Não gosto de generalizações, de forma que não vou aqui dizer que não há ciclista que saiba como se comportar no espaço público. Mas, a verdade é que se tornou perigoso andar nos passeios em Lisboa porque é cada vez mais provável acabar atropelado por um que ignora as ciclovias e que acelera no passeio. E buzina, o que é o cúmulo. E indigna-se quando não saímos da frente, o que é demais.
Gosto muito de andar a pé. É a pé que ando por Lisboa, excepto nas maiores distâncias em que uso o metro. O automóvel deixo-o para situações excepcionais, na falta de paciência para o pára-arranca. Ora, depois de anos à espera que os passeios ficassem livres dos automóveis, chegaram os ciclistas (e as trotinetes). A situação até piorou porque os automóveis no passeio não se moviam. Nada tenho nada contra as bicicletas, eu próprio tenho uma, e acho muito bem que se circule de bicicleta e de trotinete em Lisboa. Mas foi para isso que se fizeram as ciclovias. É para isso que elas existem. Assim, e por favor, usem-nas. E se não o fizerem por respeito dos demais, pelo menos façam-no porque se não o fizerem são multados pelas autoridades. Não usem os passeios, a estrada e as passadeiras conforme é mais conveniente. Quem é ciclista deve seguir regras próprias. Não estar na estrada com o privilégios dos automóveis, nos passeios e nas passadeiras com os dos peões.
Da mesma forma, parem no semáforo vermelho. Parem se estiverem na estrada, ao lado dos automóveis, e parem também se estiverem na ciclovia ou no passeio, ao lado dos peões. Parem por respeito aos outros; parem porque é perigoso para vocês (podem morrer atropelados e destruir a vida de alguém que não tem culpa pela vossa falta de cuidado, mas que carregará nos ombros, e na consciência, o fruto da vossa estupidez). E se nenhuma destas razões vos convencer a parar, parem porque se não pararem são multados pelas autoridades. E aqui a autoridades têm de actuar, Sr. presidente da Câmara, Carlos Moedas. Porque está na altura de proteger os peões em Lisboa.
Sim, multar, porque um ciclista não é um ser superior. Não é uma entidade abstracta. É qualquer um de nós que se senta numa bicicleta. Multar, sim, porque não podemos cair nesse discurso da idolatração pacóvia do ciclista que, no assento de uma bicla, se torna num deus impune a tudo e que tudo pode fazer porque tudo lhe é permitido, apenas e tão só porque andar de bicicleta é giro, é moderno, é cosmopolita, é ser amigo do ambiente, ou qualquer outra narrativa que se invente. Não há nada mais giro, moderno, cosmopolita e amigo do ambiente que andar a pé. Mas para isso precisamos de passeios. Desimpedidos e seguros.
P.S.: Hermann Huppen, que faleceu há dias, foi um dos maiores autores da banda-desenhada franco-belga. Desenhou Bernard Prince e Comanche, cujos cenários foram escritos por Greg, mas foi com Jeremiah (que desenhou e escreveu) que atingiu o seu auge: a crueza, a par de uma nostalgia poética em que as cores parecem fazer o desenho mover-se perante a delícia do nosso olhar. Prince, Comanche, Jeremiah fazem parte de uma arte de contar histórias que se está a perder. Fica a homenagem e um lugar de destaque na larga e variada estante de BD de minha casa.