Os vencedores
José Luís Carneiro

Foi eleito por uma votação quase norte-coreana e teve este fim de semana o seu congresso de entronização. As críticas que se registaram nos dias anteriores ficaram à porta da reunião magna socialista e ninguém o desafiou ou questionou séria e abertamente. Objetivamente, não há forma de dizer que José Luís Carneiro não é o vencedor deste congresso. Tal como é impossível não notar que teve a sua festa de consagração praticamente às moscas, que continua sem conseguir levantar uma pulga e lidera um partido que não pode com uma gata pelo rabo. Como bónus, ainda se embrulhou num inexplicável psicodrama orçamental, com ameaças de crise política à mistura, de onde não há uma saída evidente e feliz para o PS. Fica a sensação de que ganhou por falta de comparência dos adversários e que o relógio já começou a contar para Carneiro. A ver se consegue enganar a sorte.
Carlos César

Carlos César continua a impor-se como uma espécie de guardião do templo. É ele que tem a chave do cofre e, ao mesmo tempo, a voz mais autorizada para dizer o que está dentro e fora da gaveta onde Mário Soares colocou o socialismo. Aproveitou-o para tentar reposicionar o PS na matriz ideológica, avisando que já não basta forçar o binómio esquerda-direita. A eleição como presidente do partido, que tem sido comum aos últimos três líderes (António Costa, Pedro Nuno Santos e José Luís Carneiro), coloca-o acima das disputas internas – das quais se vai mantendo cínica e confortavelmente afastado. A reeleição por cerca de 90% dos delegados, embora com uma percentagem ligeiramente inferior a 2024, mostra que é consensual para o cargo que ocupa no partido.
Miguel Costa Matos

Sem Duarte Cordeiro no Congresso, foi Miguel Costa Matos a protagonizar a corrente mais desalinhada com uma moção setorial que desafiou o líder a largar os ‘nins’ e a sair de cima de muro (subscrita por ex-predronunistas/‘cordeiristas’ e não só). Pedro Costa, outro dinamizador da mesma, deu-lhe o palco. A moção não só representa uma nova geração de “jovens turcos”, como prepara caminho para o futuro para a geração intermédia (onde está Duarte Cordeiro). Não havendo um claro e identificado opositor a José Luís Carneiro no congresso, Costa Matos acabou por ser o rosto dessa oposição hibernada.
António José Seguro

Depois de anos a ser esquecido e até ostracizado pelo seu partido, António José Seguro foi lembrado como uma espécie de herói eleitoral que travou a extrema-direita. Os 3,5 milhões de votos que o antigo secretário-geral do PS teve nas Presidenciais até serviram para José Luís Carneiro demonstrar que o centro moderado é maioritário e que é possível um socialista conquistá-lo. É verdade que, quando o líder saudou o novo Presidente no encerramento do Congresso, o aplauso não foi apoteótico (apesar de ter sido simpático), mas foi impossível às principais figuras ignorarem a vitória de Seguro. Além disso, muitos contam com ele para garantir, com o seu magistério de influência, que o PS não é excluído do arco constitucional.
Os vencidos
Ricardo Gonçalves

Ricardo Gonçalves é um inconformado e tem a audácia de estar quase sempre contra a linha oficial. Apoiou José Luís Carneiro quando este perdeu contra Pedro Nuno Santos. Agora que Carneiro é líder, não deixou de o apoiar, mas fez uma lista de delegados alternativa ao Congresso e juntou um grupo de pessoas de várias zonas do país que se pronunciaram contra o facto deste ser um mini-Congresso, com menos delegados, o que amputa a pluralidade interna. Chegado ao Congresso tudo fez para apresentar uma lista alternativa à Comissão Nacional, mas quando chegou o prazo a impressora encravou e só conseguiu entregar a primeira folha (que tinha sete nomes) à Mesa. César, já escaldado com Gonçalves, foi implacável e não aceitou a lista, mesmo com Ricardo Gonçalves a alegar que tinha mais nomes do que os necessários. Fica a lição aprendida para daqui a dois anos. Como dizia Lacão: as alternativas preparam-se com tempo.
Pedro Nuno Santos

Era o messias do PS. A grande esperança de uma geração de militantes socialistas. O menino prodígio. O jovem turco que não deixava ninguém indiferente. Sucedeu a António Costa, foi a votos duas vezes e por duas vezes perdeu com estrondo. Saiu pela porta pequena, deixando um minimal mas fiel grupo de indefectíveis. Em três dias de congresso, só um orador — Pedro Vaz, ex-dirigente e um dos mais próximos — o lembrou, agradecendo-lhe os anos que dedicou ao partido e dizendo que o PS era e será sempre a casa dele. Apesar dos insucessos eleitorais e dos erros que cometeu, Pedro Nuno Santos merecia mais. Mas se alimenta expectativas de voltar à política — e com Pedro Nuno nunca se sabe — a ingratidão com que foi tratado e o esquecimento a que foi votado neste congresso não augura nada de bom.
António Costa

Se o PS está na posição em que se encontra hoje, muito o deve a António Costa, à forma como governou o país e como desbaratou uma maioria absoluta em dois anos. Ainda assim, e mesmo depois da queda, uma generosa fatia do partido continuou a defender com unhas e dentes tudo o que foi feito nesses oito anos, sem qualquer capacidade de fazer uma reflexão crítica sobre o que correu bem e menos bem. O tempo passou, Costa conseguiu a sua cadeira de sonho, o PS ficou em cacos e os que ficaram para trás estão agora a tentar recolhê-los. Em Viseu, Ana Catarina Mendes e Mariana Vieira da Silva foram as únicas a fazer a clara defesa do seu legado. O PS, o mesmo que agora suspira por Seguro, virou a página do costismo.
Os ausentes
Duarte Cordeiro

Já pouca gente disfarça e o próprio não o enjeita. A oposição interna a José Luís Carneiro — ou, simplesmente, os mais desencantados com o atual líder socialista — estão a olhar para Duarte Cordeiro como o senhor que se segue. O ex-ministro e antigo vice-presidente da Câmara de Lisboa não apareceu no Congresso — por indisponibilidade de agenda — mas conseguiu, numa curta intervenção no canal Now antes da reunião magna do PS, demonstrar mais clareza de espírito e juízo do que muitos dos seus camaradas que se deslocaram até Viseu. O caminho faz-se caminhando e, ao que parece, Duarte Cordeiro já se fez ao caminho. Cordeiro é a sombra de Carneiro.
Fernando Medina

Fernando Medina é outro que faltou à chamada, ficando sujeito durante o Congresso a ouvir de apoiantes de Carneiro (e também de Carlos César) que o espaço por excelência do debate interno é o Congresso. O ex-ministro das Finanças – que até ouviu do sofá Carneiro a elogiar as boas contas públicas que o PS deixou em 2023 – prefere falar do futuro do PS e discordar da liderança nos espaços de comentário que tem na televisão e na rádio do que perante os seus camaradas. São opções. Se são eficazes ou não, o tempo o dirá.