Já não é uma questão de “se”, mas “quando”. A humanidade está mesmo a caminho da Lua novamente, mais de 50 anos depois da última missão lunar tripulada. Os quatro astronautas da missão Artemis II foram lançados para o Espaço esta quarta-feira e partiram para um local onde ninguém foi. O objetivo desta missão era explícito: testar os sistemas, o foguetão e a nave, para garantir uma alunagem sem problemas nos próximos dois anos. Mas, implicitamente, existe um outro objetivo que a NASA não refere nos planos de missão: chegar primeiro que a China.
O ano é 2026 e o grande “rival” dos Estados Unidos da América na exploração espacial já não é a União Soviética, a Rússia e a ROSCOSMOS. As palavras são do próprio administrador da NASA. Na conferência de imprensa de anúncio da futura base lunar norte-americana (com contributos internacionais), e apesar de nunca mencionar diretamente a agência espacial chinesa, Jared Isaacman deixou bem claro que o grande objetivo deste programa Artemis, acima da componente científica, é puramente geopolítico.
Aliás, o representante da NASA na Europa confirmou esta linha de pensamento ao Observador, numa entrevista no final de março — antes da descolagem da Artemis II. “A geopolítica tem desempenhado um papel importante no espaço desde o início, e a NASA foi fundada por razões geopolíticas. Chegámos à Lua primeiro por motivos geopolíticos, e só depois veio a Ciência. Houve muita coisa positiva que veio disso, foi muito benéfico para a humanidade em termos tecnológicos e de inspiração de desenvolvimento científico. Mas a geopolítica foi sempre a força motriz“, afirmou Gregory Mann.
A calendarização deste programa que irá culminar com os primeiros passos para a construção daquela base lunar sofreu várias alterações desde que foi inicialmente anunciada ao público. Em 2019, a administração norte-americana chegou a dar 2024 como o ano em que voltaríamos a pisar a Lua. Agora, o calendário marca a primeira metade de 2028 para este marco. O embaixador da agência espacial junto das várias outras agências europeias acredita que os objetivos da NASA foram “ziguezagueando” nos últimos anos, não só por uma questão de indecisão política, mas também por “falta” de financiamento.
“Começámos este novo grande esforço não só para acelerar o regresso dos astronautas [à Lua], mas para começar a estabelecer e construir infraestrutura e garantir que ficamos lá muito tempo. O que foi, claro, impulsionado pela decisão chinesa“, reforçou Gregory Mann. A China tem um objetivo muito concreto, que está definido já há alguns anos. A Menghzou será o equivalente à cápsula Orion, na missão Artemis II, mas será com o Lanyue — ainda em desenvolvimento — que a CSA (Agência Espacial Chinesa) planeia alunar até 2030.
Assim, os últimos anos de política espacial norte-americana têm sido motivados por uma nova corrida espacial. Lançaram os Acordos Artemis, em 2020, um tratado não vinculativo que propõe transparência, colaboração e uma visão comum para a exploração da Lua e de Marte. O acordo já conta com a assinatura de mais de 60 países, entre os quais as maiores agências do mundo (e Portugal) — à exceção, claro, da Rússia e da China, que têm o seu próprio acordo de cooperação espacial.
“A Lua é uma extensão geopolítica. Estamos a passar de uma diplomacia espacial global, onde a Estação Espacial Internacional era o único fator de consenso sem fronteira, para um novo enquadramento político, onde os Acordos Artemis e a contraparte do outro bloco são afirmações geopolíticas”, defende Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa, em declarações ao Observador, comparando os recentes esforços mundiais para chegar à superfície lunar com os dos portugueses na época dos Descobrimentos — só que, desta vez, não estamos na vanguarda da exploração. Primeiro, vem a geopolítica, e depois vêm os interesses científicos.

Os Acordos Artemis e a base lunar internacional. Quem é quem na nova corrida espacial?
