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(A) :: A exaustão histórica da Europa

A exaustão histórica da Europa

Há quem julgue que esta é a atitude adequada para pacificar a hostilidade dos que persistem em nos ver como inimigos. Isso já não passa de impotência autoinfligida e desorientação abissal.

Miguel Morgado
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Sobre a fraude perpetrada pela Assembleia Geral da ONU com a aprovação da resolução de iniciativa do Gana, João Pedro Marques já disse tudo o que havia a dizer. É uma nova orientação do “direito internacional”, que na ONU faz escola há muito tempo, a de se proclamarem falsidades históricas e confusões éticas como novos princípios sagrados do progresso da Humanidade. A resolução declara que o tráfico transatlântico de escravos africanos foi “o mais grave crime contra a Humanidade” numa História universal recheada de crimes contra a Humanidade. O texto não demonstra, porque seria provavelmente impossível de demonstrar, como estabeleceu essa hierarquia de crimes num mundo cuja História é uma sucessão infindável de genocídios, extermínios, migrações forçadas e sofrimentos aterradores – em todas as civilizações e latitudes. Também ignora o facto histórico terrível de que a escravatura foi desde os primórdios uma instituição quase universal – desde os Chineses aos povos ameríndios pré-colombianos, passando pelos reinos africanos anteriores à colonização europeia.

A insistência na gravidade sem rival do crime tem de ser simultânea com o apagamento de outros crimes igual ou incomensuravelmente horríveis, que também envolveram tráfico de escravos africanos em, para citar as palavras da resolução, “magnitude, duração, natureza sistémica e consequências duradouras”. Assim definidos os requisitos, o milenar tráfico de escravos africanos pelo mundo árabe e islâmico preenchê-los-ia a todos. Mas a má-fé da resolução e de quem a apoiou tem um propósito político: estabelecer para os próximos dez anos o período das indemnizações aos actuais países africanos e às suas elites dirigentes, conhecidas por nas últimas seis décadas se terem entregado irrepreensivelmente ao bem comum dos povos que governam, sem corrupção, nem enriquecimento obsceno por todos os meios de exploração e extorsão de populações empobrecidas. Aliás, a invocação da escravatura e do colonialismo têm sido as esponjas com que se lavam todos os crimes, toda a corrupção, todos os atropelos à dignidade humana que o solo africano tem tristemente testemunhado. Essa utilidade é preciosa para as elites que beneficiam todos os dias de regimes iníquos e de sociedades injustas. Evidentemente, a resolução indica que as indemnizações serão pagas por aqueles países que “estiveram envolvidos” ou “beneficiaram” do tráfico transatlântico.

Pelo texto não se percebe, mas pela agitação compreende-se perfeitamente que é todo o Ocidente que tem de pagar, ficando por perceber se um dos países fervorosamente apoiantes da resolução, o Brasil, se juntará com o mesmo entusiasmo ao pagamento das indemnizações. Certamente que o Brasil não poderá alegar que não esteve envolvido neste crime indizível. E não me refiro ao Brasil português. Refiro-me ao Brasil independente, que mesmo após a escravatura e respectivo tráfico terem sido proibidos em Portugal, persistiu na prática por mais uns anos sem grandes remorsos.

Também não se percebe a quem os descendentes actuais dos esclavagistas africanos que forneceram os escravos traficados no Atlântico, Índico e rotas saarianas, devem pagar as indemnizações que lhes devem ser cobradas. Ou esses estarão excluídos, apesar de terem sido durante séculos parte imprescindível do horror do tráfico transatlântico de escravos?

É verdade que os patrocinadores da resolução e os seus apoiantes no mundo árabe, na China, na Rússia – que se entretiveram nos últimos séculos até muito recentemente a reinventar a escravatura com outros nomes para que ela não morresse definitivamente – não quiseram perder-se em minudências que complicariam a sua ofensiva política. Por exemplo, factos como o de que a Mauritânia apenas aboliu a escravatura em 1981 (sim, não é gralha, em 1981 –, e sem grande entusiasmo, já que só em 2007 o governo do país, sob intensa pressão internacional, passou a criminalizar a posse de escravos) seria relevante para quem quisesse compreender em toda a sua extensão a complexidade histórica da prática da escravatura. Mas não era esse o objectivo.

As contradições da resolução impressionariam até uma criança pequena. Mas ao ver-se potências historicamente esclavagistas que apenas abandonaram a prática e a instituição por pressão e repressão ocidental a usar o crime horrível da escravatura como arma de cerco ao Ocidente, percebe-se o que o futuro próximo trará. Nem a maioria dos Europeus, intoxicada por desinformação sistemática e alienada por ideologias de autodestruição, tem consciência de que esta foi a primeira civilização a censurar moralmente a escravatura, a primeira a declarar a sua incompatibilidade com um futuro de escravatura perpétua, e finalmente a mobilizar os seus meios políticos e militares para a extinguir nos seus territórios e no resto do mundo.

Sob a liderança de António Guterres, que apoiou entusiasticamente a resolução, incluindo as suas fraudes históricas e o programa político de forçar o Ocidente a pagar indemnizações, a ONU tornou-se uma liga de cerco e dissolução do Ocidente. Tornou-se uma agência da expressão do ressentimento mais incondicional e no instrumento de um longo desejo de vingança. Que a Europa tenha ido a correr abster-se nesta votação por cobardia e ignorância, revela bem o estado a que tudo isto chegou. A verdade dos factos e a sensatez moral deixaram de ser suficientes para determinarmos as nossas decisões políticas. Não sabemos o que somos, e, seguimos enredos ideológicos ignorantes e maliciosos, autênticas teorias da dissolução total, para justificar a nossa cobardia e desorientação espiritual. Nos governos europeus, a começar pelo português, há quem julgue que esta é a atitude adequada para pacificar a hostilidade de todos os que persistem em nos ver como inimigos. Infelizmente, isso já não passa de impotência autoinfligida e desorientação abissal.