Portugal não falha por falta de ideias. Falha por falta de acordo.
Ao longo dos anos, o país foi acumulando diagnósticos, relatórios e propostas sobre praticamente todas as áreas estruturais. Sabemos o que está mal, sabemos o que precisa de ser feito e, muitas vezes, até sabemos como fazer. O que tem faltado, de forma sistemática, é a capacidade de transformar esse conhecimento em compromisso político duradouro.
Há áreas onde esta falha já não é aceitável. Fiscalidade, justiça e saúde não são campos de afirmação ideológica. São pilares estruturais de um país funcional.
E, no entanto, continuamos a tratá-los como se fossem território de disputa permanente.
Na fiscalidade, acumulamos complexidade, instabilidade e falta de visão. Penalizamos o investimento, sobrecarregamos o trabalho e mantemos um sistema que ninguém verdadeiramente entende, mas que todos sentem. O país não precisa de mais ajustes pontuais. Precisa de um compromisso político claro sobre o modelo fiscal que quer ser, simples, competitivo e orientado para o crescimento. E precisa, sobretudo, que esse compromisso sobreviva a mudanças de governo.
Na justiça, a realidade é conhecida e pouco discutida com a frontalidade necessária. A morosidade, a imprevisibilidade e a dificuldade de execução não são apenas problemas do sistema judicial, são entraves diretos à economia. Não há investimento consistente onde não há confiança na capacidade de resolver conflitos em tempo útil. Este não é um debate ideológico. É uma condição básica de credibilidade do país.
Na saúde, a discussão mantém-se presa a posições rígidas, enquanto o sistema acumula sinais de desgaste. A pressão sobre profissionais, a dificuldade de resposta e a crescente dependência de soluções alternativas mostram que o modelo atual precisa de ser repensado com pragmatismo. Não para substituir um extremo por outro, mas para garantir aquilo que realmente importa: acesso, qualidade e sustentabilidade.
O ponto comum é evidente: nenhuma destas áreas se resolve num ciclo político. Todas exigem continuidade, estabilidade e previsibilidade. E todas continuam reféns de uma lógica de curto prazo que impede reformas estruturais.
Portugal não precisa de unanimidade. Precisa de maturidade.
Precisa de um consenso alargado, assumido e duradouro sobre matérias essenciais. Um consenso que permita às empresas investir com confiança, aos cidadãos acreditar nas instituições e ao Estado funcionar com eficácia.
Continuar a transformar estas áreas em arenas de confronto é um erro que o país paga todos os dias, na sua competitividade, na sua atratividade e na sua capacidade de resposta.
Há momentos em que governar não é vencer o adversário.
E há momentos em que fazer oposição não pode ser, por definição, impedir que o outro avance.
Mas há, sobretudo, uma pergunta que os partidos políticos deviam ter a coragem de fazer:
defender determinadas posições por puro posicionamento eleitoral serve, de facto, o país?
Há matérias onde o único resultado aceitável é o país ganhar.
E talvez tenha chegado o momento de começar por aí.