Portugal não está em competição para ser a primeira potência mundial a chegar à Lua. Ainda assim, com a assinatura dos Acordos Artemis, alinhou-se ao “bloco geopolítico” terrestre para participar — direta ou indiretamente — na exploração espacial liderada pela NASA a nível da Lua e de Marte, no futuro. A adesão de Portugal a este tratado foi muito deliberada, como confessa ao Observador o responsável pela Agência Espacial Portuguesa.
“Havia na altura uma perspetiva de que isto representa, ao fim e ao cabo, um bloco geopolítico. Praticamente todos os nossos parceiros desse bloco geopolítico já tinham assinado. A bom rigor, éramos praticamente os únicos que não tínhamos assinado os Acordos Artemis”, refere Ricardo Conde. Assim, em janeiro de 2026, Portugal tornou-se o 60.º país a juntar-se a este bloco espacial e o penúltimo Estado-membro da Agência Espacial Europeia (ESA) a fazê-lo — falta apenas a Irlanda.
A primeira secção dos Acordos define que o documento visa “estabelecer uma visão comum através de um conjunto prático de princípios, orientações e melhores práticas, com vista a melhorar a governação da exploração e utilização civis do Espaço profundo, com o intuito de impulsionar o Programa Artemis”.
Neste momento, em abril de 2026, existem 61 países que leram e aceitaram os termos deste tratado. Entre os signatários estão algumas das maiores potenciais espaciais mundiais, como é o caso do Japão e da Índia que, individualmente, têm feito os seus esforços para também chegar à Lua.
O grande objetivo deste acordo é, no fundo, estabelecer uma estratégia comum para exploração espacial. “Há um sentimento real de que quem acabar por ser o primeiro a chegar desta vez vai definir, direta e indiretamente, grande parte das normas, das expectativas, da interoperabilidade, e as questões relacionadas com as comunicações e as frequências começarão a ser estabelecidas. E preferíamos que fosse a NASA e os Estados Unidos e os nossos parceiros com visões semelhantes nesta área”, indicou o representante da NASA na Europa, justificando novamente este novo “push” norte-americano para colonizar a Lua até ao final da década.
A ESA, de facto, teve um papel de grande relevo no lançamento do programa Artemis. Coube à Europa desenhar e produzir o módulo de serviço da cápsula Orion, ou seja, os 33 motores que agora guiam os quatro astronautas em torno da Lua foram fabricados e montados com mão de obra europeia. Mas esta participação ativa nas missões e assinatura dos acordos — por não serem vinculativos — já levou a questões de falta de transparência e comunicação entre os signatários.

No momento em que a NASA anunciava os planos para a base lunar, foi confirmada também a descontinuação da Lunar Gateway, o projeto para uma estação espacial que ficaria na órbita lunar a servir de apoio para as operações na superfície da Lua. Ricardo Conde explica que, apesar de já existirem compromissos e contratos de colaboração com agências espaciais europeias — a juntar-se ao facto de os Acordos Artemis exigirem transparência entre signatários —, esta “decisão foi tomada unilateralmente pela NASA“, o que pode afetar os “compromissos financeiros brutais nestes ciclos de desenvolvimento muito longos”.
“Os acordos Artemis, como são não vinculativos, são uma cooperação em torno de um bom espírito. Mas vamos ver o que é que sobra desse bom espírito afinal“, reflete o presidente da Agência Espacial Portuguesa.
Do outro lado da moeda — o outro “bloco geopolítico” — está a International Lunar Research Station (ILRS, na sua sigla em inglês). Este é um compromisso mais vinculativo que os Acordos Artemis, mas que define uma clara visão estratégica para a exploração da Lua. Esta ILRS será, como o nome indica, uma base lunar — seja ela à superfície ou em órbita —, mas como uma sede para a exploração aprofundada da Lua. O projeto foi fundado pela Rússia e pela China e anunciado em 2021, um ano após a criação dos Acordos Artemis.
