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(A) :: Condenado por uma "liga antimonárquica" e "abandonado" pela realeza: dois anos após a prisão, Iñaki Urdangarin confessa-se em livro

Condenado por uma "liga antimonárquica" e "abandonado" pela realeza: dois anos após a prisão, Iñaki Urdangarin confessa-se em livro

Com a pena cumprida, o divórcio consumado e a relação com Ainhoa Armentia assumida, o ex-genro de Juan Carlos assume erros, ressentimentos e recomeços num novo livro.

Sâmia Fiates
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Uma cama, uma secretária, uma pequena sala contígua com televisão e acesso a um pátio reduzido e uma pequena casa de banho, “algo incomum numa prisão”: “Lá, antigamente, as reclusas davam à luz”. A descrição da cela na prisão feminina de Brieva, em Ávila, onde Iñaki Urdangarin cumpriu parte da sua pena de cinco anos e 10 meses de prisão, é feita pelo próprio, em Todo Lo Vivido, livro de memórias publicado em fevereiro no qual analisa momentos da sua vida sob uma perspetiva motivacional. A 9 de abril de 2024 terminou oficialmente a condenação do ex-marido da infanta Cristina. Ao longo dos últimos dois anos, regressou às origens. Em Vitória, cidade onde cresceu, recuperou os laços com os amigos — “quando a vida me trouxe de volta, voltaram a acolher-me” —, mantém uma rotina diária típica de um antigo atleta olímpico, que inclui natação, elíptico e padel; e vive com Ainhoa Armentia, a advogada por quem se apaixonou ainda casado e enquanto cumpria pena — uma relação que, para todos os efeitos, gerou a separação e o divórcio da irmã do Rei de Espanha.

Ao longo de quase 300 páginas, Iñaki Urdangarin não se abstém de falar do Caso Nóos, que o levou à prisão e contribuiu para a onda de polémicas que levaram a alterações drásticas na realeza espanhola. Assume a responsabilidade pelo “excesso de confiança”, confessa-se “ingénuo” em alguns momentos, mas diz com todas as letras que a sentença foi “injusta” e fruto do trabalho de uma “liga antimonárquica”. Fala também do ressentimento pela ausência de ajuda da realeza, apesar de destacar o apoio incondicional da ex-mulher, a quem deixa muitos elogios, mas não um pedido de desculpas. Pelo contrário, diz que “sempre custará” perdoar-se a si próprio pela publicação das fotografias que revelaram o caso com Armentia para o mundo.

Mas pelo menos a metade do livro é, afinal, sobre tudo o que o ex-marido da infanta Cristina aprendeu antes mesmo de a conhecer, nos anos que classifica como “os melhores da sua vida” — quando representou Espanha nos Jogos Olímpicos e fez parte da equipa de andebol do Barcelona, ao longo da década de 1990. No meio das recordações, usa passagens da sua própria vida para dar uma série de “ensinamentos”, com a ajuda de metáforas taoístas, frases de Kobe Bryant ou Indira Gandhi e questões existenciais: “Tomei a decisão certa? As coisas correram como eu esperava? Os meus pais sabiam o que era melhor para mim?”. Em determinado momento, Urdangarin diz que tudo o que aprendeu no desporto ajudou-o no seu período de reclusão. “Mil dias e mil noites numa cela, em absoluta solidão. Não encontrei respostas até que aprendi a reformulá-las. A pergunta correta não é se tens a vida que queres. A pergunta correta é: o que está nas minhas mãos fazer para evoluir e construir essa vida?”

Ao fim de cada uma das cinco partes, o antigo cunhado de Felipe VI lista algumas aprendizagens de diferentes fases da sua vida, como se o livro fosse uma espécie de terapia. “Tive o privilégio de crescer numa família que me ensinou o sentido de esforço e trabalho”, escreve, numa das primeiras análises. Contudo, o que aprendeu nas primeiras décadas não o preparou para caminhar pela “antesala do abismo”, a qual o próprio chama a “fase de luz e sombras” que viveu a seguir, quando entrou para a realeza espanhola. Urdangarin cita o seu desejo forte de “pertencer” à família, mas também como foi incapaz de evitar o furacão que causou anos mais tarde — e que alega ter enfrentado sozinho, ou melhor, “abandonado”.

“Os melhores anos da minha vida” no desporto de elite

A primeira parte do livro de memórias é exclusivamente dedicada ao andebol. Iñaki Urdangarin menciona pelo nome o treinador do tempo de escola (“Não deixes de treinar”, aconselhou-lhe aos 14 anos Ramón Grau), o desejo que tinha em entrar para o Barcelona e como chegou a ser abordado por Toni Rubiella, treinador da equipa juvenil do clube, em 1984, no ano em que a família mudou-se para Vitória, no País Basco. Urdangarin conta em detalhes o dia em que o pai recusou o primeiro convite de Valero Rivera López, o treinador responsável pelo chamado “dream team” de andebol do Barcelona, e hoje membro honorário do clube. “Cada vez que a raiva ou o desespero me invadiam, repetia a mim mesmo: ‘Se valer a pena, vai acontecer’. E como descobrirá adiante, aconteceu. Entretanto, sem estar consciente disso, encontrava-me diante de uma das grandes lições que a vida me daria“.

"Com a perspetiva que dá o passar do tempo -- e depois de ter vivido acontecimentos maravilhosos, como o nascimento dos meus filhos -- creio que posso assegurar que estes anos no desporto de elite foram os melhores da minha vida"
Iñaki Urdangarin

Certo é que em 1986 Iñaki Urdangarin já estava novamente a viver em Barcelona, onde iniciava o período que descreveu como o “melhor da sua vida”. “Com a perspetiva que dá o passar do tempo — e depois de ter vivido acontecimentos maravilhosos, como o nascimento dos meus filhos — creio que posso assegurar que estes anos no desporto de elite foram os melhores da minha vida”. Para justificar, fala numa época em “que o meu esforço era recompensado com um resultado tangível”, comparando a outras fases da sua vida nas quais “custou-me muito saber qual era o meu valor”. Contudo, o percurso no desporto profissional começou logo com uma lesão no joelho que o obrigou a passar por uma cirurgia e interromper os treinos por mais de cinco meses. Sobre a passagem, aproveita para dissertar sobre o poder da resiliência. “Um recuperação como esta muda-te. Obriga-te a olhar para dentro. Ensina-te que não basta ter força nas pernas; há que ter força também na mente. O corpo é a tua ferramenta de trabalho, sim, mas a cabeça é o que decide se te rendes ou se segues.”

