Mariana Vieira da Silva considerou que “não existem” sombras relativamente à liderança de José Luís Carneiro e que as diferentes vozes não significam “quebrar a unidade do partido”. Ainda assim, a ex-ministra da Presidência de António Costa acredita que é preciso “um bocadinho mais de alegria” na forma de fazer oposição do PS.
Questionada sobre a existência de várias vozes críticas da liderança de Carneiro, em entrevista ao Observador a partir do Congresso do PS, em Viseu, Mariana Vieira da Silva afastou qualquer possibilidade de sombras, argumentando que “se alguém se tivesse querido candidatar-se tinha tido a obrigação de avançar”.
“Na minha perspetiva, o PS está unido, o que não significa que esteja de acordo em todas as coisas, até porque se isso acontecesse não seria o Partido Socialista. Nunca aconteceu na nossa história, em nenhum momento, no Governo ou na oposição, haver um acordo global sobre todos os assuntos”, esclareceu, garantindo não ter dúvidas de que “o PS está unido, a trabalhar”, preferencialmente a “tornar mais eficaz o seu trabalho, depois de dois anos com muitas eleições”.
Recusou ter sentido o reparo de José Luís Carneiro, recordou que teve uma “discordância de fundo com o calendário que foi seguido” e garantiu que, fora isso, aquilo que diz aos microfones “não é nada que eu não diga ao secretário-geral do partido”. “Quando achamos que num determinado tema devíamos ser um bocadinho mais vocais ou claros não significa que estejamos pôr em causa ou a quebrar a unidade do partido”, assegurou, frisando que “não vê nenhum sinal que o PS não esteja unido” e pedindo que agora haja uma concentração na “dimensão oposição ao Governo” para que esta possa ter “um bocadinho mais de alegria”.
Depois de anos de governação, Mariana Vieira da Silva reconhece que o PS pode estar triste, considerando “normal haver uma espécie de desconforto com o lugar de oposição”. Regressa agora ao período pós-eleições para justificar que “foi muito importante, no seguimento das segundas eleições legislativas, o PS dar com clareza um sinal de que estava disponível para negociar” e garantiu que não critica a “estratégia das cartas”.
Porém, numa fase seguinte, e perante a falta de resposta de Luís Montenegro, Mariana Vieira da Silva considerou relevante que o PS procure “transformar as propostas em algo com mais apoio e de forma mais transversal, tal como fizemos em 2014”. Ainda assim, assumiu que é difícil fazer um “equilíbrio entre a dimensão construtiva e a dimensão de oposição”.
A dirigente socialista procurou deixar claro que “não é o Partido Socialista que está a escolher este caminho”, que “o PS não está a fazer uma rutura”. “Quem faz a rutura é quem, pelos vistos, e acreditando no líder do Chega, não é uma coisa na qual eu deposite grande confiança, há um acordo já fechado há muito tempo sobre este assunto. E o Partido Socialista não é envolvido numa conversa, não se retiram conclusões sobre, por exemplo, no Tribunal Constitucional, haver esta escolha?”, questionou, assegurando que “o PS nunca faria uma rutura dessa natureza”, colocando-se fora de todas as negociações.
Na opinião de Mariana Vieira da Silva, o rotundo não de José Luís Carneiro “deve ser sobre Tribunal Constitucional e revisão constitucional”. E explicou: “A relação de PS e PSD sempre foi sólida, de parte a parte, porque rejeitava propostas de extremos, se o PSD deixar de rejeitar propostas extremistas temos condições para ter o mesmo tipo de relação que sempre tivemos? Tenho dúvidas, senão estamos a legitimar as escolhas que estarão a ser feitas com o Chega”, argumentou.
Questionada sobre as comparações da geringonça, Mariana Vieira da Silva realçou que “há muitas diferenças”, designadamente o facto de, “desde 2014, isso estar escrito nas primeiras páginas da proposta política”. “Aqui disseram não é não, que nunca fariam essa aliança com o Chega”, recordou, dizendo que “vai crescendo o número de temas” em que PSD e Chega negoceiam.
“Julgo que o PS deve clarificar a sua posição, até para que depois em setembro [antes do orçamento] não fique toda a gente muito surpreendida e que agora se possa pedir a responsabilidade que nos vão pedir a nós em setembro e outubro, também à AD”, explicou, recusando “trocas que cheiram a chantagem, nem a decisões absolutas”.
“Prevejo que orçamento vá ser muito marcado por reconstrução dos território atingidos pelas catástrofes”, antecipou, reforçando que “as respostas dadas agora [pelo PS] não são irrelevantes” para decisões do futuro. “Luís Montenegro disse há dois anos não é não e neste momento não vivemos um não é não entre a AD e o Chega”, criticou, lembrando que há propostas na agenda do dia a dia que não fazem “parte de compromissos eleitorais da AD”.
Questionada sobre a moção setorial que pede que Carneiro saia de cima do muro, Vieira da Silva disse rever-se em “algumas coisas” da moção, mas não sabe o que se quer dizer com o “cimo do muro”. “Nunca teremos condições, nem é desejável, para dizer que numa eventual decisão sobre matérias de defesa o PS está na oposição ponto final parágrafo.”
“Portugal é o único país da Europa que, à primeira tentativa da extrema-direita, este tipo de escolhas de envolver juízes do Tribunal Constitucional, alterações de todo o tipo de legislação, não foi sequer tentada a existência de uma tentativa de haver acordos com o PS e não com o Chega. Somos dos poucos países onde a rejeição do extremismo não foi sequer tentada pelo partido de centro-direita. Nem nas presidenciais o PSD foi capaz de dizer com clareza”, acusou Mariana Vieira da Silva.
A ex-ministra do PS explicou que o PS deve ser “claro” e assumiu que é “difícil” dizer o dia ou o assunto para estabelecer um limite para o PS deixar de fazer uma oposição construtiva.