(c) 2023 am|dev

(A) :: Socialistas travam a fundo na rutura com PSD. Mas querem Carneiro mais "firme" e "vocal"

Socialistas travam a fundo na rutura com PSD. Mas querem Carneiro mais "firme" e "vocal"

Carneiro prepara-se para sair do Congresso com um mandato claro para tirar consequências de acordo PSD/Chega no Tribunal Constitucional sem virar costas a reformas. Orçamento fica em aberto.

Rita Tavares
text
Diogo Ventura
photography

Há dois pontos assentes neste Congresso do PS: o partido não pode aceitar um acordo do PSD com o Chega sobre os juízes do Tribunal Constitucional; o partido não pode deixar de fazer parte das reformas do país. A dada altura, nas últimas semanas, as duas pareciam incompatíveis, mas no Congresso os socialistas coseram as posições numa, juntando-lhe ao mesmo tempo uma urgência: José Luís Carneiro tem de fazer uma oposição firme.

O líder do PS entrou neste Congresso pressionado a definir um rumo sobre o seu papel na oposição e a sua intervenção inicial deixou esse posicionamento pendurado. Mas no desenrolar dos trabalhos, os socialistas foram apontando caminhos e é praticamente unânime a ideia de não se tornar num bloqueador da ação do Governo. E começou logo pelo presidente Carlos César, que clarificou as contas logo na abertura dos trabalhos, depois de reeleito para o cargo com 89,9% de votos.

O que o líder não tinha deixado claro no dia anterior, o presidente acabou por esclarecer no sábado pela manhã. Disse que o PS não se “deve sentir diminuído por contribuir” para a governação e que o que o “deve mover” é “o bom Governo”. Usou outro argumento, ao defender que o partido deve continuar “a demonstrar querer ser parte da solução e não apenas parte da crítica”. A redução do PS a um partido de protesto é coisa que os socialistas parecem rejeitar.

https://observador.pt/2026/03/28/carlos-cesar-ps-nao-se-diminui-se-for-parte-da-solucao/

Ao Observador, até socialista normalmente mais crítica Mariana Vieira da Silva e que gostaria de ver o PS mais afirmativo na oposição assumiu que o partido, por exemplo, nunca terá “condições — nem é desejável — para dizer que numa eventual decisão sobre matérias de Defesa o PS está na oposição ponto final parágrafo.”

A versão de oposição de Francisco Assis é diferente, mas vai dar ao mesmo ponto de não rutura total: “As democracias precisam de uma classe média forte e, no plano político, que coexistam duas soluções de esquerda e direita moderadas que se respeitem uma à outra.” Para o eurodeputado, a “democracia precisa rapidamente de um entendimento entre os dois maiores partidos”.

Já o deputado e presidente do PS-Açores, Francisco César, considerou, na intervenção ao Congresso, que “o PS não é apenas um partido de oposição, é e está aqui para ser um partido de construção.” E a estratégia seguida por Carneiro parece vir, agora, com uma ligeira alteração, caso o PSD deixe mesmo o PS fora da escolha dos três juízes do Tribunal Constitucional: “Quem semeia ventos, colhe tempestades”. O que pode suscitar o mau tempo é que Carneiro não detalhou, mas teve alguns interpretadores entre os seus mais próximos.

“Nos últimos oito meses, o PS fez muitas propostas ao Governo. Uma vez que o PS não tem nenhuma coligação com o Governo, vai passar a dirigir-se aos portugueses. É o nosso interlocutor. O Governo escolheu com clareza o seu parceiro. O PS atuará em conformidade, disse André Moz Caldas em entrevista ao Observador sobre o mesmo tema. Mas também acrescentou que o PS “não deixará de ouvir, não baterá com a porta, não fará ruturas“: “Isso não é da natureza do PS. O que os eleitores do PS esperam é que o PS se comporte como uma posição responsável, construtiva, propositiva.”

Orçamento? “É coisa de adultos, exige responsabilidade”

O autor da moção política de Carneiro disse mesmo que “as condições estão a ser claramente postas em cima da mesa. Há muito tempo que não há tanta clareza para o diálogo político em Portugal. O que está em causa saber é: como é que o PSD se comporta no Tribunal Constitucional para sabermos em que condições o nosso diálogo continua.”