O chamado “dream team”, uma equipa comandada por Valero Rivera que venceu cinco vezes seguidas o campeonato europeu de andebol, era para Iñaki Urdangarin o equivalente a uma “segunda família”. E ao falar do grupo, o ex-marido da infanta Cristina chega mesmo a comparar esta com a família real. “Senti algo que nunca voltei a sentir em nenhum outro lugar. Um sentimento de pertença. Porque, como explicarei melhor na próxima etapa da minha vida, encaixar não é o mesmo que pertencer.

Iñaki Urdangarin e a infanta Cristina casaram-se em outubro de 1997 e o jogador de andebol só deixou a competição em 2000. Durante este período, o novo membro da realeza trouxe algumas das condicionantes desta nova posição para dentro do vestiário. Tinha seguranças sempre à porta dos treinos e precisava de comunicar com antecedência onde desejava ir. A equipa e até o treinador terão manifestado o desagrado por este excesso de supervisão. Mas ter um “quase príncipe” no desporto também trouxe os seus benefícios: “Estádios cheios, visibilidade para o andebol e os Reis na final do campeonato. Eram coisas que, afinal, somavam“, destaca Urdangarin.

A aposentadoria viria logo depois do Jogos Olímpicos de Sidney, em 2000 — quando a Espanha ficou com a medalha de bronze. Nas suas memórias, Urdangarin explica os motivos que o levaram a querer parar de jogar. “Funciono por ciclos olímpicos”, justifica, destacando ainda a própria idade (tinha 32 anos), o seu projeto de família (já era pai de Juan Valentin e preparava-se para receber Pablo Nicolás — Iñaki e Cristina ainda são pais de Miguel e Irene), a sua outra agenda, o MBA na Esade de Barcelona e a lesão no ombro esquerdo. “Fechei a minha etapa desportiva e despedi-me do lugar onde havia sido mais feliz, no ponto exato em que tudo brilhava com força. Reformei-me com gratidão, orgulho e de coração cheio.”

Ainda no tema desporto, Urdangarin dedica quase quatro páginas a elogiar a carreira desportiva do filho, Pablo, que se estreou na seleção espanhola de andebol em outubro de 2025. Apesar de afirmar que não impôs nada aos filhos no que toca ao desporto, o ex-marido da infanta Cristina assume que assistir à trajetória de Pablo é como “olhar no espelho”, traçando um paralelo entre como ambos chegaram ao andebol profissional. “Cada vez que o vejo jogar sinto uma mistura de entusiasmo e orgulho, que só pode entender quem viveu o desporto de dentro e agora observa da bancada, com o coração na quadra. Emociono-me de verdade. Não pela conquista, mas pela forma como se vive.”

A verdade sobre a história de amor com a infanta Cristina

A primeira menção ao casamento e aos filhos surge na página 110, com o livro já quase a meio. É quando começa a descrever os motivos que o levaram a terminar a carreira de atleta profissional. Urdangarin dedica alguns capítulos ao romance com Cristina, que diz ter sido “uma relação entre dois mundos”. Desvenda, por exemplo, que o primeiro encontro não terá sido nos Jogos Olímpicos de Atlanta de 1996, como já muito se escreveu na imprensa, mas alguns meses depois. “A ideia de um romance olímpico parecia escrita por um guionista de Hollywood: o atleta de elite e a infanta que se apaixonaram no meio do maior evento desportivo do mundo… É uma história bonita, mas não foi assim.”

"Pedir o seu número de telefone seria pedir o número do Palácio de Zarzuela, e isso... apenas pensar no tema deixou-me sem palavras, então não tomei nenhuma atitude."
Iñaki Urdangarin

Urdangarin conta que sim, cumprimentou Cristina durante os Jogos Olímpicos, quando a filha do então Rei Juan Carlos assistiu a um dos jogos da seleção espanhola de andebol. Contudo, considera “o verdadeiro ponto de partida da história” um jantar que reuniu atletas de andebol, vela, polo aquático e outras modalidades. “Cristina foi convidada pela equipa de vela, onde tinha um bom grupo de amigos, e foi ali onde realmente nos conhecemos”, escreve Iñaki. A primeira conversa entre os dois, descreve, foi “muito natural, fácil e fluida. Havia conexão. Estava claro.” Foi neste jantar que os dois combinaram o verdadeiro primeiro encontro. Sem telemóveis, Urdangarin recorda que foi ele quem lhe deu o número de casa. “Pedir o seu número de telefone seria pedir o número do Palácio de Zarzuela e isso… apenas pensar no tema deixou-me sem palavras, por isso não tomei nenhuma atitude.”

A Cristina, Iñaki faz muitos elogios. “Cristina pareceu-me uma pessoa muito bondosa. Próxima. Alguém que, apesar do entorno no qual vivia, buscava ter uma vida o mais normal possível”, escreve. “Pareceu-me uma mulher muito interessante. Culta, inteligente. Com uma autêntica elegância interior. Mais adiante, descobriria a sua coragem, resiliência, o seu sentido de família, os seu valores inquebráveis“. Urdangarin também dá alguns detalhes sobre como os dois namoraram de forma “clandestina” por meses. “Viver um relacionamento secreto tem algo de emocionante, mas também de incómodo. A clandestinidade pode dar uma matiz especial aos primeiros encontros, esta sensação de estar a fazer algo perigoso e proibido. Porém, quando essa situação se prolonga, começa a pesar”, escreve Urdangarin, que revela a forma curiosa como Filipe e Elena ficaram a saber que a irmã tinha um namorado. Naquele ano, na tradicional passagem de ano da família real em Baqueira Beret, Cristina só chegou mesmo na noite de 31 de dezembro. Questionada pelo motivo do “atraso”, a infanta respondeu que tinha “um relojoeiro em Vitória”.

