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(A) :: O cheiro a amoníaco, a delegada que também sentiu, uma alegada agressão no aquecimento: o que se passou no Dragão Arena

O cheiro a amoníaco, a delegada que também sentiu, uma alegada agressão no aquecimento: o que se passou no Dragão Arena

Sporting critica ações repugnantes e pede reunião com ministra, FC Porto fala em acusações inadmissíveis – e num empurrão de Martim Costa a um adepto. Delegada também foi afetada no balneário leonino.

Bruno Roseiro
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Aquilo que deveria ser apenas mais um clássico no Campeonato de andebol, neste caso o primeiro a abrir a fase final da prova depois de uma paragem em todas as competições, foi tudo menos isso. Aliás, no final, a parte de resultado acabou por ser quase um cenário secundário, apesar do triunfo do Sporting que, após 22 vitórias consecutivas na primeira fase, deu um passo de gigante para o tricampeonato com uma nova vitória no Dragão Arena frente ao FC Porto por 33-30 (que conferiu quatro pontos de avanço em relação ao Benfica e cinco para os azuis e brancos). Antes, houve de tudo um pouco. Depois, tem havido tanto mais.

https://observador.pt/2026/03/28/cheiro-no-balneario-leva-treinador-e-jogador-do-sporting-ao-hospital-antes-do-classico-de-andebol-fc-porto-desmente-tudo/

Puxando o filme atrás. O clássico estava marcado para as 18h deste sábado e o Sporting chegou ao Dragão Arena com a habitual diferença horária de cerca de uma hora e meia face ao arranque da partida. Aí, depois de entrar no balneário número 4 do recinto destinado a equipas visitantes, os leões foram confrontados com aquilo que descreveram de “cheiro intenso” a uma solução com amoníaco, com o jogador Christian Moga e o treinador principal Ricardo Costa a sentirem mais o efeito do odor, com dores de cabeça, garganta arranhada e a sensação de perda de força que fez com que tivessem de ser assistidos – inicialmente iriam seguir para o hospital mas, perante a presença do médico destacado para o recinto no local, acabaram por ser assistidos na ambulância que estava no Dragão Arena, ficando ainda assim de fora do clássico.

De acordo com informações entretanto recolhidas pelo Observador, houve mais elementos da comitiva verde e branca, incluindo jogadores, que se sentiram mal, o que fez com que os responsáveis do Sporting pedissem o adiamento do encontro perante as circunstâncias. No entanto, e apesar de terem confirmado inicialmente esse cheiro no balneário 4, os dois delegados da Federação Portuguesa de Andebol nomeados para o clássico, Carlos Oliveira e Rosa Pontes, consideraram que havia condições para a realização do jogo, tendo em conta que os portistas disponibilizaram um novo balneário e que o próprio balneário 4 já não tinha o mesmo cheiro passados 15 minutos. Com isso, os leões, com alguns jogadores a preferirem equipar-se nos corredores em vez de irem para balneários, acabaram por entrar em campo mas sob protesto no Relatório.

https://twitter.com/SportingAdep06/status/2037956128139587703

“Estava um cheiro muito intenso que me provocou ardor e deixou os olhos vermelhos, além de um pingo no nariz. Também sou alérgica a amoníaco. Fui alertada de que estava com uma má cara”, confirmou Rosa Pontes em declarações ao jornal A Bola. A delegada foi depois aos bombeiros para ser examinada, tendo a tensão “muito alta”. “É importante dizer que 15 minutos depois, quando fomos lá a segunda vez, já não se sentia aquele cheiro. E o FC Porto atribuiu depois um outro balneário ao Sporting, o balneário número 3, que nós confirmámos estar em condições para receber os jogadores”, acrescentou a dirigente ao mesmo jornal, justificando assim as condições para que o encontro se realizasse no sábado com um atraso de 15 minutos.

https://twitter.com/TalkingSporting/status/2037961344561893732

Ainda durante o aquecimento, nova polémica, neste caso com acusações do FC Porto. Numa fase em que os adeptos leoninos ainda não estariam na sua maioria no recinto, os dragões alegam que Martim Costa, lateral internacional português que passou pelos azuis e brancos, terá agredido um adepto da equipa da casa – não se sabendo se houve algum tipo de participação junto da Federação Portuguesa de Andebol, que já abriu um processo de inquérito para apurar tudo o que se passou antes do jogo no Dragão Arena nos balneários.

