Os músicos mais antigos da banda cabo-verdiana Os Tubarões recordaram, em Lisboa, o encontro que tiveram em 1981 com o secretário-geral do PCP português, que lhes queria pagar pela atuação na Festa do Avante, o que eles recusaram.
Zeca Couto, teclista e diretor musical da mítica banca cabo-verdiana, e o guitarrista Israel Silva falavam à agência Lusa momentos antes do espetáculo que domingo encheu o espaço Lisboa Ao Vivo (LAV) e que foi “um regresso a casa”.
A primeira vez em que o grupo esteve em Portugal foi há 45 anos, na Festa do Avante, quando encontraram um público maior do que a população em Cabo Verde, que os acolheu de tal forma que ainda hoje esse momento é recordado por elementos da banda, principalmente os mais antigos.
“O tratamento, o som, tudo foi uma maravilha”, afirmou Zeca Couto, contando como ficaram surpreendidos quando souberam que o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, os queria cumprimentar.
E foi então que, durante o encontro, Cunhal “chamou uma senhora, que trouxe uma bandeja e começou a distribuir envelopes”.
Nos envelopes havia dinheiro para pagar os músicos pela atuação na Festa do Avante, mas o grupo não aceitou.
“Isso foi uma surpresa, porque nós aceitámos o convite do Partido Comunista, quisemos fazer o trabalho, numa base de militância, porque nós somos pela liberdade primeiro, José Afonso e tudo isso, somos pela liberdade”, disse o teclista.
O grupo viu nesta festa uma oportunidade para conhecer Portugal, o que aconteceu, de norte a sul, com os Trovante, com quem partilharam os palcos.
Passaram 45 anos desde esse episódio, 50 desde a independência de Cabo Verde, e Os Tubarões continuam “na mesma linha”.
“Temos um esqueleto, só que o corpo é que vai se modificando, mas a nossa linha dorsal continua a mesma, o DNA continua o mesmo”, acrescentou, referindo que “o público vai-se adaptando”.
“Temos muita juventude que atualmente abraça Os Tubarões com um certo calor e até nos perguntam: Vocês faziam isto há 40 anos, em termos musicais?”, disse.
Israel Silva não encontra grandes diferenças entre o público em Cabo Verde e Portugal.
“Vejo uma adesão grande do público. O cabo-verdiano que está cá [em Portugal] vem matar saudades, mas Lisboa é uma cidade muito africana, que resultou de todo esse processo das independências e de todo mundo que veio de lá para cá”, disse.
O guitarrista sublinha a forma calorosa como o grupo é sempre recebido em Portugal, onde se sente em casa, com um público a vibrar com as suas músicas, sobretudo a morna, a coladeira e o funaná.
E foi isso mesmo que aconteceu domingo no LAV, uma casa cheia com um público de várias gerações, sempre a dançar ao som de algumas das músicas mais conhecidas do grupo, como “Djonsinho Cabral”, “Tabanka” e “Porton di Nos Ilha”, canções imortalizadas pela voz de Ildo Lobo, que morreu em 2004, e que continuam agora com o vocalista Albertino Évora.
Prometido está um novo álbum, no qual o grupo está a trabalhar, com temas novos de um compositor da nova geração.
“Um dia desses vamos entrar no estúdio e gravar uma obra”, disse Zeca Couto.
Ismael Silva deixa apenas uma condição: “O fundamental é que o próximo trabalho seja, no mínimo, igual ao último, em termos de qualidade; o mínimo. Agora, nós vamos primar por melhorar”.