Naquela altura, apenas algumas poucas pessoas sabiam do romance, entre as quais a sua irmã, Ana, e o secretário pessoal da infanta, Carlos Garcia Revenga, que terá sido a primeira pessoa do “entorno institucional” a saber e acobertar o namoro. Dentro do “Barça”, foi o médico, Dr. Gutiérrez, o primeiro a saber e a ajudar, com uma desculpa para uma viagem especial ao Lago de Garda, na Itália. “Tinha que tomar uma decisão. Não podíamos continuar naquela espécie de parênteses por mais tempo, um parêntesis que cada vez se estreitava mais. Tinha que me perguntar se aquilo era mesmo a sério e atuar de acordo com a consequência. Durante uns meses pensei no assunto. Em fevereiro tinha muito claro: estava apaixonado. Não havia mais o que pensar. Ia pedi-la em casamento.”

A viagem coincidiu com uma pequena lesão, que o permitiu interromper os treinos por uns dias. “Não vou contar como foi o pedido. É uma lembrança muito íntima, muito nossa. Só direi que foi durante o jantar, num lugar lindo. Não me ajoelhei, mas tremia as mãos quando tirei o anel. O seu rosto parecia um poema. Não esperava. E sim, foi uma noite mágica. Uma das recordações mais bonitas da minha vida.” A data do casamento, 4 de outubro de 1997, de acordo com Urdangarin, foi definida a considerar os compromissos da realeza e os jogos do Barcelona. Mas as celebrações começaram já a 2 de outubro, numa festa de despedida no Hotel Juan Carlos I, em Barcelona, seguindo no dia 3 para um almoço com o então governador da Catalunha, Jordi Pujol, no Palau de la Generalitat, e, à noite, um baile com as casas reais convidadas, no Palácio de Albérniz, compromissos que antecederam o enlace na Catedral de Barcelona e o banquete no Palácio de Pedralbes. Iñaki descreve os dias de festas como “um autêntico carrossel de emoções”. Contudo, revela que o casal fez planos para o grande dia “à margem do protocolo”. “Durante os cumprimentos oficiais após a refeição, com dezenas e dezenas de convidados a desfilar para nos saudar, cada vez que víamos um dos nossos amigos mais próximos, pedíamos discretamente que se desviassem para uma tenda lateral. Assim que terminou o ato oficial, reunimo-nos com eles para beber algo, conversar, rir, abraçarmo-nos e, por fim, baixar a guarda. Foi o nosso momento. Só nosso”.

Entre as páginas em que mergulha no início da relação com Cristina, Iñaki menciona de relance a relação extraconjugal com Ainhoa Armentia, a advogada de Vitória com quem foi fotografado em 2022 a passear de mãos dadas na praia. Na altura, Urdangarin ainda era casado com a infanta. Dias depois da divulgação, a filha dos reis eméritos de Espanha divulgou um comunicado. “De mútuo acordo, decidimos terminar o nosso relacionamento conjugal. O compromisso com os nossos filhos permanece intacto. Por se tratar de uma decisão privada, pedimos o máximo respeito a todos os que nos rodeiam”. Sobre a ex-mulher, Iñaki faz questão de esclarecer em que pé está a relação. “Mesmo que não estejamos mais juntos, Cristina continuar a ser muitas coisas para mim: a mãe dos nossos quatro maravilhosos filhos, uma parte importantíssima da minha vida, alguém que amo, admiro e respeito. Na verdade, ambos ainda nos preocupamos um com o outro, desejamo-nos o melhor, tentamos apoiar-nos não apenas como pais, mas como amigos.”

“Encaixar” não é o mesmo que “pertencer”

Iñaki Urdangarin só conheceu os então Reis de Espanha, os seus futuros sogros, depois do pedido de casamento. Primeiro reuniu-se com a Rainha Sofia. “Jantámos num restaurante chinês, um programa informal. Estávamos Cristina, dona Sofia, Carlos García Revenga, a sua mulher e eu. Foi uma noite agradável”, relata. Na noite seguinte foi jantar a Zarzuela com o Rei e o resto da família. “Todos foram muito amigáveis, apesar de não conseguirem esconder o interesse em saber quem eu era, de onde vinha, qual família tinha, quantos irmãos, as coisas que gostava, como era o meu dia a dia.”

"Naquele meio, primeiro vinha a instituição, depois as pessoas. Defendem-se os interesses institucionais e a imagem antes dos vínculos afetivos"
Iñaki Urdangarin

Ainda antes de conhecer a realeza, Urdangarin assume que no início achava a ideia de namorar a filha dos Reis “fascinante”. “Era um mundo diferente, repleto de pessoas e acontecimento que me pareciam extraordinários. Mas esta fascinação inicial foi dando espaço às coisas que não eram tão idílicas como pareciam de fora”, afirma o antigo genro de Juan Carlos, que diz “não ser fácil” ser um Borbón. “Naquele meio, primeiro vinha a instituição, depois as pessoas. Defendem-se os interesses institucionais e a imagem antes dos vínculos afetivos”, escreve o antigo jogador de andebol, afirmando que lhe “custava digerir o pragmatismo, às vezes até a amargura, com que certos assuntos eram tratados”.

