Na quinta-feira passada, a 26 de Março, Noelia Castillo morreu em Barcelona. Tinha 25 anos. A história dela começa muito antes, e começa mal: o divórcio dos pais, a perda de custódia pela família, a colocação num lar do Estado para jovens vulneráveis, a violação colectiva nesse mesmo lar. A tentativa de suicídio: o salto no vazio, a lesão medular grave, os meses de reabilitação em que, contra todas as expectativas e com o pai ao lado a filmar e a animar, conseguiu voltar a andar com muletas, a subir escadas, a passear na rua. Os médicos chamaram-lhe um milagre. O pai chamou-lhe, carinhosamente, uma máquina. E depois, apesar de tudo isso, ou talvez por causa de tudo isso, veio o pedido de eutanásia: as dores neuropáticas, a depressão, a síndrome, seguido do diagnóstico de setenta por cento de incapacidade. Dois anos de batalha judicial em que o pai tentou impedir que uma vida destroçada desde a infância fosse convertida em dossiê encerrado. E finalmente, na tarde de quinta-feira, num centro de “saúde” de Barcelona, a morte administrada higienicamente, enquanto Espanha e o mundo assistiam estupefactos. O sistema que falhou em protegê-la quando era criança foi o mesmo que, por fim, lhe organizou a morte. A máquina funcionou na perfeição: formulários preenchidos, instâncias consultadas, tribunais alinhados, seringa preparada. Kafka teria reconhecido o processo. Orwell teria reconhecido a linguagem.
O fio que liga esta história a tudo o que este mês trouxe não passa pelos parlamentos nem pelas chancelarias: passa pelo interior do ser humano. O Luxemburgo votou inscrever na sua Constituição a liberdade de matar antes do nascimento. Depois da França. Não será o último. O Parlamento britânico descriminalizou o aborto até ao dia do parto. Um energúmeno arremessou um cocktail Molotov contra bebés junto à Assembleia da República em Lisboa. E a guerra, essa constante dos descendentes de Caim desde que há registo humano. Tudo isto confirma aquilo que a tradição cristã soube nomear desde o princípio e que a modernidade preferiu ignorar: o ser humano é capaz do mal. Não por acidente, não por falta de informação, não por defeito de sistema. A capacidade para a crueldade, para o abandono, para a instrumentalização do outro, é uma constante da condição humana. O Génesis enquadra-o: é o pecado original. Não é insulto, não é julgamento, é diagnóstico.
E o diagnóstico tem uma ilustração brutal logo na segunda geração humana. Caim entra no corredor da inveja, percorre-o até ao fim, e mata o irmão. Deus pergunta-lhe onde está Abel. Caim responde que não sabe, que não é guarda do irmão. É a mentira mais antiga da história para o abandono do próximo: não é problema meu. É o que o Estado disse a Noelia Castillo durante anos, enquanto ela crescia em lares que não a protegiam. É o que disse o legislador quando numa deliberação de menos de uma hora suprimiu o instinto de proteger o mais indefeso. É o que disse o energúmeno que acendeu a mecha na direcção de crianças que marchavam pela vida. É o que os descendentes de Caim repetem em cada guerra, em cada século, com armas diferentes, mas com a mesma resposta. É a recusa activa de reconhecer Deus no outro, aquilo a que a tradição chama endurecimento do coração, o caminho que leva ao pecado de que Cristo disse não ter perdão. Caim não morreu com Abel. Vive em cada geração, à espera de circunstâncias que o libertem.
O livro de Job existe precisamente para mostrar que há outra saída. Job perde tudo: os filhos, a riqueza, a saúde, a reputação. Os amigos que vêm visitá-lo propõem-lhe a única explicação que os consola a eles próprios: se perdeu tudo, é porque fez algo de errado. O sofrimento, na sua lógica, é sempre merecido, o que é uma forma muito cómoda de não ter de o acompanhar. Job recusa essa explicação, mas não recusa Deus. Lamenta, clama, interroga o silêncio com uma fé que não precisa de resposta imediata para se manter de pé. E é exactamente isso que o distingue de Caim: onde Caim age a partir da inveja e destrói, Job permanece a partir da confiança e suporta. A resposta, quando chega, não é uma explicação, é uma presença. Deus fala do meio do redemoinho, e Job vê. Não há teodiceia simples, não há fórmula que dissolva o sofrimento. Há um encontro. E depois do encontro, a restauração: Job viveu cento e quarenta anos depois da sua provação, viu os filhos dos seus filhos até à quarta geração, e morreu, como diz a Escritura, “velho e saciado de dias” (Job 42:16-17). A dignidade de Job não estava em nunca ter sofrido. Estava em não ter capitulado ao desespero, e em descobrir que Deus não abandona quem O procura mesmo no escuro.
Job resistiu. Cristo foi além: tomou sobre Si tudo o que Job suportou, e o que nenhum Job poderia suportar. Desceu ao fundo da condição humana, à morte, ao silêncio absoluto do sepulcro, e no terceiro dia destruiu a morte de dentro para fora. Isso é a Páscoa. Não uma metáfora de renovação primaveril, não um símbolo de esperança genérica. É a afirmação mais radical que a história humana conhece: que o sofrimento não tem a última palavra, que a morte foi vencida, e que o Bem triunfou sobre o Mal de forma tão completa que nem o túmulo ficou de pé. Uma pessoa entrou na escuridão e saiu com as chaves. O resto é consequência.
Para compreender o que está a acontecer no mundo, há quem se perca em teorias, analistas e modelos para cada crise. Basta ler o Apocalipse de São João. Leitores apressados tomam-no como catálogo de catástrofes. É o oposto: é a revelação do fim em que Deus vence, definitivamente, sem ambiguidade. “Vi um novo céu e uma nova terra… e enxugará dos seus olhos toda a lágrima, e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor” (Apocalipse 21:1,4). Definitivamente não é um texto para gente assustada. É um texto para gente que sabe como a história acaba e por isso vive o presente sem pânico. O lado certo da história está escolhido desde a manhã do próximo domingo. Isso não é consolo barato. É a única razão séria para não desesperar.
O Apocalipse não é, porém, uma cadeira de camarote. Cristo não deixou espectadores. Deixou-nos a regra de ouro com uma simplicidade que desconcerta precisamente por ser tão exigente: faz aos outros o que queres que te façam a ti (Mateus 7:12). Não é uma aspiração vaga. É o antídoto estrutural a Caim: obriga a ver o outro como sujeito antes de agir. É o que o Estado não fez a Noelia quando a colocou num lar e esqueceu. É o que o legislador não fez quando encurtou em quarenta e seis minutos um debate sobre vida e morte. É o que o incendiário com a garrafa de gasolina não fez aos bebés em Lisboa. Trata o outro como queres ser tratado. O resto, como diria qualquer rabino honesto, é comentário.
Noelia morreu na quinta-feira. Na manhã do domingo seguinte, há dois mil anos, o túmulo estava vazio. A coincidência é daquelas que não devem passar despercebidas.