Desde então, 11 países já se juntaram aos planos destas duas potências espaciais. Entre eles estão o Azerbaijão, a Bielorrússia, a Sérvia, o Cazaquistão, o Paquistão e a África do Sul e todos já se comprometeram com algum tipo de contribuição concreta para a futura base lunar internacional que ainda não tem um lançamento previsto, mas que Pequim e Moscovo prevêem instalar nos próximos 10 anos — tal como os “rivais” norte-americanos.
A geopolítica espacial obedece sempre às tendências terrestres? A colaboração espacial em tempos de guerra
Esta segunda versão da corrida espacial, tal como a primeira, foi lançada por motivos geopolíticos. Afinal, como afirmou Gregory Mann, o representante da NASA na Europa, o primeiro a chegar à Lua acaba por ter a opção de preferência de todo o território lunar para montar as suas instalações para a exploração do satélite. E uma vez que a agência espacial norte-americana está legalmente proibida de trabalhar em conjunto com a chinesa — devido à emenda Wolf, de 2011 —, os esforços para chegar e colonizar a Lua terão de ser feitos individualmente.
Na década de 1960, o panorama espacial, apesar de significativamente menos desenvolvido tecnologicamente quando comparado com a era atual, era muito semelhante. A União Soviética conseguiu colocar o primeiro homem no Espaço e Yuri Gagarin foi a primeira pessoa de sempre a ver a Terra de fora. O próximo objetivo era a Lua, com o intuito de, anos mais tarde, marcar uma presença permanente naquele local para continuar as operações de exploração espacial de forma mais ativa.
Foi com o lançamento do primeiro satélite soviético, o Sputnik, que a administração norte-americana decidiu estabelecer uma agência espacial civil que, no espaço de uma década, viria a colocar o primeiro homem na superfície da Lua, naquele que ficou assinalado como o ponto final naquela corrida espacial. “É engraçado, porque algumas pessoas dizem que, como já lá estivemos, que já ganhámos a corrida. ‘Porque é que estamos numa corrida outra vez? Já ganhámos’, perguntam. Mas já se passaram 57 anos e uma grande parte da população não estava viva naquela altura e não o viu acontecer — outros nem sequer acreditam que realmente aconteceu”, afirmou Gregory Mann em entrevista ao Observador.
Mas fechada a corrida espacial com a União Soviética, nasceu uma oportunidade de colaboração com a ROSCOSMOS, quando foi criada a Estação Espacial Internacional no início do milénio. No laboratório em órbita terrestre baixa, neste momento a cerca de 400 km de Terra, estão reunidos módulos exclusivos da NASA e da ROSCOSMOS, mas também da ESA e da JAXA (agência espacial japonesa). Mas ainda assim, todos os astronautas a bordo desta estação, independentemente do país que representam, são obrigados a trabalhar em conjunto.

Esta era a realidade em 2000, mas continua a ser o que acontece em 2026, apesar das evidentes tensões geopolíticas entre os Estados Unidos da América e da Europa com a Rússia. Gregory Mann sublinha que esta cooperação é o exemplo de que as relações internacionais espaciais diferem daquelas em Terra.
“[A relação entre a Rússia e os EUA] tem sido protegida e mantida fora das tensões geopolíticas exteriores de forma intencional, porque é benéfico para ambos e torna o ambiente no Espaço pacífico. É algo que temos mantido. O que vai acontecer a certa altura, seja em 2030, 2031 ou 2032, é que a própria Estação Espacial Internacional está a chegar ao fim da sua vida e não será reconduzida e a NASA quer tentar promover uma transição para um mercado comercial que, para nós, é o que faria mais sentido a longo curso”, destacou o representante da NASA.
A guerra na Ucrânia não mudou as colaborações entre russos e norte-americanos na órbita terrestre — ainda este ano, astronautas da NASA e da ROSCOSMOS viajaram juntos a bordo de uma aeronave da SpaceX e da Soyuz, tanto a partir dos EUA como de Baikonur. Mudou, no entanto, o regime que se vivia de cooperação entre a Rússia e a Agência Espacial Europeia.
