Ao fim de 18 horas de espera à porta da AIMA, em Lisboa, Sukhdeep Singh percebeu que o esforço para conseguir o título de residência de pouco lhe valeu. Conseguiu ser o primeiro da fila de milhares de pessoas que dava a volta ao quarteirão, mas a greve dos mediadores socioculturais, que impossibilitou o atendimento dos casos sem agendamento, apanhou este imigrante indiano de 36 anos de surpresa. Pelas 7h desta segunda-feira nenhuma das pessoas que falaram com o Observador sabia da reivindicação destes trabalhadores para exigir a incorporação nos quadros da instituição — inlcuindo alguns advogados que iam tratar de processos.
À porta, Artur Sequeira, dirigente da Federação Nacional dos Sindicatos dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais (FNSTPS), antecipava ao Observador, ainda antes da abertura, às 8h, que os constrangimentos seriam grandes, esperando uma adesão significativa: “A AIMA tem várias lojas que são compostas por funcionários públicos e mediadores culturais. Esta aqui é exclusivamente atendida por mediadores culturais”.
Pouco depois, chegaria a confirmação de que nem Sukhdeep nem qualquer outro imigrante que esperava na fila sem agendamento – e que já ia da Rua Álvaro Coutinho até ao Café Almirante, na Avenida Almirante Reis – seria atendido, com as longas filas a desfazerem-se até às 10h. Na porta, dois agentes repetiam a quem não tinha ainda percebido que havia greve: “Só amanhã. Está fechado”. A adesão em Lisboa não foi total, segundo uma funcionária da AIMA que falou com o Observador e que apontou para 30%, mas permitiu apenas manter o atendimento de pessoas com agendamento.
É já a segunda vez que Kalam tem de ir embora sem tratar do título
As outras pessoas saíram, mas no chão ficaram cartões onde dormiram. Kalam, natural do Bangladesh, foi um dos que abandonaram assim que soube que não ia ser atendido. Estava no fim da fila, tinha chegado às 5h00 da manhã, e nem via a porta. “Trabalho em agricultura fora de Lisboa. Vim para cá de autocarro”, começa por dizer o homem de 39 anos, adiantando que é já a segunda vez que ali vai para resolver um problema com o seu título de residência. Atrás dele, havia ainda algumas pessoas que foram chegando perto da abertura.
À porta, mesmo depois de lhe ser negado o atendimento, ficou Sukhdeep. Confessou-se desiludido, após um dia e meio de espera. “Tive de pedir um dia de férias para estar aqui e amanhã tenho de trabalhar. Não posso estar cá”, desabafa. Trabalha numa fábrica de empacotamento de feijão em Leiria e tudo dependia agora de uma chamada do patrão: “Estou à espera que me ligue para saber se me autoriza a ficar cá [para uma nova espera] ou se já tenho de lá estar amanhã”, explicou, enquanto mostrava incompreensão: “Estivemos aqui sem irmos à casa de banho”.
“É normal e é compreensível que muitas pessoas que estão aqui desde a madrugada sintam que a AIMA não está a dar resposta àquilo que elas precisam. Mas há também muitas que mostram solidariedade” para com os mediadores socioculturais, diz Carolina Silva, uma dessas profissionais, que estava em greve e entregava alguns folhetos que elencavam as reivindicações. “Uma das primeiras pessoas que falou comigo disse-me logo: ‘Espero que vocês consigam’”, conta.
“Nós queremos um reconhecimento”, diz mediadora
“Compreendemos que para muitas seja difícil esta deslocação, que implica muitas vezes dormir à porta, mas nós temos tentado passar a mensagem de que também não conseguimos prestar um bom serviço se não tivermos condições laborais para fazê-lo e de que nos sentimos injustiçados. Sem nós, a AIMA não consegue funcionar”, concluiu.
“Nós queremos um reconhecimento. Esse reconhecimento só tem uma resposta: a nossa integração nos quadros da AIMA”, conclui a mediadora sociocultural.
No total, “são mais de 200 mediadores socioculturais, que ganham menos que os trabalhadores públicos e têm funções idênticas”, diz ao Observador, à porta das instalações da AIMA, Artur Sequeira, dirigente da Federação Nacional dos Sindicatos dos Trabalhadores em Funções Públicas (FNSTPS), insistindo na integração “no quadro de efetivos” da AIMA: “O que se quer é o direito a um emprego e não a uma situação de precariedade como aquela que têm neste momento, com contratos a termo incerto e em situação de subcontratação”.
Para vincar essa pretensão, os mediadores culturais da AIMA realizarão durante a tarde desta segunda-feira um protesto junto à sede do Governo.