E, neste caso, o Orçamento pode vir a ser uma vítima — aqui a posição não é unânime –, com Moz Caldas a admitir, a dada altura da mesma entrevista, que “o PSD ainda está em condições e a tempo de rever a posição que assumiu. Mas uma coisa é certa: a manter-se esta situação, é preciso perceber que é ao Governo a quem cabe formar maiorias de estabilidade governativa, designadamente maiorias que aprovem orçamentos”.

Para Assis, a questão do Constitucional “não deve ter como consequência automática que o PS diga de antemão que vai inviabilizar Orçamentos e que vai contribuir ativamente para derrubar o Governo”, salvaguardou na entrevista que deu ao Observador durante a tarde. O vice-presidente da bancada do PS, António Mendonça Mendes, também disse que no caso do Orçamento trata-se de “uma coisa de adultos e exige responsabilidade.”

Sobre o mesmo assunto, Mariana Vieira da Silva, aliás, desejou mesmo que tudo fique clarificado bem antes de se chegar a esse tempo: “Julgo que o PS deve clarificar a sua posição, até para que depois em setembro [antes do Orçamento] não fique toda a gente muito surpreendida e que agora se possa pedir a responsabilidade que nos vão pedir a nós em setembro e outubro, também à AD”, disse na rádio Observador.

Culpa do afastamento constitucional é do PSD?

O atirar da responsabilidade para o lado de lá já tinha começado no discurso inaugural de Carneiro e parece ter feito escola, porque durante o dia de sábado, vários foram os socialistas que subiram ao palco para dizer que o ponto a que a situação chegou é de responsabilidade quase exclusiva do PSD. E o “quase” é de Francisco Assis, que vê algumas responsabilidade também na forma como PS tratou o PSD durante o costismo. De resto, os socialistas dizem que o problema começou no antigo adversário que é, ao mesmo tempo, um “parceiro constitucional” — como os socialistas gostam agora de lembrar para apelar à memória social-democrata nos últimos 50 anos.

“Hoje existe uma aliança entre AD e Chega em Portugal, talvez não formalizada, seguramente não assumida, mas politicamente, absolutamente, inquestionável. A direita quer transformar uma maioria conjuntural numa realidade estrutural tocando em matérias críticas na democracia”, acusou Francisco César durante a sua intervenção. Francisco Assis também apontou o dedo ao PSD na matéria dos juízes, pedindo ao partido de Montenegro que recue. “É de uma profunda irresponsabilidade. Se isso [esquerda com menos um juiz no Constitucional] acontecer, alterará radicalmente a relação entre os dois partidos.”

Eurico Brilhante Dias é um dos socialistas que acredita que isso já aconteceu no passado recente e disse-o em entrevista ao Observador este sábado, ao  lembrar que “o secretário-geral do PS sempre disse que não seria o PS a colocar o PSD nas mãos da extrema-direita”. “É o PSD, não por vontade do PS, que se entrega nas mãos da extrema-direita para governar”, concluiu sobre o posicionamento social-democrata, procurando isentar o PS de responsabilidades.

https://observador.pt/2026/03/28/brilhante-dias-diz-que-psd-corre-o-risco-de-ser-ultrapassado-pela-propria-extrema-direita/

Augusto Santos Silva discursou no mesmo sentido, ao dizer que “é o PSD que se tem recusado a dialogar. Tem de ficar claro nestes dias que a escolha do PSD tem consequências”. E ainda que “se o PSD quiser passear de braço dado com a extrema-direita na rua, a escolha é dele. Mas sabe que o PS estará do outro lado da rua. Se o PSD trair o chão comum da democracia, que é o seu ordenamento constitucional, os portugueses sabem que podem contar com o PS para o defender”, rematou o socialista que presidiu à Assembleia da República numa parte da governação socialista.

António Mendonça Mendes notou o  mesmo desequilíbrio da parte do PSD, descrevendo um governo que “passa o ano a aprovar leis com o Chega e no fim manda a conta para PS pagar aprovando o Orçamento.” E Alexandra Leitão vê uma “táctica” que “é clara” à direita” que passa por “acantonar o PS na extrema-esquerda e condicionar a sua atuação. Quando o centro político está tão enviesado para a direita, até o mais moderado dos sociais-democratas será um dia considerado radical”, argumentou, apontando como “grande desafio” do PS fazer com que “as pessoas voltem a confiar” no partido.

