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(A) :: Os nove prémios do Congresso do PS. De Bárbara Tinoco ao regime chavista

Os nove prémios do Congresso do PS. De Bárbara Tinoco ao regime chavista

O Observador volta a distribuir prémios no Congresso do PS. Bárbara TInoco, o ex-líder Pedro Nuno e o regime chavista são alguns dos protagonistas destas distinções.

Inês André Figueiredo
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Rita Tavares
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Rui Pedro Antunes
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Há quem seja premiado pela bizarria da propostas, quem seja por não esquecer o amigo ex-líder e até quem mereça a distinção por elogiar o PSD. Também há quem tenha falhado a entrega de uma lista por 244 assinaturas e quem não saiba bem o órgão para o qual encabeçou uma lista. O Observador atribui nove prémio no 25º Congresso do PS.

Prémio Maduro

Álvaro Beleza e Paulo Pisco subiram ao palco a defender a ida de José Luís Carneiro à Venezuela, alegando que foi uma viagem de sucesso e apenas para a apoiar a comunidade luso-venezuelana. Ao contrário de Assis, que foi muito crítico da viagem, Beleza disse mesmo que, para a próxima, estava disponível para ir com o secretário-geral dar um “abraço fraterno” aos luso-venezuelanos.

Prémio Tecmacal

Quase vinte e quatro horas depois de o Congresso ter começado surgiu a primeira (e única) voz a lembrar, no palco, um passado bem recente, mas que o PS parece disponível para esquecer: a liderança de Pedro Nuno Santos. Afinal, é mais difícil encontrar uma memória doce para os socialistas nesse período do que noutras eras – mesmo que entre essas esteja uma que tenha acabado na prisão de Évora. Foi um dos antigos membros da direção de Pedro Nuno, o deputado Pedro Vaz, que subiu à tribuna para fazer essa justiça e dizer ao ex-líder, que não esteve no Congresso: “Quero que saibas que esta é a tua casa. Sempre foi e continuará a ser.” Não suscitou grande aplauso, a memória passou e Pedro Nuno continua ocupado com a sua atividade profissional na Tecmacal, a empresa do pai – sem se saber ainda se quer reassumir o mandato de deputado na Assembleia da República, embora a decisão tenha de aparecer dentro de poucos dias (até ao início de abril).

Prémio Área 51

A moção podia defender que o Elvis está vivo ou a tese dos chemtrails, mas é sobre uma outra teoria da conspiração igualmente criativa: as secretas portuguesas trocam bebés nas maternidades apenas por crueldade fazendo com que os recém-nascidos sejam separados à nascença dos seus pais biológicos. Já foi a segunda vez que Luís Pedro Gonçalves teve assinaturas suficientes para que a moção fosse aceite por um Congresso do PS. A discussão e votação será apenas na Comissão Nacional, mas fica com o prémio de moção mais bizarra – que parece feita por alguém que vive noutro mundo.

Prémio RG7

Vinte e poucos minutos depois de chegar ao fim o prazo para entregar as listas à Comissão Nacional do PS, Carlos César anunciou que uma delas não tinha sido aceite porque tinha… sete nomes em vez dos 250 necessários. Um dos críticos apressou-se a saltar para cima do palco para explicar que a informação estava incorreta e o presidente do partido garantiu que não lhe tinha chegado qualquer informação sobre problemas com um print. Nos corredores correram duas versões trágico-cómicas: um problema com a impressora que só permitiu imprimir uma das folhas e os documentos que caíram escadas abaixo. Ainda houve uma impugnação, mas a lista nem chegou a ir a votos. E Ricardo Gonçalves já não se livra de ser o protagonista da história inusitada.

Prémio Sá Carneiro

Francisco Assis até criticou o PSD pela forma como está a tratar o PS no caso dos juízes do Tribunal Constitucional, mas fez uma crítica interna pouco habitual. O eurodeputado, que sempre foi crítico da geringonça, fez questão de lembrar, a partir do púlpito, que no passado “o PS, talvez inebriado do exercício de poder, não tratou devidamente o PSD” e acrescentou mesmo: “Usámos de alguma sobranceria da relação com o PSD”. Já em entrevista ao Observador tinha minutos antes dinha dito: “Tenho noção que o PSD nem sempre foi tratado com a devida consideração no passado. E isso foi um erro”. Qualquer destas frases poderia ser dita por Hugo Soares.

Prémio “Vou ser mesmo eleita para quê?”

“Permitam-me que comece por um agradecimento e partilhar convosco a responsabilidade e algum nervosismo pele honra que José Luís Carneiro me dá ao convidar-me para encabeçar a lista da Comissão Política Nacional.” A frase foi dita por Inês de Medeiros em cima do púlpito e talvez se explique o erro com o assumido “nervosismo”. A presidente da Câmara Municipal de Almada foi escolhida por José Luís Carneiro, mas para encabeçar a lista à Comissão Nacional do PS. A Comissão Política Nacional não é eleita pelos delegados nem sequer na reunião magna. É um daqueles casos em que uma palavra muda tudo.

Prémio Dory

Sofia Pereira, líder da Juventude Socialista, subiu ao palco com um discurso motivador, para mostrar que um partido com a história do PS “não pode designar-se à gestão da estagnação e viver para a memória do que fez”. Para isso, enumerou figuras históricas do PS, entre elas praticamente todos os primeiros-ministros, para falar de grandes obras feitas e conquistas a nível nacional. Estranhamente, faltou um nome: José Sócrates. Também não se deve lembrar do Magalhães nos tempos da escola. É caso para prescrever Memofante.

Prémio Costa

O costismo não apareceu radiante com a atual liderança, já que duas antigas ministras desse tempo fizeram questão de trazer para o Congresso a defesa do legado dos últimos oitos anos de governação. Uma, Ana Catarina Mendes, levou a questão escrita numa moção setorial que entregou para ser discutida e outra, Mariana Vieira da Silva, foi ao palco fazer a defesa a viva voz. Foram ambas desses governos, no caso de Vieira da Silva esteve desde início e sempre como braço direito do então primeiro-ministro. Falou, por isso, com especial peso desse tempo que diz que, com tudo de bom e de mau que teve, “conta apenas como inspiração ou como aviso à correção” e que não deve ser olhado “com nostalgia”, mas “ainda menos com arrependimento”. E pediu mesmo ao partido que combate a narrativa da direita, a que chama de “reescrever a história” desses oito anos. Mais costista do que Costa que, a partir da presidência do Conselho Europeu, tem parecido pouco dedicado à saudade.

Prémio ‘Chamada não atendida’

O PS contratou Bárbara Tinoco para um concerto no final do primeiro dia de trabalhos do XXV Congresso do PS. O concerto transformou-se numa atuação intimista tendo em conta a debandada de congressistas que estavam mais esfomeados do que expectantes em conhecer a jovem artista portuguesa que conquista mais os ouvidos de crianças e adolescentes — o que ficou bem claro nos minutos em que esteve a cantar. O repasto não lhes permitiu ouvir o sucesso “Chamada não atendida”. É pena, já que a música para o ex-namorado mais parecia um final de namoro entre Carneiro e Montenegro em plena reunião magna. “Sei que estabelecemos regras e eu já não faço parte dos teus contactos emergência”; “Acabou tudo tão triste” ou “Eu devo ser masoquista, p’ros amigos pessimista, mais uma na tua lista” são apenas alguns exemplos de uma relação falhada. Carneiro bem tentou enviar cartas a Montenegro, mas ficou a falar sozinho. Talvez Bárbara e José tenham mais em comum do que parecia quando o concerto foi anunciado.