O Ministro da Defesa da Alemanha, reiterou a ideia de que a guerra no Irão, “não é a nossa guerra”.
Parece uma frase prudente, sensata e madura, afinal o Irão não é na Europa. Mas na verdade é apenas uma forma elegante de justificar a rendição mental, e a recusa de agir.
O problema começa muito antes, numa disposição cognitiva dos países europeus, hoje transformada em catecismo. A convicção de que o uso da força representa, por definição, um mal e si, e tudo se pode resolver com diálogo e moderação. A tese parece nobre, e por isso seduz. Mas, examinada de perto, é apenas uma necessidade psicológica. Consola-nos do mundo, mas não o descreve. Como todas as ilusões reconfortantes, resiste ferozmente aos factos.
Quando o Irão contradiz, pelos seus actos, esta ilusão, a mente europeia, em vez de rectificar o diagnóstico, corrige a realidade. Reescreve o que o Irão faz. Mesmo quando os aiatolas fazem exactamente o que dizem; mesmo quando o regime diz exactamente o que quer, em slogans, leis, mísseis e sangue; mesmo quando o povo iraniano se levanta e grita, à sua maneira, que o problema não é um mal-entendido diplomático mas uma tirania impiedosa e fanática. Ainda assim, a reacção reflexa de boa parte das elites ocidentais é falar por cima e reinterpretar. Ah, eles não querem realmente dizer isso, há moderados a emergir, desta vez será diferente.
Mas eles querem realmente dizer o que dizem, não há “moderados” a brotar do sistema e nada será diferente do que tem sido.
Desde 1979, o regime iraniano tem dito explicita e repetidamente ao que vem. Jurou destruir os EUA e Israel. Fez da hostilidade um programa, da intimidação uma linguagem e de exportação do terrorismo uma estrutura de poder. Em 2023, Khamenei explicou, com todas as letras, que o acordo nuclear de Obama fora apenas uma táctica, e que o regime nunca tencionara honrá-lo. Disse-o com a naturalidade de quem confessa a mentira e espera, não o descrédito, mas nova rodada de conversações. E obteve-a. O mundo ouviu a confissão e marcou outra reunião. Há ingenuidades que, ao fim de várias décadas já não merecem esse nome.
A frase “não é a nossa guerra”, só se torna possível neste ambiente moral de evasão.
Não é a nossa guerra? Pois não. É apenas a nossa energia, o nosso comércio, a nossa segurança, os nossos aliados e o nosso futuro. O estreito de Ormuz, por onde passa uma fatia colossal da energia mundial, não será livre por milagre geográfico. O Bab el-Mandeb, cuja perturbação basta para encarecer fretes, atrasar rotas e pressionar cadeias logísticas, também não é apenas uma curiosidade num mapa. E os grandes hubs aéreos do Golfo, nós centrais da circulação global de passageiros e mercadorias, não são apenas uma particularidade oriental sem qualquer influência sobre a vida de um continente que importa energia, depende do comércio e gosta muito de férias. É por isso que é difícil decidir onde acaba a miopia e começa a paródia.
A verdade é que esta guerra já entrou em nossa casa sem pedir autorização. Está no preço dos combustíveis, no custo dos transportes, na volatilidade dos mercados, nos seguros, nas facturas de energia, nas cadeias de abastecimento. Uma guerra muito pouco nossa, portanto, segundo alguns líderes, mas suficientemente íntima para se sentar à mesa connosco. O prodígio lógico do europeísmo contemporâneo consiste precisamente em declarar exterior aquilo que já nos determina interiormente. É uma forma curiosa de soberania, esta de sermos afectados por tudo e responsáveis por nada.
Mas a questão é sobretudo estratégica. O Irão não é uma potência satisfeita com a mera sobrevivência, segurança, bem estar ou influência. Quer hegemonia, preponderância, revolução, extermínio.
Há décadas que constrói, com disciplina e persistência, um sistema de projecção indirecta do medo que assenta em proxies armados, coerção marítima, intimidação regional, chantagem energética, acumulação de mísseis e drones, profundidade estratégica e ambição nuclear, tudo embrulhado em profecias milenaristas. Tudo isto está à frente dos nossos olhos E quem se recusa a ver propósito onde ele entra pelos olhos dentro, acaba sempre por mal.
Perante este quadro, a inacção é baptizada com eufemismos. Os ingénuos chamam-lhe contenção. Os pretensiosos preferem “evitar a escalada”, expressão muito útil porque permite assistir à escalada real enquanto se finge combatê-la com frases. A História, nada impressionável com cortinas de fumos e linguagens criativas de apaziguamento, decreta apenas que o problema de adiar o preço a pagar, acaba por o tornar incomportável.