De Juan Carlos diz que recebeu um conselho: “não deixar de ser eu mesmo”. Contudo, Urdangarin queixa-se de como foi acolhido. “Queria pertencer a esta família, criar vínculos afetivos, de apoio e compreensão. O que se faz numa família, pelo menos de acordo com a minha ideia e como fui educado. Não o consegui. No final, tudo se reduziu a tentar encaixar-me o melhor que pude. E encaixar não é o mesmo que pertencer.” O ex-marido de Cristina chega mesmo a dizer que “jamais” pertenceu ao círculo familiar e que “quando as coisas ficaram feias, senti-me abandonado; apesar de contar com o apoio emocional de alguns membros que tentaram ajudar-me, na medida do possível, entre elas dona Sofia e dona Elena (obviamente o apoio incondicional de Cristina sempre tive).” Urdangarin revela ainda que recebeu na prisão visitas de dois membros da realeza, além da mulher: a cunhada, Elena, e Cristina Borbón e Duas Sicílias, filha do duque da Calabria e primo de Juan Carlos. “Vieram regularmente à prisão para me oferecer apoio, companhia e palavras de ânimo durante todo o meu tempo de condenação. São, junto a dona Sofia, a parte da família real que tentou sustentar-me da melhor forma que estava nas suas mãos, algo que sempre apreciei e que sempre apreciarei pelo tanto que significou para mim.” Nas páginas seguintes, quando explica o caso Nóos sob a sua própria ótica, Urdangarin faz duras críticas à gestão de crise da Casa Real, especialmente de Juan Carlos e Felipe VI.

O caso Nóos

Se para Urdangarin entrar na realeza espanhola foi como entrar numa “antesala para o abismo”, a escuridão terá sido mesmo o momento em que enfrentou as acusações do caso Nóos, esquema no qual a justiça espanhola acredita terem sido desviados 6 milhões de euros em fundos públicos, e pelo qual foi condenado a cinco anos e 10 meses de prisão pelos crimes de peculato, abuso de poder, fraude, duas infrações fiscais e tráfico de influência. A investigação começou em 2010, como um desdobramento do caso Palma Arena, o escândalo de corrupção relacionado com o velódromo em Palma de Maiorca. Ao longo de oito anos, o genro do Rei foi investigado, questionado e julgado, perdendo o apoio da realeza — e o título de duque de Palma de Maiorca — pelo caminho. A infanta Cristina também foi levada a julgamento pelo caso, chegou a depor em tribunal, mas foi absolvida das acusações criminais, sendo apenas imputada uma multa de pouco mais de 130 mil euros por ter beneficiado dos delitos cometidos pelo marido.

No livro, a primeira menção ao caso vem à página 123, quando revela que o filho mais velho, Juan, fez-lhe a pergunta no verão de 2025. “Pai, porque não me contas ao detalhe como foi todo o caso Nóos?” O ex-marido da infanta Cristina decidiu abordar o tema — e também defender-se da condenação, que diz mesmo não considerar justa — na parte em que descreve também a relação com a realeza. Talvez porque acredite que, se não fosse o genro do Rei, não teria recebido a sentença que recebeu. “Se me chamasse Pérez, Gutiérrez ou López, não teria sequer pisado na prisão. Mas me chamo Iñaki Urdangarin”, escreve, já depois das muitas páginas a dar detalhes da sua versão para a investigação, na qual rebate várias acusações feitas na imprensa e em tribunal. Urdangarin rejeita, por exemplo, que o Instituto Nóos era “sem fins lucrativos”, defende que os contratos com as autarquias de Valência e Palma de Maiorca não tinham irregularidades e reforça que os avultados valores acordados para os eventos realizados pela sua empresa eram justificados, mas diz que “se deixou levar”, teve “excesso de confiança” e que assumiu gastos e um estilo de vida superior ao que deveria. Entretanto, não aborda nenhuma vez a Aizoon, empresa privada que detinha com Cristina, usada para benefícios fiscais e para a qual desviou parte dos fundos públicos recebidos através do Instituto Nóos.

Urdangarin defende que, desde que começou no mundo empresarial, na agência de marketing desportivo Octagon Esedos, “pediu muitas vezes” para participar de projetos a partir de funções mais básicas, porque queria “perceber como uma empresa funciona por dentro”. Contudo, reconhece que a sua contratação estava relacionada à sua agenda poderosa e à sua posição pública, que “podia abrir muitas portas”. Diz também que “não se quer vitimizar” e que “aceita a responsabilidade por consentir com essa posição”.

Foi enquanto desenvolvia as suas funções dentro da empresa de marketing que decidiu criar um projeto de consultoria estratégica. Urdangarin relata que entrou em contacto com um professor de política de empresas da ESADE, onde fez o seu MBA, que o colocou em contacto com Diego Torres — que no livro descreve como “professor e consultor”. O ex-marido de Cristina relata então como em 2003 deixou a Octagon Esedos para fundar a Nóos Consultora Estratégica, na qual era sócio de Diego. Urdangarin esclarece que era uma empresa “sem nenhuma ambição política, dirigida por completo no âmbito de uma empresa privada”. Contudo, não menciona que a empresa foi, na verdade, fundada como Asociación Instituto de Investigación Aplicada apenas por Diego Torres anos antes, em 1999.

A ideia era apresentar às marcas um plano para que se associassem aos eventos desportivos que faziam mais sentido para o seu público alvo. Nesta altura, Urdangarin assume que se sentia satisfeito com a sua “reinvenção profissional”, mas reconhece que a sua posição privilegiada no ambiente social e político era também um ativo para a empresa. “O trabalho que fazíamos na consultora era sério, profissional e rigoroso. Não era fumo, como chegaram a dizer”, esclarece o ex-marido de Cristina, que diz ainda que foi o Rei Juan Carlos a sugerir que a sua consultora ajudasse a autarquia de Valência a preparar-se para a America’s Cup (prova mais reputada no circuito de vela internacional), dentro de três anos, em 2007. Foi quando a Consultoria Estratégica se converteu em Instituto de investigação aplicada. “Dizer que era um instituto de investigação significava que não podia ter superavit? Não, e isso é algo que sempre me pareceu uma confusão de interesses. Dizer que as associações de interesse público, como era o instituto, não podia gerar superavit, é uma demagogia muito habitual no discurso popular. Qualquer instituto que contrata profissionais, que paga pelos seus trabalhos, que busca excelência, deve poder ser economicamente sustentável e retribuir a quem o faz possível”, defende Urdangarin, rebatendo as notícias que davam conta de que o Instituto Nóos era apresentado como “sem fins lucrativos”.