“Sem prejuízo do que foi a inspeção feita ao local é lamentável todo o ruído que se gerou do assunto sem qualquer tipo de fundamento e é cansativo assistir a este tipo de episódios e passar ao lado da agressão de Martim Costa a um adepto do FC Porto, que será devidamente identificado. Já no jogo anterior um elemento da comitiva do Sporting apresentou uma conduta de indícios fortes que se podem enquadrar na violência no desporto”, comentou Mário Santos, diretor das modalidades do FC Porto, recordando o episódio de Ricardo Costa no jogo anterior onde terá atirado uma garrafa de água contra adeptos portistas.

https://twitter.com/DragaoNews1893/status/2038015023541330044

“É tudo demasiado evidente. Há imagens que provam que ele se dirigiu a um adepto e o terá empurrado durante a fase de aquecimento. Entrou pela bancada dentro e empurrou um adepto. Estamos no âmbito de eventos desportivos. Existe um enquadramento legal para que essas coisas não aconteçam e, havendo indícios, os agentes responsáveis têm de instaurar os devidos processos. Estiveram agentes da Federação presentes e isto é algo que não tem a ver com o jogo. O jogador ir à bancada empurrar um adepto, no meu entender, é uma situação muito grave, além de que uma equipa chegar aqui e alegar que lhe envenenaram o balneário, e que estão todos a precisar de ir ao hospital e que dois tiveram de ser assistidos, também não me parece que seja uma atitude muito correta. O FC Porto recebeu o Sporting com toda a dignidade e dentro das regras para uma competição justa, nobre e leal. Não queremos ganhar fora, nem alinhar em teatros”, acrescentou o mesmo responsável dos azuis e brancos sobre esse alegado episódio.

“O FC Porto vem, por este meio, desmentir de forma absoluta, clara e inequívoca os relatos tornados públicos relativamente a incidentes alegadamente ocorridos no balneário visitante do Dragão Arena, antes do jogo com o Sporting para o Campeonato, associados a supostos ‘odores intensos’. Tais insinuações são graves, abusivas e totalmente destituídas de qualquer fundamento. Perante a seriedade das alegações veiculadas, o FC Porto contactou de imediato a Federação de Andebol de Portugal, a quem negou categoricamente os factos em causa. O FC Porto contactou igualmente a Polícia de Segurança Pública, no sentido de que também essa entidade possa verificar imediatamente e em primeira mão que não existem quaisquer condições anómalas no balneário visitante do Dragão Arena”, frisou o FC Porto em comunicado.

https://twitter.com/FCPorto/status/2037969223117308035

“Adicionalmente, e mediante autorização da Federação o FC Porto manifesta desde já total disponibilidade para que órgãos de comunicação social devidamente acreditados possam aceder às instalações, permitindo uma verificação direta e independente das condições existentes. O FC Porto repudia, de forma firme, qualquer tentativa de associação do seu nome, das suas infraestruturas ou dos seus profissionais a situações que não correspondem à realidade. Trata-se de uma acusação inadmissível, que atinge a reputação de uma instituição. Relativamente às aparentes indisposições de elementos do Sporting, cumpre apenas referir que os meios de emergência foram prontamente acionados, tendo sido prestado todo o apoio necessário, com profissionalismo e responsabilidade. O FC Porto é uma instituição centenária, com um percurso e uma reputação amplamente reconhecidos, e exige que a sua atuação seja avaliada com rigor, responsabilidade e respeito. O FC Porto não se revê nem se envolve em este tipo de situações”, acrescentou.

Ao longo de 60 minutos, e apesar de ser um encontro entre duas das melhores equipas nacionais, os ânimos estiveram bem menos exaltados, até pela ligação que muitos jogadores têm entre si por representarem não só a Seleção Nacional mas também outros conjuntos. A vitória do Sporting fez quase um xeque mate ao título mas os jogadores leoninos não se esqueceram do que aconteceu antes, reagindo nas suas redes sociais ao sucedido. “Esta é para vocês”, destacou Kiko Costa, filho de Ricardo Costa que dedicou o triunfo ao técnico e ao companheiro Christian Moga, depois de ter sido o segundo melhor marcador com oito golos.

“Num jogo em que se fala muito mais do que se passou fora de campo, lá dentro a história é de carácter e união, a história é verde e branca. Há situações que não merecem comentários, há situações que a bem ou a mal nos tornarão mais fortes. As respostas, como sempre, são dadas dentro das quatro linhas. É só nisso que nos focamos, naquilo que podemos controlar. A expressão ‘onde vai um vão todos’ citada inúmeras vezes no ambiente sportinguista, ontem [sábado], teve o seu sentido literário. Estivesse quem estivesse lá dentro, sem o Moga, sem o Ricardo e ainda sem o Natán [central espanhol que está de fora por lesão], a força deles foi sentida. Um obrigado a todos os que se deslocaram ao Dragão Arena, para (mais uma vez) nos apoiarem durante os 60 minutos. Quinta feira há mais uma luta, em nossa casa!”, escreveu o internacional e capitão Salvador Salvador, projetando já o jogo da Liga dos Campeões com o Wisla Plock.

