidade, e era ele toda uma vida, ao contrário destas portagens modernas, que nos ficam sempre demasiado longe do carro, e do lado de lá não há uma alma que possa esticar o braço para ajudar a recolher o cartão bancário ou as moedas, mas antes uma máquina monocórdica a debitar um ‘cartão mal inserido’ não raras vezes, já depois de termos tirado o cinto para nos aproximarmos mais facilmente do aparelho.

Pode ser que seja só de mim, mas estou saturado deste modelo em que o consumidor se tornou um funcionário sem contrato, sem salário e, pior, sem consciência de tudo isso. Compreendo que o progresso tenha sido apresentado como a libertação do indivíduo do esforço desnecessário, porque temos de poupar tempo, de simplificar tarefas, de criar conforto, e, afinal, chegamos aqui e o trabalho não foi eliminado, mas redistribuído em silêncio. Ainda me lembro de como se sugeria que a tecnologia, mesmo para as profissões ditas de escritório, seria a porta que se abria à facilidade, que nos retirava os tais esforços desnecessários, e, aqui chegados, parece que os esforços se multiplicam, que se tornaram infinitos e omnipresentes. Era isto a liberdade que o progresso nos trazia, como se o consumidor fosse mais empoderado, como agora, também irritantemente, se diz? Que espécie de poder é este em que a liberdade consiste em assumir tarefas que antes não tínhamos? Que raio de mundo achamos que estamos a construir quando achamos que o pressuposto básico de tudo é que não nos dê trabalho nenhum, e depois acabamos todos a assumir todo o trabalho com a ilusão de que até foi melhor assim? E que raio de ideia é esta que destrói já não tão vagarosamente o trabalho enquanto realidade social e o substitui por mera tarefa individual, mais descartável e desumana? O que é que andamos nós a ganhar com isto? Suponho que haja imensos economistas aptos a explicar optimisticamente isto. Estimo para eles o mesmo que João César Monteiro estimava ao público de cinema. E, para mal do leitor, aproveito para lhe dizer que esta coluna passa a ter carácter semanal. É que dizem que um mal nunca vem só.

P.S.: Ponderei escrever qualquer coisa sobre o congresso do PS, mas optei por este assunto de pessoas vivas.