O primeiro contrato do Instituto Nóos foi feito para a realização do Valência Summit, três eventos anuais, de três dias, que decorreram nos três anos que antecederam a America’s Cup na cidade. Os congressos tiveram a presença de figuras internacionais do mundo do desporto e dos negócios — incluindo João Filipe Espírito Santo, do antigo Banco Espírito Santo. Mas foi o contrato seguinte, com as Ilhas Baleares, que levou Urdangarin a ser investigado. O antigo jogador de andebol descreve como o diretor geral de desporto do Governo regional, José Luis Ballester, “se aproximou de mim muito entusiasmado depois do seu discurso numa das cúpulas: ‘Uau, Iñaki, gostei muito disto. Quero algo parecido nas Baleares’. Através da sua recomendação, e porque fazia parte do círculo de Jaume Matas, que acabava de assumir a presidência do Governo das Ilhas Baleares, pediram-nos para estudar a possibilidade de fazer algo similar em Palma de Maiorca“. Contudo, Urdangarin destaca que a “grande confusão”, foi Matas assumir que o via como “genro do Rei”, e não como um verdadeiro gestor. Tanto Ballester como Matas foram condenados a penas de prisão no mesmo caso. 

Condenado por uma “liga antimonárquica”

A sentença confirmada pelo Supremo Tribunal em 2018 configura esta relação com Ballester e Matas como um crime de tráfico de influência. “Ficou comprovado que o acusado, por meio da sua amizade com o co-réu, o Diretor de Desporto, e da posição privilegiada que desfrutava em virtude do seu casamento com uma filha do então Chefe de Estado, conseguiu influenciar tanto José Luis Ballester quanto Jaume Matas para garantir o contrato com a Associação Instituto Nóos e a realização da cúpula de 2005 e, em particular, para assegurar que esta fosse realizada sem qualquer licitação ou cumprimento das condições que poderiam advir de um procedimento em conformidade com a lei”, diz o documento.

A sentença também justifica a condenação por peculato no desvio de fundos públicos, pagos à Nóos “apesar do serviço correspondente não ter sido prestado. Os serviços pelos quais esses pagamentos foram feitos não foram executados”, diz o documento, que destaca a participação de Undangarin na instigação e na cooperação necessária, citando a confeção de “uma ata de quatro minutos”, para “validar formalmente a decisão de contratar a Associação Instituto Nóos para realizar uma segunda cimeira nas Ilhas Baleares”. Iñaki Urdangarin rebate as acusações de que cobrou valores avultados para eventos que poderiam custar muito menos, garantindo que, mesmo durando apenas três dias, eram congressos que exigiam um ano inteiro de trabalho; e critica o facto dos relatórios do instituto serem “ridicularizados” pela imprensa, “como se pudessem ser avaliados por peso, número de páginas ou palavras escritas”.

Aliás, o caráter crítico à imprensa permanece forte ao longo das páginas do livro. Urdangarin afirma, por exemplo, que as primeiras menções a irregularidades, publicadas em jornais em 2006, foram motivadas por partidos da oposição, como o Partido Popular. Depois, volta a culpar “os media ideologizados” por associarem o caso Palma Arena ao Instituto Nóos. E por fim, aponta o dedo ao excesso de “ruído mediático”, responsável por “incitar” o sistema judicial, e à atuação de uma “liga antimonárquica”, composta pelo procurador do caso, Pedro Horrach, que para Urdangarin “tinha motivação de carreira”; e o juiz José Castro, “que fazia parte da lista de candidatos municipais pelo Podemos”. Por estes motivos, o ex-marido de Cristina acredita que não foi julgado como qualquer outro cidadão. “Diz-se que a justiça é cega. Que é igual para todos. Não foi igual para mim. Digo-o sem medo, com total convicção, porque o vivi em primeira pessoa”, destaca Urdangarin, que apesar de não rejeitar a condenação, rebate a pena que recebeu: “Não foi uma sentença justa”, acusa o ex-genro de Juan Carlos, que defende que, por não ter antecedentes criminais, não deveria ter cumprido pena de prisão.

“Não tive a intenção de cometer um crime”, declara Urdangarin, que assume que, com o tempo de reflexão, percebe ter tido “decisões que podiam e deveriam ter sido tomadas de outra maneira”. “Erros que não têm a ver com delitos, mas com a forma de gerir, delegar e assumir responsabilidades.” Entre as “aprendizagens” do julgamento, O ex-marido de Cristina afirma que devia ter dominado os termos técnicos, pessoas e nomes dos envolvidos, para ser capaz de responder a tudo o que era necessário no interrogatório; confessa que confiou “demasiado”, delegou “muito e não da melhor forma”, e não “supervisionou o suficiente”. “Como dirigente, como responsável máximo do Instituto Nóos, isso é algo que tenho que assumir.” Assinala ainda que outro erro foi se sustentar na equipa do sócio, Diego Torres, condenado a cinco anos e 8 meses de prisão. “Provavelmente precisava de um grupo de pessoas com mais confiança.”

"Vi-me com quatro filhos, uma hipoteca alta e um estilo de vida que já não podíamos sustentar"
Iñaki Urdangarin

Ainda entre as responsabilidades que assume no livro de memórias, está o estilo de vida que adotou na altura. Urdangarin diz que a “bonança económica” começou a gerar “necessidades e aspirações que hoje, com a distância, custa-me reconhecer como minhas”, citando como exemplo a compra do Palacete de Pedralbes em 2004, que custou mais de 8 milhões de euros entre o valor de aquisição e as obras de remodelação. Iñaki assume mesmo que hoje “nunca compraria” o imóvel. “Vi-me com quatro filhos, uma hipoteca alta e um estilo de vida que já não podíamos sustentar”, desabafa, sobre quando em 2006 viu-se obrigado a deixar o Instituto Nóos diante dos primeiros sinais de escândalo — o que poderia prejudicar a imagem da família real.

