A decisão do governo da África do Sul de mudar o nome da cidade de Graaff-Reinet para Robert Sobukwe, integrada num esforço mais alargado levado a cabo nas últimas décadas para remover da toponímia sul-africana as marcas do colonialismo europeu e do regime de apartheid, está a gerar conflito na povoação, reacendendo antigos conflitos raciais e provocando fortes divisões sociais, de acordo com uma reportagem publicada este fim-de-semana pelo jornal britânico The Guardian.
A cidade de Graaff-Reinet, que se situa no interior do país e onde vivem cerca de 51 mil habitantes, foi fundada no final do século XVIII e batizada com o nome de Cornelis Jacob van de Graaff, o governador holandês que liderou a cidade no período em que esteve sob o domínio da Companhia Holandesa das Índias Orientais, e da sua mulher, Hester Cornelia Reynet.
Foi justamente em Graaff-Reinet que nasceu, em 1924, o ativista anti-apartheid Robert Sobukwe, cujo nome o governo sul-africano quer agora dar à cidade, de acordo com a decisão aprovada em fevereiro.
Contudo, a decisão está longe de ser pacífica. Como conta o The Guardian, nas últimas semanas tem havido petições e protestos contra e a favor — e até uma carta formal de protesto contra a mudança de nome da cidade.
Em primeiro lugar, a própria figura de Sobukwe não é consensual. Em 1959, Sobukwe abandonou o Congresso Nacional Africano (ANC), o movimento de libertação de África do Sul que governa o país desde o fim do apartheid, e fundou o Congresso Panafricanista — movimento que discordava radicalmente da perspetiva multirracial do ANC, que admitia membros brancos, e defendia a posição do nacionalismo africano.
Um estudo realizado por um investigador da Universidade de Stellenbosch concluiu que 83,6% dos habitantes de Graaff-Reinet eram contra a mudança de nome. A oposição era maioritária em todos os grupos étnicos, mas com diferenças: 98,5% dos brancos e 55% dos negros manifestaram-se contra. O terceiro grupo étnico, descrito no contexto sul-africano como coloured (de cor) e composto essencialmente por pessoas mestiças, descendentes de cruzamentos entre colonos europeus e escravos africanos, particularmente oriundos dos povos indígenas Khoi-San, também se mostrou maioritariamente contra a mudança de nome: 92,9% disseram opor-se.
De acordo com o autor do estudo, “muitos residentes sentiram que mudar o nome apagaria uma parte da sua identidade como ‘Graaff-Reinetters'”. Por outro lado, como disse ao The Guardian o ativista local Laughton Hoffman, que pertence ao povo Khoi-San, a mudança do nome acarreta o risco de prejudicar o turismo na região e, em consequência, causar sérios danos à economia local.
A mudança de nome da cidade está, também, a reacender a tensão com estes grupos mestiços, que sofreram particularmente após o fim do apartheid, já que, durante o regime de apartheid, apesar de não terem os mesmos direitos que a população branca, tinham acesso a melhores condições do que a população negra — o que motivou fortes ressentimentos contra eles. “Temos sido marginalizados como grupo cultural há 32 anos”, assinalou Hoffman. Uma carta formal enviada ao Governo lamentou, além disto, as tensões que a proposta veio acender na comunidade.
Entre a comunidade negra, há mais apoio à mudança de nome. “Sobukwe tornou-nos livres”, disse ao jornal britânico Mzoxolo Nkhomo, de 59 anos, mostrando-se favorável à mudança.
A alteração de 21 topónimos foi recentemente aprovada pelo Ministério do Desporto, Arte e Cultura da África do Sul, no âmbito do “compromisso contínuo” do Governo “em transformar o panorama da nomenclatura na África do Sul, promover a coesão social e reconhecer o património diversificado do país”.
O objetivo, disse o Governo, passa por “padronizar os nomes geográficos na África do Sul e, ao fazê-lo, reparar, corrigir e transformar o sistema de nomenclatura geográfica, a fim de promover a justiça restaurativa, incluindo o confronto com o legado colonial e do apartheid, garantindo que os nomes geográficos refletem as línguas indígenas, o património cultural e o património natural”.