Neste Domingo de Ramos podemos voltar a pensar na relação difícil que existe entre exuberância e consciência. Por um lado, sentimos o apelo da apoteose numa cena que, para todos os efeitos, ao aclamar Cristo entrando em Jerusalém, antecipa aquilo que será uma condição cósmica futura. Os excessos do Domingo de Ramos, nesta medida, não são tão excessivos assim e servem de aperitivo para quem espera pela segunda vinda de Jesus.
Por outro lado, e tendo em conta que muito provavelmente muitos dos que na altura participaram do acolhimento desta entrada triunfal terão participado também da rejeição do Mestre durante o seu posterior julgamento, pedindo pela libertação de Barrabás no lugar dele, há quem desconfie de tanta exteriorização. Portanto, há uma ambivalência histórica em dois milénios de cristianismo quanto ao Domingo de Ramos: pode cair-se no extremo de sobrevalorizar a festa, e pode cair-se no extremo de sobrevalorizar-se a sobriedade que desconfia dela.
Existe, por tudo isto e muito mais, a típica tensão religiosa em saber como conjugar os sinais externos e o sossego consciencioso. Dou um exemplo possível, vindo de um pobre colunista protestante num país católico: os leitores desconfiam do espalhafato dos evangélicos quando cantam e pregam, quando evangelizam nas ruas, ou quando destemidamente pedem dízimos, e eu desconfio dos santos e das imagens católicas, das formalidades persignadas dos sacramentos, ou das procissões que páram o trânsito, entre outras referências possíveis. Os católicos desconfiam das exteriorizações dos protestantes e vice-versa. E o mesmo se aplica aos momentos de silêncio. Ou seja, a devoção daquele que me é diferente tem a alta probabilidade de me parecer barulhenta quando devia ser silenciosa e silenciosa quando devia ser barulhenta.
Se quisermos ser sinceros, esta indecisão entre exuberância e consciência não se aplica apenas entre expressões diferentes de fé mas dentro da própria pessoa que a tem. Nem sempre é fácil saber como devo exprimir a confiança que tenho em Deus. Há muitos momentos que não são consensuais. Se é certo que há ocasiões em que louvar audivelmente me parece imperativo, outras há em que o silêncio me parece o mais sensato. Mas depois há as outras todas. Há até aquelas em que uma alegria pode ser abafada e uma dúvida amplificada. Recordo sobretudo que no livro dos Salmos há um espaço incrível para a exuberância do crente cheio de certezas, mas também há um espaço considerável para o crente que manifesta a ausência de muitas.
Haverá uma moral da história simples? Talvez não mas, ainda assim, arrisco uma: talvez não deva ser a alternância entre exuberância e consciência a fatiar a fé, mas talvez deva ser a fé a unir exuberância e consciência. Não deixa de ser significativo que, para os cristãos que seguem a Semana Santa com mais cerimónia, todos estes momentos façam parte do cardápio. Mas também é assinalável que se começa com exuberância para com exuberância terminar.
O Domingo de Ramos vai seguir-se de Segunda, Terça e Quarta que recordam sarilhos de Jesus com as autoridades religiosas, desde a purificação do Templo às perguntas constantes para o apanharem em falso. A Quinta do Mandato recebe-nos numa última ceia que igualmente nos baralha, entre momentos de antecipação da traição e declarações de amor abnegado na lavagem dos pés. A Sexta dá-nos o êxtase da tristeza, indo da captura vil à morte horrorosa na cruz. O Sábado é passado numa espécie de torpor para que, lá está, quando o Domingo chegue os pés nunca pisem os travões.
O Domingo de Ramos pede alegria. O da Páscoa também. Pelo meio há sobriedade que chegue. Vamos a elas.