“Abandonado” pela realeza

Quando deixou o Instituto Nóos em 2006, Urdangarin garante que foi “obrigado”. O ex-genro de Juan Carlos diz que foi contactado pelo advogado do Rei, José Manuel Romero, que o aconselhou a abandonar a empresa. “Para a Casa Real o desgaste reputacional era (e é) a sua maior preocupação. Não queriam estar no meio de nenhum fogo cruzado, nem político nem mediático”, escreve. “Foi um golpe brutal. Difícil de digerir”, assume, afirmando que na altura “estava orgulhosíssimo do que havíamos construído”. Urdangarin diz mesmo que, com o pedido, “mataram-me”. Sobre Cristina, faz questão de destacar que a então mulher esteve sempre ao seu lado a prestar apoio, e chegou mesmo a tentar defendê-lo diante da pressão da própria família, o que classifica como “devastador”. “Não souberam atuar como uma instituição serena, valente e reflexiva. Mas o que mais tristeza me causou é que não souberam atuar como família.”

Ao sair do Instituto Nóos, Urdangarin assumiu um cargo no conselho de administração da Telefónica. “Seguia a minha vida profissional a trabalhar tranquilo, convencido de que não havia feito nada indevido e disposto a dar as explicações necessárias quando me pedissem. E com a consciência absolutamente limpa”, alega. Em 2007 chegou a passar dois meses em Washington a fazer uma formação, e assume que discutiu com a mulher uma possível mudança da família para a capital norte-americana, pelo que quando recebeu a proposta da empresa para ser Chairman das operações da Telefónica nos EUA em 2009 acreditou ser “uma grande sorte”. Contudo, agora acredita que o cargo do outro lado do Atlântico pode ter sido uma movimentação da Casa Real. Uma tentativa de formar uma espécie de “cordão sanitário” por causa de crise económica em Espanha e a repercussão do caso. Mudar-se para Washington, para Urdangarin, foi, na verdade, “outro passo para o abismo”.

Juan Carlos também menciona o “cordão sanitário” nas suas Memórias, lançadas em 2025. “Atendendo ao impacto do caso Nóos na opinião pública, a Casa de S.M. o Rei tentou erguer uma barreira de proteção e, a partir de 2011, o casal foi excluído das atividades oficiais da Família Real”, assume o rei emérito. “Obviamente, como sogro e pai, quis ajudar Iñaki e propus-lhe que contratasse os serviços de um dos melhores advogados espanhóis”, escreve ainda Juan Carlos, que diz que Urdangarin “não tinha meios para os pagar” e optou por pedir “a ajuda de um amigo, o pai de um dos colegas do seu filho no Liceu Francês em Barcelona”. A memória de Iñaki Urdangarin é, entretanto, diferente. Diz que foi “um amigo da Telefónica, que havia sido diretor jurídico da companhia na América Latina, que me fez a recomendação mais importante”. A indicação foi a de Mario Pacual, a quem chamou “companheiro de batalha, confessor e amigo”.

Juan Carlos terá exigido o divórcio

Quando em 2011 a polícia realizou buscas na sede do Instituto Nóos em Barcelona, a família real emitiu um comunicado a dizer que “o comportamento de Iñaki foi pouco exemplar”. De acordo com o jornalista e biógrafo de Felipe VI, José Apezarena, citado pelo El País, o Rei e o então príncipe de Astúrias terão reunido com Urdangarin na altura para pedir uma declaração pública na qual desvinculasse Cristina de qualquer relação às operações do Nóos. Teriam sido feitas cinco exigências: pedir perdão, colocar o Palacete de Pedralbes à venda, usar o dinheiro para arcar com as suas responsabilidades públicas, declarar a sua inocência e desvincular tanto a esposa como a Casa Real de qualquer relação ao caso. O então marido de Cristina terá rejeitado a proposta.

Contudo, a recordação de Urdangarin é um pouco diferente. Iñaki relata como tal abordagem terá acontecido durante três momentos diferentes: primeiro com o chefe da Casa Real a pedir um comunicado, depois com um emissário do Rei a viajar para os EUA e a pedir o divórcio do casal e, por último, com uma chamada direta de Felipe VI a recomendar a separação.

Urdangarin diz que o chefe da Casa Real, Rafael Spottorno, lhe pediu um comunicado oficial, que terá sido escrito e enviado antes de embarcar para uma viagem a trabalho ao Brasil. Queixa-se, entretanto, que as suas palavras foram parar ao lixo. “A Casa Real decidiu enviar uma mensagem clara: colocava-me aos pés dos cavalos.” Nesta altura, também diz que a família recebeu instruções para que não regressassem a Espanha. Terá sido por este motivo, e para tentar manter o clima “festivo” para os quatro filhos, que Iñaki e Cristina decidiram passar a quadra festiva num resort em Aspen, no Colorado, a esquiar. A viagem foi bastante polémica na altura, e vista como mais um gasto luxuoso numa altura de crise para a monarquia. Foi em janeiro de 2012 que o Rei Juan Carlos enviou aos EUA o emissário Fernando Almansa. Os detalhes do encontro já são públicos há anos, especialmente a proposta que terá sido apresentada pelo monarca à filha: a opção de divorciar-se de Urdangarin ou de renunciar aos seus direitos na linha de sucessão.

"O título não passava de uma honra que em nada diminuía a sua condição de infanta e Alteza Real, e sempre acreditei que é melhor antecipar-se do que sofrer. Dizia-lhe: 'Nasceste infanta de Espanha e sempre o serás. Isso ninguém pode tirar-te. O resto são pormenores'. Mas ela recusava, convicta de estar a defender a sua honra e a do marido".
Rei emérito Juan Carlos

A recordação do então marido de Cristina sobre esta reunião é bastante similar, apesar da sua opinião sobre a abordagem da realeza na altura ser crítica. “O motivo da viagem foi tão absurdo como grotesco, algo que se visse num filme não acreditava, mas aconteceu, e a verdade é que, considerando o que lhes serviu, podiam ter evitado.” Iñaki Urdangarin recorda ainda que Cristina defendeu-o perante o emissário do pai — uma reação também já conhecida. O biógrafo de Felipe VI descreve a posição da infanta no seu livro: ” Segundo relatos, Cristina encerrou a discussão de maneira muito rude, a gritar: “Nasci infanta e morrerei infanta”. Curiosamente, Juan Carlos repete a frase nas suas memórias, ao explicar a sua sugestão de que o título real lhe fosse retirado. “O título não passava de uma honra que em nada diminuía a sua condição de infanta e Alteza Real, e sempre acreditei que é melhor antecipar-se do que sofrer. Dizia-lhe: ‘Nasceste infanta de Espanha e sempre o serás. Isso ninguém pode tirar-te. O resto são pormenores’. Mas ela recusava, convicta de estar a defender a sua honra e a do marido”.

