Costumo dizer aos meus filhos que inteligente é aquele que aprende com os próprios erros. Mas mais inteligente ainda é aquele que consegue aprender com os erros dos outros, ou, melhor ainda, com os ensinamentos dos mais sábios. Infelizmente, quando olhamos para o comportamento recente do Partido Socialista, parece que nenhuma destas formas de inteligência está presente.
O primeiro exemplo é particularmente elucidativo. O partido entrou num processo interno de divisão quase autofágica, com várias figuras a manifestarem-se e a posicionarem-se para uma candidatura à Presidência da República, como foram, entre outros, os casos de Augusto Santos Silva e António José Vitorino. Em vez de um alinhamento estratégico e atempado, assistiu-se a uma luta interna desgastante, que fragilizou o partido e expôs publicamente as suas fraturas. Quando finalmente surgiu o apoio à candidatura de António José Seguro, esse apoio chegou tarde, demasiado tarde para ser relevante. A vitória que se seguiu deve-se, em grande medida, ao próprio candidato, à sua resiliência e consistência, e não a um partido que, na prática, nunca acreditou verdadeiramente nele.
Ainda assim, após o desfecho, muitos dentro do PS apressaram-se a reivindicar dividendos políticos de um resultado que não ajudaram a construir. Trata-se de um comportamento recorrente: distanciamento no risco, apropriação no sucesso. Uma lógica oportunista que revela mais tática do que visão estratégica, e que, a prazo, mina a credibilidade de qualquer organização política.
O segundo exemplo é igualmente preocupante. Aqueles que, num passado recente, não quiseram a liderança de José Luís Carneiro (e que contribuíram para conduzir o partido a derrotas eleitorais significativas) voltam agora a surgir como se fossem os legítimos intérpretes do rumo do PS. Figuras como Carlos César e Pedro Nuno Santos reaparecem no centro do palco político interno, assumindo posições de influência, como se o passado recente não tivesse existido ou não tivesse consequências.
Este ciclo de erro, negação e repetição é, talvez, o traço mais preocupante. Não se trata apenas de divergências internas — essas são naturais e até desejáveis em democracia. O problema reside na incapacidade de reflexão e aprendizagem. Um partido que não faz uma leitura crítica dos seus próprios erros está condenado a repeti-los. E um partido que repete sistematicamente os mesmos erros não evolui — estagna.
Mais do que uma questão de liderança ou de nomes, estamos perante um problema de cultura política. Falta ao PS uma verdadeira cultura de responsabilidade interna, onde os erros sejam assumidos, analisados e corrigidos. Em vez disso, prevalece uma lógica de sobrevivência de fações, onde o curto prazo e os interesses individuais se sobrepõem ao interesse coletivo e à construção de um projeto político consistente.
Num contexto político cada vez mais exigente, em que os cidadãos estão mais atentos, mais informados e menos tolerantes a incoerências, esta postura tem custos elevados. Não apenas para o partido, mas para o próprio sistema democrático, que depende de partidos fortes, responsáveis e capazes de se renovar.
Se o PS quiser voltar a ser uma alternativa credível de governação, terá de fazer aquilo que, até agora, tem evitado: olhar para dentro com seriedade, reconhecer os seus erros e aprender com eles. Caso contrário, continuará preso a um ciclo de irrelevância crescente, onde o passado pesa mais do que o futuro.
Porque, no fim, a inteligência política mede-se não pela capacidade de vencer batalhas internas, mas pela capacidade de aprender — e evoluir. E é precisamente isso que, hoje, parece faltar ao Partido Socialista.