Se a presente guerra não tivesse eclodido agora, por decisão consciente de quem resolveu enfrentar o problema, em vez de o negar, não teríamos como alternativa um horizonte de entendimento pacífico entre e República Islâmica e as democracias fatigadas. Teríamos, isso sim, uma guerra futura em condições muito mais favoráveis ao grande disruptor da região, que estaria então mais armado, mais entrincheirado, mais nuclearizado, mais confiante e mais capaz de subjugar os adversários pela simples credibilidade da ameaça.
Além disso é obsceno fingir que Israel é um detalhe local de uma querela distante. Um Irão não neutralizado nos seus objectivos e capacidades não precisa sequer de conquistar formalmente o Médio Oriente. Basta-lhe persuadir todos de que pode destruir quem lhe resiste, estrangular quem depende das rotas que ameaça e impor custos intoleráveis a quem o desafie. Está a mostrar que não hesitaria em fazê-lo. A subjugação não precisa de ocupação. Começa quando o inimigo convence os outros de que resistir lhe sairá demasiado caro. É esse o ponto em que a fraqueza alheia passa a ser a sua força.
Há, porém, um erro ainda mais grave no raciocínio europeu: a suposição de que todos os regimes calculam como nós, de que todos pensam de forma igual.
O mundo não é assim. Há sociedades que valorizam prosperidade, estabilidade, melhoria do bem-estar e gestão eleitoral do descontentamento. E depois há regimes ideológicos, revolucionários e milenaristas, para os quais o sofrimento da própria população é apenas matéria-prima ao serviço dos objectivos dos líderes, e não, como no nosso caso, um travão moral.
A sensibilidade europeia, habituada à dinâmica do preço das cenouras e dos nabos, imagina que uma subida de preços ou algum incómodo social bastam para moderar qualquer poder, e projecta sobre Teerão a psicologia da couve de Bruxelas. É um erro infantil, que se torna perigoso quando a infantilidade se instala em gabinetes ministeriais.
A posição do Sr Pistorius é, por isso, errada e desastrosa. Ao dizer que “esta não é a nossa guerra”, oferece de bandeja aos isolacionistas americanos que detestam a Europa e a Ucrânia, e admiram a Rússia, a fórmula exacta de que precisarão para responder, amanhã, que a guerra na Ucrânia também não é a guerra deles.
E, no dia em que Washington, farto de sustentar a segurança de um continente rico, mas estrategicamente estúpido e ainda militarmente subnutrido, aplicar à Europa o mesmo princípio de indiferença de que a Europa se ufana para o Golfo, veremos então muitos supostos estadistas redescobrir, entre suspiros e manifestações de preocupação, que a geografia existe, que a História não acabou e que a protecção americana não é um fenómeno atmosférico.
Se, no século passado, os EUA tivessem olhado para a agressão nazi e concluído, com ar de merceeiro prudente, que não era a sua guerra, a Europa teria aprendido em alemão correcto o preço da neutralidade alheia. Dizer hoje o mesmo, num continente que continua dependente da arquitectura estratégica americana, é de uma irresponsabilidade quase pornográfica. Sobretudo quando se insulta Washington de manhã e se espera salvação à noite.
E aí temos o lamentável exemplo da Espanha de Sánchez, que acrescenta à miopia, a ideologia de esquerda antiamericana e a solenidade declamatória do vazio, assente na ilusão de que um slogan substitui um pensamento.
“Não à guerra”, repete, como se gritar “não ao fogo”, apagasse um incêndio. O governo espanhol porta-se como se a condenação verbal da guerra impedisse os mísseis de voar, os regimes de ameaçar e os fanáticos de avançar. E não percebe que apenas sinaliza ao Irão que, do lado europeu, continua a existir uma abundante reserva de cobardia e estultícia, embrulhada em virtude retórica. A certa altura, a pose pacifista deixa de ser convicção e passa a ser parasitismo, Beneficia da ordem assegurada por outros, mas denuncia o esforço necessário para a manter.
No fundo, a frase alemã e a coreografia espanhola dizem-nos muito sobre a Europa. Revelam uma classe dirigente viciada na gestão do imediato e incapaz de pensar o estrutural; gente que troca estratégia por mercearia, valores por sondagens, liberdade por descontos temporários e segurança por palavreado ideológico Uma classe que se preocupa com o preço dos brócolos hoje, e mostra-se alegremente disponível para que, amanhã, os seus povos paguem com juros o preço da energia, do comércio, da soberania, da segurança e, por fim, da própria liberdade.
“Não é a nossa guerra”, dizem eles.
Pois não. São apenas os nossos mares, os nossos combustíveis, os nossos aeroportos, os nossos mercados, os nossos aliados, a nossa vergonha e o nosso futuro. Um continente que já não reconhece como sua uma guerra capaz de decidir o grau da sua dependência perante Rússia, China ou Irão está em decadência. E quando a decadência começa a falar em tom moral, já não se trata de prudência. Trata-se de cobardia armada em virtude. Que se paga com submissão, chantagem, e medo. E com a liberdade.
Quando finalmente chegar a factura, será inútil explicar ao credor que, em tempos, tudo aquilo “não era a nossa guerra”.