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Carneiro promete "oposição firme" mas "disponível para convergir" com Montenegro. O discurso nas entrelinhas

Carneiro reivindicou o legado de Costa, atacou o PSD com moderação e comprometeu-se com propostas para Justiça até maio. O congresso que pretendia definir o PS na oposição acabou no mesmo meio-termo.

Rita Tavares
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Somos um partido reformista. Digo mesmo que, se há um partido reformista em Portugal, ele é o PS”

Na política, “reformista” é, nestes curtos três meses de 2026, uma palavra marcante, graças ao antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho que com ela veio tentar acertar o passo de Luís Montenegro. Também pesa sobre o PS, com as críticas que a direita faz à falta de um ímpeto reformista durante a governação de António Costa. É, no fim de contas, ação que tanto o PS como o PSD fazem questão de reafirmar por estes dias e, no caso de José Luís Carneiro, logo no arranque da sua intervenção de encerramento do 25º Congresso do PS.

Com clareza o nosso papel como alternativa democrática e progressista. O PS é e continuará a ser a alternativa séria de governo em Portugal”

No discurso final, Carneiro parece ter tentado dar resposta a vários dos pontos que foram sendo deixados como preocupantes pelos socialistas ao longo do Congresso e também nos dias que antecederam a reunião. Definir o estilo do partido na oposição e sobretudo até onde deve virar as costas ao PSD era uma delas. Ao longo do Congresso, percebeu-se que a ideia de romper totalmente paira sobre Carneiro, mas há vários problemas que se colocam — e que foram recordados ao líder ao longo deste Congresso — que fazem com que ela se torne pouco recomendável para um partido que quer ser poder. Ao moderado Carneiro não deverá ter custado acomodar-se no canto da “alternativa séria” ao Governo: tentar marcar diferenças, ao mesmo tempo que está condenado a sentar-se à mesa para desbloquear a governação — e sobretudo evitar crises políticas (que nenhum socialista quer tão cedo). Pelo caminho, vai deixando a sua lista de propostas.

Habituámo-nos a ver os outros denegrir o que propomos, fazemos e concretizamos. E, depois, mais tarde, a seguirem-nos. É com tranquilidade que ouvimos hoje os detratores do que fizemos ontem.  Cá os esperamos amanhã a defender a bondade do que criticam hoje”

No Congresso duas influentes cabeças do costismo, Mariana Vieira da Silva e Ana Catarina Mendes, fizeram em palco (e também numa moção setorial da eurodeputada) a defesa do legado da governação dos últimos oito anos. Carneiro acabou por também levá-lo ao discurso final, para apontar aos “detratores” dessa memória que acusa de, depois, aproveitarem o que foi feito. Trouxe no bolso vários exemplos do que considera serem marcas dessa governação e onde incluiu o PRR, o “reequilíbrio das contas públicas” ou a lei de Programação no Investimento em Infraestruturas do Estado. O PS tem acusado o PSD de aproveitar o que foi feito, apontando frequentemente ao uso do excedente orçamental, por exemplo, para distribuir por determinados setores, com intenções eleitorais.

Há muitas diferenças entre o Governo que temos e a alternativa que somos”

A frase fez lembrar uma outra, em sentido contrário, que tinha sido ouvida durante as intervenções de sábado no palco do Congresso, a de Miguel Costa Matos. O deputado socialista que, com Pedro Costa, é autor de uma das moções mais faladas neste congresso, por ter apontado alguns reparos à linha de oposição seguida pelo líder. No seu discurso de sábado, Costa Matos avisou que “não basta esperar pelo desgaste do adversário” e  “oferecer uma versão ligeiramente diferente do que já existe” porque “as pessoas já não estão à procura disso.” No domingo, Carneiro fez questão de apontar algumas das “muitas diferenças” que diz existirem face ao PSD: a gestão de “curto prazo”, quando o PS “prepara o futuro”; o “improviso” quando o PS tem “estratégia”; a “capitulação perante quem quer dividir” e o trabalho do PS “para unir”. Mas ficou pela forma e não entrou pelo conteúdo de propostas diferenciadoras, que era o que os autores da moção mais pretendiam ver o líder clarificar.

Seremos uma oposição responsável e construtiva. Disponíveis para convergir com o Governo nas matérias essenciais ao interesse nacional”

Por duas vezes, na sua intervenção, Carneiro usa a palavra “disponível” em relação ao Governo; noutro momento, com o mesmo objetivo, disse que os socialistas “estão abertos” ao diálogo social; e houve um ainda em que falou em “convergências”. Luís Montenegro até viu Carneiro entrar para este Congresso com uma rutura em cima da mesa, mas viu-o sair apenas com alterações pouco sifnificativas ao comportamento na oposição. O líder do PS colocou o partido disponível para encontrar-se com o PSD “nas matérias essenciais ao interesse nacional” e até apontou duas de peso: saúde e reforma laboral. Disse claramente que o PS estará “disponível para para trabalhar nas propostas que permitam melhorar o acesso, a segurança, a previsibilidade e a qualidade do SNS”. E disse de forma igualmente explícita que estarão “abertos para melhorar a legislação laboral” com determinadas condições (ver mais abaixo). Isto além das matérias de soberania, política externa e defesa, onde prometeu “a busca de convergência com o Governo”, como  “forma de ser responsável” na oposição. Quanto ao motivo maior para tanto falatório sobre um corte com o PSD, os juízes do Tribunal Constitucional, nem uma palavra.

