Imagine que Vladimir Putin, numa deriva psicótica para desmembrar a Europa e derrotar a Ucrânia, usando o argumento que está em perigo a segurança da Rússia decide, e implementa, um ataque cirúrgico. Envenena o Papa Leão XIV, e mata três líderes europeus, Ursula Von Der Leyen, António Costa e Kaja Kallas. Apenas decide poupar a Presidente do parlamento europeu Roberta Metsola. Liquidados os quatro líderes, o religioso (dos católicos) e os políticos, Putin diz que quer negociar. Não é preciso ser nem católico nem muito europeísta para se perceber a vontade que teríamos de negociar face a este cenário trágico. Mutatis mutandis, é o que se passou no Irão. Neste caso duas potências estrangeiras que atacam um Estado soberano, decepam a sua liderança, que num estado teocrático é simultaneamente religiosa e política, com o argumento de uma ameaça iminente. Afinal, estávamos convencidos que o anterior ataque israelo-americano de Junho de 2025 tinha, nas palavras do próprio Presidente americano, destruído as principais infraestruturas nucleares do Irão e que o Irão ficaria impossibilitado de desenvolver armas nucleares durante anos. Trump disse isto há apenas nove meses. Agora, no meio de negociações com os EUA, Israel decide atacar e levar consigo o amigo americano devido à ameça do Irão. Netanyahu já nos habituou a que sempre que há um acordo eminente arranja uma maneira de torpedear esse acordo. Tudo isto à revelia do direito internacional, da carta das Nações Unidas, da NATO e sequer o mínimo diálogo com os europeus. Apesar disto Trump tem a desfaçatez de querer envolver a Europa e a NATO no conflito, e tendo levado uma resposta negativa (à parte a utilização das bases militares) chamou-nos cobardes por não alinharmos numa guerra, para a qual nem ele próprio sabe o objetivo pois já teve vários, consoante o dia da semana.
Há, contudo, um objetivo que Trump aparentemente conseguiu, a mudança de regime. Mas não no sentido que imaginara. No delírio dos seus Secretários de Estado, com os cenários fornecidos por estrategas do pentágono, e alguns especialistas em teoria dos jogos, a coisa era simples. Decepa-se a cúpula de um regime opressor e justamente mal-amado e a população sai para a rua derruba o regime, e um novo líder escolhido de preferência como amigo dos EUA, toma o poder. A realidade, porém, é mais complexa do que vem nos manuais de estratégia, e houve um princípio básico que foi ignorado: a natureza tem horror ao vazio. Por isso, aquilo a que assistimos, parece ser efetivamente uma mudança de regime, mas não no sentido idealizado pelas cúpulas político-militares israelo-americanas. É certo que a teocracia foi abalada, e o novo líder religioso, o filho de Ali Khamenei, desapareceu por completo. Alguns dão-no como estando em coma, outros que não aparece com receio de ser eliminado.Porém, tudo indica que o Irão está a passar de uma teocracia para uma ditadura militar comandada pelo Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica. Segundo a Economist, precisamente para evitar ser decapitada, esta sub-dividiu-se em trinta e um distritos com comandos autónomos com o seu próprio armamento, incluindo drones, não dependendo de ordens de comando central. Ou seja, para já o “sucesso” da guerra contra o Irão traduziu-se por uma maior união interna, um regime mais autoritário e a inexistência de uma liderança única com quem se possa efetivamente dialogar, ainda que por interposto estado-membro, o que também se tem afigurado difícil.
O que se seguirá depois é incerto. Há vários cenários e poucas certezas.
Das poucas, uma é a crescente divergência dos objetivos de Israel e Estados Unidos da América. Com a inflação a subir, o preço do crude estável acima dos cem dólares, a bolsa e a popularidade de Trump em baixa, manifestações contra o Rei (No King) em milhares de cidades americanas, as eleições intercalares em novembro e sobretudo sem saber o que fazer com esta guerra os EUA pretendem sair dela o mais rapidamente possível. Do ponto de vista americano, fala-se agora em duas semanas. Mas uma guerra não termina por decreto, nem com a saída dos EUA. Já se viu que Netanyahu, cujo objetivo nesta guerra é claro – enfraquecer o mais possível o Irão e alargar a sua presença no sul do Líbano – quer prolongar a guerra que aliás é popular em Israel. Quando os EUA anunciou uma trégua, Israel continuou os ataques. É provável que assim aconteça, ainda por algumas semanas, mesmo depois dos EUA se retirarem.
De momento estamos ainda numa fase de escalada da guerra. Os Houthis do Iémen entraram na guerra, intensificaram-se os ataques de Israel a Teerão no fim de semana, a universidade de ciência e tecnologia foi atingida, a Guarda Revolucionária do Irão ameaça retaliar contra universidades americanas nos países do Golfo. Os EUA estão a enviar mais milhares de marines para o golfo para, no dizer de Marc Rubio, dar todas as possibilidades ao Presidente face a diferentes contingências. Duas interpretações possíveis do que se pode passar. Uma, aplicar a conhecida estratégia diplomática de Trump, ameaçar, mostrar no terreno a força militar para depois negociar, supostamente em vantagem. Isto, quando paralelamente o Paquistão tenta desempenhar um papel de mediador Segunda, tomar militarmente a ilha de Kharg, o que seria aparentemente fácil, mas de um risco incalculável para as forças americanas dada a sua proximidade com a costa do Irão.
O preço desta guerra já foi elevado. Milhares de mortos, incluindo centenas de crianças inocentes e a destruição de infraestruturas, casas de civis e sobretudo armamento iraniano. Não sabemos ainda como acabará esta guerra. Mas não temos dúvidas que Donald Trump irá dizer, quando ela acabar, que foi um sucesso e que todos os seus objetivos foram alcançados. Como é costume.