Já Mariana Vieira da Silva disse, no Observador, que o “’não é não’ já passou ao sim sem condições” e que,”na gestão de crises, a estratégia do Governo e do seu parceiro Chega é clara: semanalmente um dos dois criam um foguetório para distrair o país de promessas antes feitas e do problemas reais”, acusa a ex-ministra, argumentando que o PS tem de ser “vigilante, exigente e muito vocal” — e aqui introduz um outro tema que andou paralelo à problemática sobre o romper ou não romper com o PSD.

Firme, vocal, alegre, mais diferente. Os pedidos dos socialistas ao líder

“O PS deve ser um partido com uma oposição firme, mas uma oposição séria. Não devemos estar à procura, ainda que artificialmente, de razões para discordarmos.” Quem o disse desta forma foi Francisco Assis, na intervenção que fez do palco do Congresso. O eurodeputado considera que o PS não pode “aparecer aos olhos do país nem como um grupo de melancólicos ressentidos, nem como um grupo de resignados.”

E um dos dois autores da moção que causou algum impacto neste congresso — pelo grupo de socialistas que juntava — avisou em palco que “não basta esperar pelo desgaste do adversário” e  “oferecer uma versão ligeiramente diferente do que já existe” porque “as pessoas já não estão à procura disso”. Miguel Costa Mato disse ainda mais, que “o PS tem de escolher quais as áreas em que quer entendimentos e em quais quer ser oposição” porque “não dá para ser em todas e não dá para ser em nenhuma”. “O PS é candidato a governar o país e não candidato a parceiro do Governo”, concluiu.

Sofia Pereira, líder da JS, foi no mesmo sentido ao dizer que “um partido como o PS, que já mudou tanto Portugal, tem de responder à sua pergunta fundadora: quer limitar-se a ser responsável ou quer voltar a ser decisivo?” Não esperou pela resposta e acabou por dá-la logo, ao dizer que “um partido com esta história não pode resignar-se à gestão da estagnação e viver para a memória do que fez.”

Mas a verdade é que houve quem sentisse necessidade de ir ao púlpito fazer a defesa do legado socialista, caso de Mariana Vieira da Silva e de Ana Catarina Mendes, dois membros destacados do costismo no PS que não gostam de ver a governação dos últimos oito anos fora da lista de glórias do partido. Mas as duas têm também feito declarações públicas a pender para outro tipo de oposição feita pelo PS. Subiram ao palco para prosseguir nessa mesma linha, Ana Catarina Mendes para alertar que “é preciso que o PS volte a ter uma agenda para ter serviços públicos capazes de resolver os problemas das pessoas”, diz ainda, sublinhando a necessidade de “uma ambição para construir um país solidário”.

Mariana Vieira da Silva já tinha pedido mais afirmação da oposição socialista, nas declarações que foi fazendo antes do Congresso, nunca tendo disfarçado um espírito mais crítico em relação a Carneiro. Em entrevista ao Observador, durante o Congresso, a deputada socialista foi questionada sobre se encaixou os avisos do secretário-geral sobre críticos, e rejeitou ser o alvo. Mas aproveitou a deixa para, na sua resposta, acertar o passo do líder ao dizer que quando se acha “que num determinado tema devíamos ser um bocadinho mais vocais ou claros não significa que estejamos a pôr em causa ou a quebrar a unidade do partido”.

Não há problemas, assegura, mas e preciso mudar alguma coisa. O quê? Concentração na “dimensão oposição ao Governo” para que esta possa ter “um bocadinho mais de alegria”. João Torres, antigo secretário-geral adjunto, pôs o acento na necessidade de o partido fazer uma “reforma” e “ainda mais, muito mais, focar-se na reforma do país”.

Ana Catarina Mendes não foi tão direta, na tribuna, mas disse que “quando a democracia está a ser atacada são os socialistas que têm a responsabilidade de a defender, que não podem silenciar os ataques que são feitos à democracia”. Não deixa de ser uma outra forma de pedir ao líder que vinque uma posição neste momento. José Luís Carneiro vai ter oportunidade para isso na próxima semana, já que até quinta-feira os partidos terão de apresentar as listas de candidatos aos órgãos externos para a Assembleia da República e tudo se clarificará sobre de que lado foi deixado o PS. Por agora, os socialistas aguardam o fim desse capítulo, mas já em ebulição.