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(A) :: "Sem precedentes" e "uma ofensa". Países criticam Israel por ter impedido Patriarca Latino de celebrar Domingo de Ramos em Jerusalém

"Sem precedentes" e "uma ofensa". Países criticam Israel por ter impedido Patriarca Latino de celebrar Domingo de Ramos em Jerusalém

Líderes políticos e religiosos apontam para um precedente grave em matéria de liberdade religiosa. Israel justifica a medida com razões de segurança, num contexto de ameaça de ataques.

Joana Moreira
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A decisão das autoridades israelitas de impedir a celebração da missa do Domingo de Ramos no Santo Sepulcro desencadeou uma onda de críticas internacionais, que não deixou Portugal de fora. Este domingo, a polícia israelita impediu o Patriarca Latino de Jerusalém e o padre da Igreja do Santo Sepulcro de entrar no local sagrado para celebrar a missa do Domingo de Ramos, “pela primeira vez em séculos”, denunciou o Patriarcado Latino. “Ambos foram detidos no caminho, enquanto se deslocavam a título privado […] e foram obrigados a voltar para trás”, indica um comunicado conjunto do Patriarcado Latino de Jerusalém e da Custódia da Terra Santa, liderado por Pierbattista Pizzaballa.

“Consequentemente, e pela primeira vez em séculos, os líderes da Igreja foram impedidos de celebrar a missa do ‘Domingo de Ramos’ na Igreja do Santo Sepulcro”, acrescenta o comunicado, numa altura em que Israel encerrou todos os locais sagrados da Cidade Velha de Jerusalém Oriental, invocando razões de segurança. Para as autoridades religiosas, este impedimento “constitui um grave precedente” e “demonstra uma falta de consideração pela sensibilidade de milhares de milhões de pessoas em todo o mundo que, nesta semana, voltam o olhar para Jerusalém”.

A decisão gerou reações políticas a nível internacional. Em Portugal, o Presidente da República, António José Seguro, condenou a “situação sem precedentes em séculos recentes” de o Patriarca Latino de Jerusalém ter sido impedido de celebrar a missa de Domingo de Ramos no Santo Sepulcro.

Numa nota no site da Presidência, salienta que se trata “de um facto que atinge a comunidade cristã local e também o princípio universal da liberdade religiosa, pilar essencial das sociedades democráticas e consagrado no direito internacional”. “A livre prática do culto, em particular em locais de significado histórico e espiritual ímpar, deve ser assegurada e respeitada por todas as autoridades, em qualquer circunstância. O Presidente da República manifesta a sua firme reprovação por este impedimento, que considera injustificado e contrário aos compromissos internacionais de proteção da liberdade religiosa”, lê-se ainda.

António José Seguro garante que Portugal está a acompanhar a situação em Jerusalém e enquanto Presidente, “sublinha a importância do diálogo, da contenção e do respeito mútuo, como caminhos indispensáveis para a paz, a estabilidade e a dignidade humana na região”. Também o Governo português reagiu, sublinhando que “exorta-se as autoridades israelitas a garantirem e praticarem a liberdade de religião e de culto”.

Também os Estados Unidos reagiram. O embaixador norte-americano em Israel, Mike Huckabee, considerou um “lamentável abuso de poder” a decisão das autoridades israelitas. Apesar de reconhecer a necessidade de regras de segurança, afirmou ser “difícil compreender ou justificar que se impeça o patriarca de entrar na igreja no Domingo de Ramos para uma cerimónia privada”, sublinhando ainda que a situação “constitui um lamentável abuso de poder que já está a ter importantes repercussões a nível mundial”. A Jordânia também rejeitou o ocorrido, que classificou como “uma violação flagrante do direito internacional, do direito internacional humanitário (…) e uma violação da liberdade de acesso irrestrito aos locais de culto”. De França, as críticas vieram de Macron. “Condeno esta decisão da polícia israelita, que se soma ao preocupante aumento das violações do estatuto dos lugares santos em Jerusalém”.

Do lado italiano, a primeira-ministra Giorgia Meloni considerou o incidente “uma ofensa não só aos fiéis, mas a qualquer comunidade que respeite a liberdade religiosa”. Já o ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, António Tajani, anunciou: “Dei instruções para convocar o Embaixador de Israel ao Ministério dos Negócios Estrangeiros amanhã, a fim de obter esclarecimentos sobre a decisão de impedir o Cardeal Pizzaballa de celebrar o Domingo de Ramos.”

Netanyahu diz que decisão não tem “intenção maliciosa” e se prende apenas com “segurança”

Perante a onda de críticas, o gabinete do primeiro-ministro israelita reagiu, garantindo que não houve qualquer intenção deliberada. Segundo o executivo, foi pedida a “suspensão temporária” das celebrações religiosas para proteção face a ameaças externas. “Nos últimos dias, o Irão tem tentado atacar os locais de culto das três religiões monoteístas em Jerusalém com mísseis balísticos”, refere a mesma nota.

O gabinete de Benjamin Netanyahu assegura ainda que “não houve qualquer intenção maliciosa, apenas preocupação com a segurança e a do seu grupo”, acrescentando que está a ser preparado um plano para permitir a realização de celebrações nos próximos dias.

Já o Presidente de Israel “lamentou” o cancelamento das celebrações do Domingo da Ramos em Jerusalém, mas garante que explicou ao Patriarca Latino Pietro Pizzaballa que “o incidente teve origem em preocupações de segurança decorrentes da ameaça constante de ataques com mísseis por parte do regime terrorista iraniano contra a população civil em Israel”. Numa publicação na rede social X, Isaac Herzog assegura ter reafirmado o “compromisso inabalável de preservar a liberdade religiosa para todas as fés e a manutenção do status quo em todos os locais de culto” da capital israelita.

Por sua vez, o Patriarca Latino de Jerusalém, cardeal Pierbattista Pizzaballa, afirmou que pretende aproveitar o impedimento de que foi alvo de celebrar missa no Santo Sepulcro para que se preserve o direito à oração, “respeitando a segurança de todos”. “É verdade que a polícia tinha dito que as ordens do comando interno impediam qualquer tipo de reunião em locais sem abrigo, mas não tínhamos solicitado nada público, apenas uma breve e pequena cerimónia privada para preservar a ideia da celebração no Santo Sepulcro”, explicou em declarações transmitidas pela emissora italiana TV2000.

O cardeal também quis deixar claro que o incidente ocorreu “sem confrontos” e que foi tratado de forma educada. “Não houve confrontos, tudo decorreu de forma muito cortês”, acrescentou.