As paixões podem ser à primeira vista. Podem vir acompanhadas de borboletas na barriga. Antes de surgirem, podem suscitar uma raiva teimosa que nos leva a pegar com “aquela pessoa” e só com ela. Podem ser um flash que nos dê a entender que, afinal, a alma gémea existe. Podem virar-nos do avesso e levar-nos a concluir que acabámos de descobrir a melhor parte de nós. E podem ser mais ou menos misteriosas e serenas e, devagarinho, acabar por ser uma revelação que nos traz até à beleza e surpreende.
Há quem diga que as paixões têm o prazo de validade dos antibióticos. Há quem afiance que elas são um fogo que se apaga mal se acende. Mas há, também, quem descubra que o amor é uma paixão que arde eternamente.
Mas há, ainda, quem se entusiasme unicamente com a forma como a paixão nasce para esmorecer, logo em seguida. Há, também, os sedutores compulsivos que são uma espécie de “profissionais no nicho de mercado da paixão”. Há os gabirus, para quem a paixão se reúne à lábia e pouco mais. E os que se apaixonam “em português suave”, por mais que isso os irrite, porque imaginam qualquer sentimento como uma minudência que só os atrapalha. E aqueles que são contra as paixões porque entendem que elas trazem razões que a razão não admite e sem isso se passa bem. E, depois, há este novo formato, muito em voga, que se opõe a uma relação que se constrói (relationship), a que se vai chamando situationship. Isto é, uma pessoa constrói momentos nas vizinhanças duma paixão. Tudo com vibe. Tudo muito informal. Habitualmente, com um quanto baste de sexualidade. Não fala de si. Não procura conhecer a pessoa com a qual se envolveu para lá duma superficialidade conveniente. Partilha um concerto. Fala de música ou dum livro. Bebe um copo de vez em quando (“na minha casa ou na tua?”). Prepara uma date, de tempos a tempos. E, eis senão quando, ghosting, que se faz tarde. Porque o trabalho, a família, o ginásio, os amigos e a agenda (sobretudo a agenda…) engolem o tempo todo.
É claro que há relações onde, para as duas pessoas, a situationship faz sentido. Mas, na maioria das vezes, um dos partenaires é apanhado de surpresa e vai do encantamento acidental ao choque e à perplexidade. Ou à confusão e à decepção. A um “se calhar, percebi mal”. Ou à insistência numa relação que esbarra em silêncios, porque um rasgo de paixão não pode ter sido só um mal-entendido. Chegando à culpabilidade de se escolher sempre a paixão duma forma atamancada. Ou, como se fosse uma fatalidade: “jogo sempre para a lotaria e acerto, quando acerto, na terminação”. Já quando se protesta, o que se perfila na situationship acusa quem espera mais de si de “nagging“, como se qualquer observação que se faça seja um acto irritante, inoportuno, persistente, maçador, controlador e, até, chato. Como se a situationship exigisse silêncio, complacência, cumplicidade e zero de contraditório.
Situationship será uma espécie de intimidade com dia e hora marcados. Uma pitada de companheirismo. Intimidade sem compromisso. (Intimidade quanto baste, mais isso). Para quem, feitas as contas, será avesso à pressão e o compromisso lhe dá azar. Situationship será uma espécie de poliamor com decência e descrição. Se há quem tenha uma relação de anos e viva separado, talvez porque a proximidade de todos os dias e namorar e ter autonomia casem mal entre si, na situationship o formato da distância é mais vincado, ainda. Dois amores e duas cabanas; mais ou menos como isso. Ou duas casas e uma situação; talvez mais assim. O que faz com que a gestão da distância torne um relação mais “segura”. Não se partilhe o armário da roupa. Haja um cantinho para a escova de dentes. Mas sem espaço nem para o descartável nem para o reciclável em relação a uma pessoa, porque o silêncio é o maior aliado dos mal-entendidos. Para quem tem a sensação que uma relação com coordenadas esclarecidas tem o seu quê de claustrofóbico, a situationship representa um controle precioso contra a insegurança. E cria uma “liberdade” num formato híbrido, um pouco do género de “nem contigo, nem sem ti”. Sem ligações não há descuidos. Não há desilusões. Nem há desamparos. E antes duma pessoa se confiar ao amor desconfia-se dele.
A questão que se pode colocar, no final disto tudo, será: que versão é esta, tão em voga na geração Z, de viver as relações amorosas? Representará um grito de liberdade ou uma insegurança fundamental? Será um exercício de verdade ou uma omissão mal assumida? Será um piscar de olho ao amor ou uma solidão assistida?
E claro que isto de criar categorias com as gerações não será justo. E presumir que a geração as será toda assim sê-lo-á mais, ainda. Seja como for, aquilo que se sente na forma céptica com que alguns destes jovens falam do amor deixa-nos com a sensação que há situationships que prevêem que se coabite e se conviva. Que se partilhem áreas muito específicas da vida. E, até, um filho. Mas sempre com a sensação de que a paixão e o amor pela vida fora serão uma espécie de moda que já teve melhores dias. E que, agora, a vida se reparte entre relações de fim de semana, com carácter eventual ou atravessando o ano inteiro.
A impressão que dá é que, a ser assim, a geração Z parece boicotar-se a si própria para o amor. Por medo. Por insegurança. Por opacidade. Porque aspira a um controle sobre si e sobre os outros. Porque vive mais dependente de lugares comuns do que da sua fantástica capacidade para escolher e argumentar. Fugir a um compromisso e não criar expectativas; talvez seja essa a unidade de medida que procura. Ainda assim, amar pelo canto do olho dá que pensar. Pode alguém com medo do amor ter a ambição de vencer obstáculos e crescer assim para longe daquilo que conhece?