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(A) :: Perder a esperança

Perder a esperança

Se os gregos afastavam a esperança como mal para a paz do espírito, o Cristianismo reclama a esperança como fundamento para a paz de espírito por nos dar a promessa de salvação e justiça divina.

Patrícia Fernandes
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Podemos ir colecionando os mitos gregos como quem faz (ou fazia) coleção de cromos na infância. Vamos juntando as diferentes versões de cada história, vamo-nos familiarizando com as personagens, vamos conhecendo a longa teia que as liga, vamos aprendendo as diferentes leituras que delas foram feitas. E vamos, inevitavelmente, criando relações de afeto com algumas dessas histórias, que, aos poucos, se vão tornando as nossas favoritas. Foi o que me aconteceu com o mito de Pandora.

Não podemos avançar logo para ela, a primeira mulher a ser criada. Temos de começar pelo mais conhecido dos titãs, Prometeu, e o seu irmão Epimeteu, e como Zeus delegou neles a tarefa de criar os homens. Estariam os deuses aborrecidos no seu mundo de ordem e harmonia? Talvez tivessem decidido, por essa razão, conceber criaturas, humanas e não humanas, com quem se pudessem entreter.

Em Protágoras, Platão coloca na boca do sofista a história de como Prometeu entregou ao irmão a tarefa de distribuir os talentos pelas criaturas. Mas Epimeteu, sempre menos perspicaz do que o irmão, procura Prometeu angustiado: tinha distribuído todos os dons – velocidade, força, rapidez, tamanho – aos animais não humanos e agora não sobravam talentos para os homens. Prometeu resolve a desvantagem humana dando-lhes o fogo que roubou a Hefesto.

Foi essa dádiva que fez Zeus castigar Prometeu, como já sabemos, mas também os homens. Diz-nos Hesíodo que Zeus pediu a Hefesto e à deusa Atena que dessem forma à mulher, uma criatura encantadora que recebe o nome de Pandora: aquela a quem os deuses deram tudo. E entregando-a a Epimeteu, que a aceita enfeitiçado, deixa com ela uma caixa (as versões mais antigas falam de vaso) que não poderia ser aberta.

Stephen Fry, no seu estilo sempre divertido, descreve a luta de Pandora com a curiosidade feminina:

“Epimeteu dormia feliz ao seu lado. Os raios do luar dançavam no jardim. Incapaz de aguentar por mais tempo, Pandora saltou do leito conjugal e dirigiu-se ao jardim, puxando a base do relógio de sol e escavando a terra, antes sequer de ter tempo para dizer a si mesma que estava a fazer a coisa errada. Retirou o pote do lugar onde o escondera e rodou a tampa. O selo de cera cedeu e Pandora destapou-o.”

John William Waterhouse, Pandora (1896)

Ao abrir a caixa, Pandora soltou para os homens todos os males do mundo: a falsidade, a velhice, a infelicidade, a culpa, a morte violenta, o sofrimento, a fome, a dor, as mentiras, a guerra. Mas ao fechar apressadamente a caixa, deixou lá dentro um último mal: a esperança.

É uma das notas mais intrigantes dos mitos gregos. Aos nossos olhos – aos olhos modernos cativos do mito do progresso – a esperança é uma coisa boa. Porque estaria na caixa juntamente com a dor, o sofrimento, a desgraça? Não seria a esperança uma disposição do espírito positiva, que nos impele a viver melhor?

A verdade é que, como diz Luc Ferry em A mitologia grega de A a Z,

“aos olhos dos Gregos, nada é pior do que a esperança. Convida-nos constantemente a ceder às ilusões de que “tudo será melhor depois”, quando estivermos no paraíso, quando tivermos mudado isto ou aquilo, o nosso emprego, a nossa casa, os nossos amigos, a nossa mulher ou o nosso marido… O que, aos olhos dos antigos, é tão vão quanto errado.”

Ao contrário da visão moderna, excessivamente inclinada para o futuro, os gregos consideravam que a vida boa é aquela que aceita a condição mortal, que procura estar em harmonia com o mundo e que vive no presente – ao invés de estar encurralada entre as paixões tristes do passado e o medo ansioso do futuro. A esperança seria, neste sentido, perturbadora da paz de espírito por nos impelir constantemente para as preocupações futuras, impedindo-nos de viver o presente com tranquilidade.

É o Cristianismo que tira a esperança da caixa transformando o seu sentido, com o Catecismo da Igreja Católica a nomeá-la uma das virtudes teologais:

“A virtude da esperança corresponde ao desejo de felicidade que Deus colocou no coração de todo o homem; assume as esperanças que inspiram as atividades dos homens, purifica-as e ordena-as para o Reino dos céus; protege contra o desânimo; sustenta no abatimento; dilata o coração na expectativa da bem-aventurança eterna. O ânimo que a esperança dá preserva do egoísmo e conduz à felicidade da caridade.” (1818)

Se os gregos afastavam a esperança como mal para a paz do espírito, o Cristianismo reclama a esperança como fundamento para a paz de espírito por nos dar a promessa de salvação e justiça divina. E a esperança de salvação futura libertar-nos-ia para vivermos o presente em paz.

Será esta a chave para compreendermos o atual descontentamento ansioso? Trata-se, provavelmente, de um dos grandes problemas filosóficos do nosso tempo: como é possível termos tanto e vivermos tão ansiosos e descontentes? Será resultado desse momento fulcral que Nietzsche decretou como a morte de Deus? Primeiro abandonamos os mitos, depois abandonamos Deus – e ficamos rodeados de bens materiais e conforto, enquanto mergulhamos em tristeza e ansiedade.

Mas regressar aos Antigos pode ajudar. Eles ensinam-nos a escapar da ansiedade do futuro e a viver com mais tranquilidade. Como o estoicismo e a sua lição de vivermos simplesmente o presente, como aconselha Séneca a Lucílio: “Deixa de ter esperança e deixarás de ter medo.” Afinal,

“a esperança antecede o medo. Não me surpreende que assim seja: ambos são filhos da incerteza, ambos esperam e se preocupam com o que vai acontecer. Mas o que está na origem de ambos é sobretudo o facto de não nos contentarmos com o presente, de lançarmos os nossos pensamentos para o futuro.”

Ou como nas palavras mágicas que repetimos desde a infância até se terem tornado numa metáfora adormecida – “o pão nosso de cada dia nos dai hoje” –, pelas quais confiamos a Deus o pão de hoje, e não o de amanhã. Ou na variante do sermão da montanha: “Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia o seu problema.” Afinal,

“Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma só hora à duração da sua vida?”

Talvez precisemos de voltar a perder a esperança para recuperar a paz de espírito.

Votos de uma Santa Páscoa.