“Decidimos morrer e queremos fazê-lo nas nossas próprias condições, seremos nós a empurrar o nosso caixão”. Só quem não conhece os Paus nem o seu percurso pode estranhar ver Quim Albergaria fazer uma declaração destas com o seu sorriso característico estampado no rosto. Ao longo de 18 anos, o quarteto traçou um percurso seguindo as suas próprias regras e que termina com Enterro, o derradeiro gesto artístico onde assinalam o próprio fim. Este sábado, na Casa Capitão, assistimos a um de vários velórios planeados para este ano, antes do derradeiro funeral. No entanto, desafiando a tradição do requiem, o que houve foi festa, e da boa.
A ideia de uma banda parar no seu auge por escolha própria não é nova. A história está repleta de exemplos agridoces, de The Police aos OutKast, de The White Stripes aos Daft Punk; em Portugal — não obstante as subsequentes reuniões — podemos citar os Ornatos Violeta, os Da Weasel ou os Silence 4. Mas nem pôr isso deixa de custar cada vez que acontece, de gerar “e ses”, de puxar pelo nosso lado mais egoísta de ter uma banda a fazer o que queremos e não o que eles bem entendem. Só que como cantam em YESS — tema de 2019 e um dos recuperados nesta noite —, Fábio Jevelim, Hélio Morais, Makoto Yagyu e Quim Albergaria são o que lhes apetece — e neste momento apetece-lhes parar.
Como admitiram em entrevista ao Público, os Paus decidiram acabar quase por desafio, quando a ideia de terminar surgiu primeiro como farsa e depois como tragédia: sugerida como piada face aos exemplos de bandas demissionárias que se arrastam anos a fio em tours de despedida, começou a ser levada a sério quando se aperceberam que a vida familiar, a atividade profissional e os outros projetos musicais de cada um estavam a cada vez mais a tornar impeditiva a continuidade da banda.


Em retrospetiva, já tinham começado a surgir sinais de que a banda poderia estar a aproximar-se do seu término. Desde a sua génese que o quarteto teve como filosofia rejeitar fazer música só porque sim, com cada lançamento a resultar de um processo e intenções próprias. Por isso mesmo, o anterior disco, Paus e o Caos, lançado em 2023, foi resultante de uma desconstrução o seu som com recurso a vários colaboradores externos, porque o conjunto não queria apenas lançar “mais um álbum” de Paus. “Chegámos a uma altura em que nós os quatro já tínhamos feito tanta coisa que acreditámos que se trouxéssemos mais pessoal, ia ser algo que dar-nos-ia mais pica de interagir musicalmente com a base de Paus”, afirmou Fábio numa entrevista da banda ao Observador.
https://observador.pt/especiais/paus-e-o-caos-em-todo-o-lado-ao-mesmo-tempo/
Talvez motivados pelo exercício de escrever a sua própria eulogia, para Enterro não precisaram de ninguém senão de eles próprios para assinar um trabalho tão bom quanto todos os anteriores, carregando tanta frescura quanto solenidade. Se com o arranque de Ficamos por aqui trouxe-nos os polirritmos saborosos e gingões a que nos habituaram — ainda que tingidos a cores agridoces por letras como “É pra parar / A gente fica por aqui” —, noutros momentos, como Dia feliz, chegamos a presenciar passagens com a fúria do pós-hardcore e até o peso do doom metal, ou o mantra repetido na melancolia psicadélica de Dá a bola aos putos.
Os sete temas deste curto disco foram todos tocados de seguida sem paragens, produzindo o efeito de uma suite orquestral que substituiu as cordas e os sopros pelo baixo carregado como betume de Makoto e os não menos carregados guitarra e teclado de Fábio, rodopiando melodias e descargas perante a força gravitacional da bateria siamesa de Quim e Hélio. “Um gajo achou que era uma boa ideia gravar uma música de 30 minutos, outros foram atrás. Esse gajo também achou que era boa ideia tocá-la ao vivo, os outros concordaram”, desabafou Hélio Morais em tom jocoso. Nem mesmo quando um funcionário da sala foi forçado a colocar um escadote em frente ao palco para desligar uma luz deficitária os demoveu de continuar a tocar, quais músicos do Titanic a manter a compostura perante o fim.


Esse momento central mais sério contrastou com tanto o início quanto o fim do concerto, quando a banda se apresentou descontraída, sem quaisquer pretensões, quando estava a tocar temas antigos, partilhando piadas com o público. “Se é preciso um gajo morrer para ver gente a dançar num concerto nosso, devíamos ter morrido mais cedo”, brincou Quim, que protagonizou também o momento insólito de ter-se esquecido de como se tocava Luzia Veneno e de ter tentado lembrar-se do ritmo entre canções, sem sucesso. No entanto, nos outros temas que apresentaram, os Paus mostraram a outra faceta tristonha do seu fim, ainda que involuntariamente: a de que seremos privados de ouvi-los daqui para a frente.
Com os seus gritos inspiradores vindos do longínquo primeiro EP da banda, Mudo e Surdo puxou logo pelo público para logo a seguir Madeira demonstrar cabalmente a mestria de juntar a profusão melódica do prog com a matriz hardcore que os marcou na forma como continuam a gritar o refrão. Esse mesmo talento foi demonstrado na sublime L123, tocada com a gravitas que se requer ao cantar sobre transportes públicos intermunicipais, ou Pelo Pulso, que fechou o concerto com a sua toada épica que nos mostrou desde logo ao que os Paus vinham em 2010. O público reagiu em conformidade, com dança, cabeças abanar e até um tímido mosh, mas acima de tudo com a energia partilhada de estar ali a presenciar aquele momento. “Não chores porque acabou, sorri porque aconteceu” é daqueles chavões que poder-se-ia aplicar, não tivesse sido sugado de todo o significado.

“Uma banda que não tinha nada para existir e que existe há 18 anos”, afirmou Quim Albergaria enquanto agradecia e apanhava uma rosa que lhe atiraram. Ao atingir a maioridade, os Paus decidem ficar por aqui, desfrutando de juventude eterna, e passando agora “a bola aos putos”. Como cantavam em Muito Mais Gente, de 2011, e oportunamente decidiram recuperar para Enterro, “o fim é um princípio qualquer”. No dia 21 de novembro estão de volta a Lisboa — feito o velório, venha então esse derradeiro funeral.