“Tivemos de cancelar muitos programas espaciais. E não só”, revela o presidente da Agência Espacial Portuguesa. Durante décadas, a ESA tinha um acordo de lançamento com a ROSCOSMOS, onde os europeus podiam desenvolver os satélites e outros projetos científicos, mas que depois eram lançados por foguetões Soyuz a partir do porto espacial europeu em Kourou, na Guiana Francesa. Como conta ao Observador Ricardo Conde, antes de a guerra começar, a ESA decidiu descontinuar o foguetão Ariane 5 enquanto se preparava o seu sucessor, Ariane 6 — o maior foguetão europeu.
Neste período, o plano seria continuar a usar os foguetões Vega, mais pequenos, mas capazes de cumprir determinado tipo de missões, para depois substituir o quinto lançador da família Ariane pelos Soyuz enquanto se finalizavam os preparativos para a inauguração do Ariane 6. Com a guerra e o cessar da colaboração russa, a Europa procurou outros parceiros internacionais, mas teve de se render à indústria norte-americana, partindo dos EUA para lançar algumas missões, naquele período em que o Ariane 6 continuava em desenvolvimento.
“Algumas missões que eram para ser lançadas aquela altura tiveram que ficar em standby para procurarmos fornecedores europeus, mas não havia. A Europa é boa a reagir, mas [a guerra] teve implicações brutais”, admite o responsável pela Agência Espacial Portuguesa.

“O mundo já se tornou pequeno para tanta ambição”. Será necessário um Tratado de Tordesilhas para a Lua?
Numa altura em que a Europa caminha para a autonomia no acesso ao Espaço, a NASA anunciou que, a partir de 2030, as operações na Estação Espacial Internacional iriam ser descontinuadas e, como tal, a colaboração com a Rússia neste setor iria terminar. O foco dos norte-americanos será passar aquele espaço na órbita terrestre para o setor privado, enquanto a agência espacial se vai concentrar na futura colónia na superfície lunar.
Ricardo Conde prevê que, ao contrário do que acontece naquele posto de colaboração internacional a 400 km da Terra, o projeto da base lunar da NASA “não tem uma perspetiva muito inclusiva, mas sim muito territorial”. “O primeiro passo, na altura da construção, será montar uma vedação que vai definir o território deles, como se fosse o quintal de uma casa. Depois das cercas, vem o portão”, explica o presidente da Agência Espacial Portuguesa, que a partir do momento em que os EUA começarem a controlar a entrada naquela “propriedade privada” lunar, passa a ter-se um regime semelhante àquele que existe atualmente na Antártida, por exemplo.
“São terras de todos, mas depois há ali um pedacinho que é nosso”, acrescenta, remetendo para as várias bases internacionais que estão espalhadas naquele território. O exemplo da Antártida é pertinente porque, tal como a Lua, este continente “não tem dono” e existe um tratado em vigor para salvaguardar a exploração científica daquela região do globo, sem envolver forças militares. Sete países reivindicam partes do continente como sendo suas — como a Argentina, o Chile, a Austrália e o Reino Unido —, mas os Estados Unidos e a Rússia, por exemplo, não o reconhecem.
“É uma construção fictícia de uma realidade. Acabam por apropriar-se de um território“, continua Ricardo Conde. Fazendo uma comparação à época dos Descobrimentos, o responsável pela agenda espacial nacional diz que os norte-americanos podem chegar à Lua e definir o território como quiserem, se chegarem primeiro. “Ou podem fazer um espécie de Tratado de Tordesilhas“, brinca o presidente da Agência, referindo o documento histórico que dividiu o mundo ao meio para Portugal e para Espanha. Neste caso, o objetivo seria dividir a Lua entre a China e os EUA.
“Quando os americanos fizerem isto, estacionarem lá e estabelecerem os seus limites, podemos vir a ter um conflito aberto. Porque os chineses vão lá chegar — seja antes ou depois, mas vão fazer a mesma coisa. Mas para além deles, os indianos, os japoneses e os russos também querem ir. A bom rigor, é tal e qual o processo colonial“, descreve Ricardo Conde. “O mundo já se tornou pequeno para tanta ambição”, conclui.