Por fim, Urdangarin relata que recebeu uma chamada de Felipe VI, “o meu cunhado, meu amigo. Ou eu acreditava que era”, descreve. O agora Rei de Espanha terá dito: “Iñaki, por favor, considere a situação. É o melhor para todos. Acredito que te defendes melhor sozinho. A Casa não pode fazer nada por ti agora. É melhor que te separes. Pensa que em certos círculos não te beneficia estar relacionado com a coroa. E por outro lado, tens de te proteger a ti e à instituição”.

Em 2015 o casal vendeu o Palacete e Pedralbes para arcar com os custos da fiança de responsabilidade civil, um negócio que se concretizou uma semana depois de Felipe VI — agora já Rei — retirar à irmã o título de duquesa de Palma de Maiorca. O ex-marido de Cristina afirma que Juan Carlos só começou a ajudar financeiramente os netos quando já havia abdicado do trono de Espanha, e que quando deixou a prisão, a família real “não parecia disposta a reconstruir a relação comigo”. “Sei que durante estes anos Cristina e as crianças receberam ajuda — algo que sempre agradeci — para mim não parecia haver nenhum gesto humano de aproximação. Nada.” Urdangarin relata ainda um encontro que teve com Juan Carlos em Genebra, na ocasião da formatura da filha, Irene, em 2023. “A conversa foi, como sempre, educada e cordial, mas saí do quarto que ocupava no hotel Four Seasons pior do que entrei, sem ter sequer vislumbrado o que gostaria de ter encontrado.”

Nas suas memórias, o rei emérito reconhece que Urdangarin, “por ser genro do rei, tenha tido de pagar, pelo seu erro, um preço mais alto do que outros“, destacando a pressão dos media sobre o caso. Juan Carlos também descreve como “Diego Torres percebeu as ligações que o meu genro poderia vir a ter”, e que “por ingenuidade e, certamente, por irreflexão, Iñaki, que confiava no sócio, assinava sem pestanejar todos os papéis que este lhe apresentava”. Contudo, é implacável sobre como a história entre Iñaki e Cristina terminou. “Ela foi corajosa, continuou a trabalhar e visitaria depois, todas as semanas, o marido na prisão. Depois da sua libertação, Iñaki instalar-se-ia com a mãe em Vitória e iniciaria uma relação com outra mulher. A minha filha e ele estão agora divorciados. Passar por tanto para acabar assim.”

As fotografias e o divórcio

Numa quarta-feira, a 19 de janeiro de 2022, a revista Lecturas chegou às bancas com um exclusivo: uma fotografia de Iñaki Urdangarin de mão dada com uma mulher loira, a passear perto da praia em Bidart, onde a família Urdangarin tem uma casa de férias. “Iñaki com outra mulher. Enquanto Cristina vive na Suíça”, dizia a manchete. Dias depois, o casal anunciou oficialmente a separação e o início do processo do divórcio. Nesta altura, Iñaki Urdangarin já vivia em liberdade condicional na cidade de Vitória, onde conheceu Ainhoa Armentia, uma advogada que trabalhava na mesma empresa onde havia iniciado um departamento de coaching, a Imaz y Asociados.

"Aceitar a forma como lidei com o término do meu relacionamento e o início do meu namoro com a Ainhoa tem sido outro grande desafio nesta jornada. Consigo entender e aceitar a necessidade que senti de encerrar esse capítulo, mas há algo que sempre terei dificuldade em me perdoar: a publicação daquelas fotos na imprensa, antes de ter tido tempo de explicar adequadamente aos meus filhos (já tinha falado com a Cristina, mas não com eles) a situação que estava vivenciando. A minha má gestão do tempo e da comunicação tornou tudo demasiado doloroso para todos"
Iñaki Urdangarin

Urdangarin não esclarece se terminou o casamento com Cristina antes de se envolver com Ainhoa, apesar de afirmar que a então mulher já sabia sobre a relação antes das fotografias serem publicadas. “Aceitar a forma como lidei com o término do meu relacionamento e o início do meu namoro com a Ainhoa tem sido outro grande desafio nesta jornada. Consigo entender e aceitar a necessidade que senti de encerrar esse capítulo, mas há algo que sempre terei dificuldade em me perdoar: a publicação daquelas fotos na imprensa, antes de ter tido tempo de explicar adequadamente aos meus filhos (já tinha falado com a Cristina, mas não com eles) a situação que estava vivenciando. A minha má gestão do tempo e da comunicação tornou tudo demasiado doloroso para todos”, escreve. “Fazer Cristina e meus filhos sofrerem novamente nunca fez parte da minha ideia de recomeçar. O meu desejo era conquistar a oportunidade de ser um pai que contribuísse, que se importasse, que reparasse. E, no entanto, mais uma vez, tudo deu errado. Falhei novamente na forma como lidei com as coisas, mesmo achando que entendia as razões subjacentes.”

O ex-marido de Cristina, no entanto, reforça que a forma como a relação chegou ao fim não pode resumir o que foi o casamento — uma espécie de ‘mea-culpa’ depois das críticas públicas ao caso, considerando o apoio que a infanta deu ao então marido durante tantos anos, defendendo-o perante a própria família, em tribunal e na prisão. “Diante do meu divórcio, sei que muitas pessoas questionaram os meus verdadeiros sentimentos nesta relação, inclusive desde o princípio, como se 25 anos de casamento pudessem ser julgados pela forma como acabou.” Urdangarin diz que foi uma conexão “profundamente afetuosa — e ainda o é nos dias de hoje, e desejo que sempre assim seja — mas aquela intensidade que durante tantos anos havia nos mantido unidos contra o mundo se havia transformado em outra coisa“.

