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(A) :: "A sua esposa não vai sentir nada e não se vai lembrar". Exposto site em que homens recebem formação para violar as próprias mulheres

"A sua esposa não vai sentir nada e não se vai lembrar". Exposto site em que homens recebem formação para violar as próprias mulheres

Principal categoria do site apresentado como de conteúdo pornográfico tem o título "Zzz" e agrega vídeos de mulheres inconscientes a ser abusadas. Homens trocam dicas de como drogar as companheiras.

Marina Ferreira
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Um homem filma-se a levantar as pálpebras fechadas de uma mulher para provar que ela está a dormir, sedada. Vídeos como este surgem assinalados na categoria “verificação ocular” no site pornográfico Motherless.com, e são alguns dos mais vistos na plataforma, chegando a ultrapassar as 50 mil visualizações por filmagem. Numa investigação da CNN Internacional, é revelado como este site servia de central para milhares de homens aprenderem a sedar e violar as próprias mulheres e namoradas, à imagem e semelhança do que Dominique Pelicot fez com a mulher, Gisèle Pelicot.

O site hospeda mais de 20 mil vídeos de conteúdo pornográfico associado ao sono, todos enviados pela comunidade de utilizadores que são simultaneamente consumidores das violações a mulheres vítimas de submissão química e que, no total, somam centenas de milhares de visualizações. Só em fevereiro, o site teve cerca de 62 milhões de visitas, sendo que o público principal está nos EUA e a categoria mais assistida tem o título “Zzz”.

De acordo com a investigação da CNN, que analisou o conteúdo do site e de outras plataformas, como grupos de chat, vários utilizadores anunciavam transmissões ao vivo, mostrando o abuso de mulheres drogadas em tempo real. Cobravam 20 dólares (cerca de 17 euros) a cada espetador, sendo que o método preferencial de pagamento era quase sempre a criptomoeda.

Além da partilha e visualização de conteúdo de agressão sexual a mulheres sedadas, no site principal e salas de chat derivadas deste, foi criada uma autêntica comunidade de partilha de dicas e de ensinamentos em relação a submissão química de mulheres. A CNN chega a chamar-lhe uma “escola de formação de violadores” onde se normaliza o abuso e há uma camaradagem perversa entre homens para conseguirem praticar os crimes sem ser apanhados pelas vítimas e pelas autoridades.

Um dos utilizadores do Motherless.com publicitava um negócio de venda e envio de “líquidos para dormir” para qualquer endereço no mundo. Dizia operar a partir de Ceuta e na sua conta de Telegram tinha à venda uma garrafa do líquido, sem sabor e sem cheiro, que custa 150 euros. Para aliciar os potenciais compradores, anunciava: “A sua esposa não vai sentir nada e não se vai lembrar de nada.”

Na investigação, a CNN expõe ainda três casos reais de mulheres que descobriram que estavam a ser submetidas quimicamente pelos companheiros de vários anos. Zoe Watts estava casada há 16 anos com o seu companheiro quando descobriu que este a drogava e abusava. Relata na reportagem o choque que sentiu quando o homem lhe confessou o que fazia com ela inconsciente há vários anos.

No caso de Gisèle Pelicot, o site usado por Dominique, o Coco.fr, em que este recrutava homens para a violar enquanto esta estava sedada na casa que os dois partilhavam em Mazan, França, deixou de estar ativo, com o seu fundador a ser acusado criminalmente de exploração sexual e tráfico de drogas, aguardando ainda julgamento.

Em relação ao Motherless.com, a Ofcom, reguladora de serviços de comunicação do Reino Unido, investigou este endereço eletrónico, não pelo conteúdo do site, mas pela sua empresa-mãe, a Kick Online Entertainment SA, sediada no Luxemburgo, por alegadamente não ter realizado uma “avaliação de risco de conteúdo ilegal adequada e suficiente”. A investigação foi encerrada depois de a empresa ter fornecido a documentação necessária e o site continua ativo, com a CNN a ter contactado os responsáveis pelo site e a não receber resposta desde então.