https://twitter.com/SCPModalidades/status/2038214184291139767

Outra reação que não demorou a ganhar dimensão foi a de Ricardo Andorinho, antigo ponta esquerdo do Sporting e da Seleção com passagem por Espanha que foi também vice-presidente da Federação Portuguesa de Andebol. “Em 1999, tomei uma decisão que sempre me acompanhou: dentro da minha cabeça, nunca jogaria em outro clube português que não fosse o Sporting. Essa escolha não foi apenas clubística. Foi uma escolha de valores. O Sporting ensinou-me que o desporto se constrói com esforço, dedicação, respeito e identidade. Foi isso que aprendi com uma instituição fundada por atletas como Francisco Stromp – gente que sabia servir o desporto com verdade e com cultura desportiva”, começou por dizer.

“O que tenho visto acontecer, demasiadas vezes, no Porto e no Benfica sempre me pareceu demasiado mau para ser verdade. E, sinceramente, está na altura de dizer basta. O Sporting é o que é porque carrega uma cultura desportiva sólida, feita de princípios. E talvez seja isso que mais falta faz a outros clubes: não apenas ganhar, mas saber representar o desporto com dignidade. Na minha opinião, nem sequer deveria ter havido jogo. Há momentos em que o desporto precisa de parar – parar uma ou duas jornadas – para percebermos, a sério, o que é que queremos dele. Porque sem tempo para pensar, continuamos presos à máquina infernal da violência, que procura outras formas de afirmação que não a desportiva. Está na hora de exigir consequências. Reais. Diretas. Sem medo”, acrescentou o antigo jogador da Seleção Nacional.

Por fim, já este domingo, também o Sporting tomou uma posição oficial. “O Sporting considera repugnantes as sucessivas ações que o FC Porto tem vindo a protagonizar nos últimos tempos e vai solicitar, com caráter de urgência, uma reunião com a Ministra da Cultura, Juventude e Desporto. Não é possível continuar a assistir a esta sucessão vergonhosa, reiterada e deliberada de comportamentos sem que daí advenham consequências imediatas e exemplares. O Sporting considera imperativo que as instituições com responsabilidade na tutela do desporto sejam promotoras da verdade desportiva, não sendo admissível que comportamentos desta natureza – reiteradamente protagonizados pelos mesmos intervenientes – envergonhem e coloquem em causa a imagem do desporto português no plano internacional”, anunciou.

https://observador.pt/2026/03/29/sporting-quer-reuniao-com-o-governo-face-a-acoes-repugnantes-do-fc-porto/

“Nesse sentido, é essencial que quem regula o desporto em Portugal assuma uma posição firme e implacável e puna, com toda a severidade, estes comportamentos indignos, que já ultrapassam os limites do admissível num Estado de direito. Se ainda subsistia alguma ilusão ingénua de que as práticas obscuras do passado tinham sido erradicadas, a realidade encarregou-se de a destruir de forma brutal e inequívoca. O que hoje se verifica não é apenas uma repetição: é uma escalada refinada. Mais vil, mais rasteira e ainda mais inqualificável do que os episódios mais negros que mancharam o desporto”, acusaram os leões.

“Estes episódios não são isolados nem acidentais. Revelam um padrão continuado, consciente e sistemático de desrespeito, provocação e tentativa de condicionamento que não pode, nem será ignorado: a situação no balneário do árbitro Fábio Veríssimo, onde foram exibidas imagens de decisões suas numa tentativa clara de condicionamento e pressão, apanha bolas que ocultam deliberadamente bolas e cones e os escondem atrás de painéis publicitários ou o roubo de toalhas ao guarda-redes do Sporting. Até ao momento, não houve qualquer sinal de arrependimento nem tentativa de explicação ou assunção de responsabilidades por parte dos envolvidos. O mais recente capítulo deste encadeamento de episódios atinge um nível que ultrapassa todos os limites: um balneário com cheiro tóxico e intenso que afetou o estado físico de jogadores e staff da equipa de andebol. Isto não é apenas lamentável, é criminoso”, prosseguiu.

https://twitter.com/SportingCP/status/2038271764938055925

“Perante esta situação, o Sporting manifestou a sua oposição à realização do encontro, tendo em conta que a equipa se encontrava privada do treinador e de um dos seus jogadores. Ainda assim, foi formalmente informado de que estavam reunidas as condições necessárias para que o jogo se realizasse, motivo pelo qual se viu forçado a entrar em campo, tendo-o feito sob protesto. O Sporting considera que estes comportamentos desvirtuam de forma significativa a verdade. Trata-se da subversão absoluta dos valores que devem reger qualquer prática desportiva, protagonizada de forma consciente, reiterada e sistemática pelos mesmos intervenientes de sempre”, concluiu o comunicado do Sporting emitido este domingo.