Urgangarin explica também que até o início da investigação do caso Nóos, o casamento era muito unido, mas o processo “apagou a chama“. Diz ainda que ao sair da prisão, reencontrou uma Cristina “exausta”. “Durante anos havia sustentado a nossa família como uma fortaleza admirável: atravessou o processo judicial, os anos de prisão, a gestão das visitas, a logística do dia a dia, a exposição mediática e, além disso, o desgaste emocional no seu próprio entorno.” Urdangarin começou o período de liberdade condicional em Vitória em março de 2021, e diz que neste período a então mulher continuou a viver em Genebra, onde a família tinha casa. Que quando teve a autorização para ir à Suíça, sentiu-se “um visitante ocasional” ou um “outsider”. Que as visitas quinzenais de Cristina e dos filhos se espaçaram, o casal vivia separado, não tinha mais projetos em comum para além dos filhos, e que a relação tornou-se, aos poucos, similar à de “bons amigos”. E que houve um momento em que era “inevitável” reconhecer que a “relação havia mudado”, afirmando que ambos “evoluíram de maneiras distintas”. Contudo, não explica exatamente em que momento houve este reconhecimento, nem se os dois chegaram à mesma conclusão e falaram sobre o tema antes do caso com Ainhoa começar.

Meses antes das imagens com Ainhoa chegarem à imprensa, em outubro, paparazzi haviam fotografado Inãki e Cristina juntos a deixar um hotel em Barcelona. Ambos ainda passeavam de mãos dadas pelas ruas de Vitória no Natal de 2019, nas primeiras saídas de Urdangarin da prisão, e a opinião pública entendia que Cristina estava à espera do marido para retomar a relação. De acordo com a revista Vanitatis, Cristina leu o livro de memórias, deu a sua aprovação ao ex-marido, mas preferiu não acompanhar as entrevistas de Urdangarin após a publicação, em fevereiro. Isso porque, segundo a revista, esperava que o ex-marido fosse pedir-lhe desculpas públicas, o que reforça a perceção de que a infanta não sabia da relação com Ainhoa.

Iñaki afirma que conheceu Ainhoa Armentia numa fase em que tentava “recomeçar” e recuperar a autoestima. “A sua chegada representou uma nova energia na minha vida, que se adaptava perfeitamente à etapa de transição, de superação pessoal, de construção de uma nova identidade na qual me encontrava imerso.” Os dois cruzavam-se nas pausas para o almoço, quando as conversas, cada vez mais longas, eram “fáceis, serenas e fluiam de forma natural” (curiosamente, a mesma descrição que fez das primeiras conversas com Cristina, em 1996). “Com ela o mundo havia deixado de me dar medo para começar, outra vez, a parecer-me um desafio emocionante. Perto dela, o passado não pesava com tanta profundidade“, declara-se. Urdangarin diz ainda que Ainhoa é parte essencial do seu “presente, futuro e felicidade atual”. Mas que “neste novo momento” quer optar “pela discrição na esfera pessoal”.

A nova vida

Iñaki Urdangarin dedica um capítulo inteiro aos seus dias na prisão feminina de Brieva. Antes de relatar como eram os seus dias como recluso, faz questão de esclarecer que “não pediu” para ficar no módulo especial dentro da prisão para mulheres, e que esta foi uma decisão tomada pelas autoridades para preservar a sua segurança. “Se foi um privilégio, estava envenenado”, diz ainda, afirmando que ficar sozinho na cela ligeiramente maior e mais bem equipada que as convencionais era como “um duplo castigo”.

Na prisão, o então cunhado do Rei tinha direito a 10 chamadas de sete minutos de duração por semana, visitas através de um locutório aos fins de semana, limitadas a 40 minutos, e encontros presenciais com poucos familiares. Durante este período, diz que o desporto foi a sua medicina: treinava diariamente das 15h às 17h, numa bicicleta ergométrica ou no pátio. Usava as outras horas do dia para ler livros e cartas que recebia de desconhecidos (chega a citar nomes no livro) com palavras de ânimo, reflexões e toques de humor. Também escrevia pensamentos, resumos de livros e comentários. Ao fim de três meses preso, Iñaki Urdangarin diz que viu naquele período uma “oportunidade de se reinventar” e compara Brieva a um “monastério”.

Foi quando passou a ler mais sobre mindfulness, meditação e yoga. Inscreveu-se no mestrado em Psicologia e Coaching — a carreira que segue hoje, à frente da Bevolutive, uma consultoria de coaching desportivo. Um ano e meio depois de ser preso, a justiça permitiu que saísse duas vezes por semana para prestar serviço social no centro Don Orione, em Madrid. Esteve um ano neste regime, até março de 2020. Depois da pandemia foi para um regime de semiliberdade, em que passava cinco dias na Don Orione e dormia no Centro de Inserção Social de Alcalá de Henares, próximo a Madrid. Entre março de 2021 e março de 2022, esteve em semiliberdade em Vitoria — durante a semana trabalhava e dormia na prisão de Zaballa, e aos fins de semana dormia na casa da mãe. A partir de março de 2022 deixou de estar sujeito ao controlo presencial em Zaballa, e entrou no regime de liberdade condicional. A 9 de abril de 2024 cumpriu a pena na totalidade.

Como um homem livre, reconstruiu uma vida para si em Vitória. Fundou a própria empresa numa área que junta a paixão antiga pelo desporto à nova profissão que aprendeu enquanto esteve preso, assumiu a relação com Ainhoa Armentia, e diz que mantém uma rotina regrada de exercícios físicos, incluindo desportos como o padel e a natação. Diz ter uma boa relação com a ex-mulher e os filhos — mas o mesmo não se pode dizer sobre a família real. Reconhece que foi difícil gerir o rancor, mas garante que o sentimento ficou na cela em Brieva, e que o novo Iñaki quer evoluir.