O Governo não está a trabalhar bem (…) Este governo precisa de uma oposição firme que o pressione a governar melhor. Nós somos essa oposição”

Mais um momento em que Carneiro falou para dentro do partido, onde se pede uma maior firmeza na oposição ao PSD. O líder socialista garantiu ser essa “oposição firme” e que “pressiona a governar melhor” — uma linha decalcada daquela que o presidente do partido clarificou, no sábado de manhã, que devia ser a seguida pelo PS, quando disse que o que “deve mover” o PS “é o bom Governo” e que não se deve “sentir diminuído, nem o líder se deve sentir, por procurar contribuir para isso”. Mas na intervenção final, em que continua a disponibilizar-se para entendimentos com o PSD, há um pormenor digno de nota, ainda a propósito deste posicionamento socialista: as críticas ao Governo são muito reduzidas. As mais audíveis surgiram quando Carneiro disse que a “insegurança” que os portugueses sentem “resulta de políticas que estão a falhar”, quando disse que as “medidas de apoio aos rendimentos e à natalidade são insuficientes para responder ao desafio demográfico e quando repetiu o que te dito do Governo na reforma laboral: “Estão do lado do passado”.

Respeitando o diálogo social em curso, estamos abertos para melhorar a legislação laboral que garanta empregos de qualidade, que enfrente os desafios das transições digital e verde, que enquadre as novas formas de trabalho, que garanta condições de trabalho mais seguras (…)”

É matéria onde o PS, nesta altura, não tem grande autonomia. A UGT, central sindical que lhe é próxima, continua à mesa das negociações com o Governo e o seu comprometimento com uma proposta final definirá a posição socialista. Carneiro disse, a este propósito, o que já se sabe: a proposta como apresentada pelo Governo inicialmente “merecerá a rejeição” do PS. Mas ainda deixarem aberto a expectativa de a proposta poder ser melhorada para se encontrar com o que o PS quer: “Menos precariedade, salários mais justos, igualdade salarial entre homens e mulheres, mais igualdade de género, acesso a melhor educação e formação ao longo da vida, sindicalização e negociação coletiva mais forte e dinâmica. Tudo ao contrário da linha do governo”, afirmou, embora ainda pareça manter a tal esperança.

Queremos uma Justiça que se faça a tempo e horas. Queremos uma Justiça que seja mais justa.

Até ao fim de maio, o PS apresentará a sua visão para a reforma, em concreto, do setor da Justiça”

O ponto da Justiça responde a duas preocupações socialistas: o estilo de oposição de mão estendida com o PSD, mas também a antiga sombra da justiça sobre o partido que tem um antigo líder e primeiro-ministro (sempre ignorado desde então) a ser julgado por corrupção, José Sócrates. É um peso que nunca passa e o PS continua a colocá-lo a cabeça das preocupações em matéria de Justiça — Carneiro até apresentou a intenção de propor um reforço imediato dos meios de combate. Além disso, no seu discurso, surge como o primeiro momento em que Carneiro vai abandonar a estratégia das cartas. Desde que é líder enviou várias ao primeiro-ministro, com propostas em diversas áreas, sempre sem resposta. Agora promete mudar a estratégia e apresentar a sua “visão”, tentando ganhar a dianteira da iniciativa política. O Governo acompanhará, ou não.

Somos hoje um partido de oposição, de oposição responsável. Não procuramos instabilidade política, mas não ficaremos em silêncio perante os erros do Governo”

O mais que pode fazer é mesmo usar a voz. Carneiro não procura uma crise política porque sabe bem o quanto ela costuma custar a quem a desencadeia e também sabe bem que não tem o partido em forma. A forma como desempenhar o papel de oposição contará alguma coisa para a decisão eleitoral, mas não tanto como a forma que levar o país novamente a votos. Está condenado a ir participando de forma “construtiva” e “propositivas”, sem poder rasgar.

Temos consciência do trabalho que nos espera (…) Vamos continuar a fazê-lo com a sociedade civil. Vamos continuar a fazê-lo com todas e com todos os socialistas e outros democratas que digam sim nesta fase de recomeço. E que se empenhem na jornada que culminará na vitória nas próximas eleições legislativas

Aqui volta a sublinhar que o trabalho de propostas passará a ser feito com a sociedade civil e que, se o Governo quiser, pode aproveitar algumas delas. Mas sobretudo o que José Luís Carneiro quis fazer nesta fase final do seu discurso de encerramento do Congresso foi dizer aos socialistas que é ele quem pretende ir a votos numas próximas legislativas. Problema: não é, ainda, neste Congresso que isso se define, já que o calendário define que exista um daqui a dois anos e as próximas legislativas ainda estão à distância de três anos e meio. É ao próximo Congresso que terá de o dizer, se lá chegar como líder.