A propósito do cocktail molotov em Lisboa, a esquerda acusa a direita de aproveitar o episódio para fazer equivaler a violência de ambos os extremos políticos e, horror dos horrores, “normalizar” o extremo que lhe está próximo. À primeira vista, parece justo. À segunda, parece impossível.
Por muito que se ache razoável lamentar toda a violência, os factos mostram que esta praticamente só advém de um dos lados, e não é do lado direito. Além das “sensações”, com frequência inspiradas pela realidade, os relatórios da Europol sobre o terrorismo na União Europeia nesta década mostram que a extrema-direita é responsável por cerca de 3% dos atentados. Por extenso, para evitar gralhas: três por cento. A extrema-esquerda cometeu trinta e cinco por cento. E se lhe juntarmos a inspiração jihadista, cujos objectivos estratégicos a esquerda vai partilhando, os valores sobem aos cinquenta e tal por cento. Se se descontar os atentados restantes, que com generosidade a Europol atribuí ao “separatismo” sem ideologia explícita, constata-se que a “extrema-direita” não pesa em matéria de terrorismo na União Europeia. Vendo bem, é absurdo equiparar a violência dos extremos esquerdo e direito, na medida em que – juram as estatísticas – apenas um deles representa uma ameaça real.
Depois temos o dilema da “normalização”. Desde logo, há a dificuldade em tornar banal e aceitável um perigo que quase não existe. É complicado desvalorizar as patifarias da extrema-direita quando esta, pelos vistos, até comete muito poucas e uma pessoa tem um trabalhão para encontrar uma que seja. “Normalizar” o que é raríssimo é uma contradição em termos. Pelo contrário, “normalizar” o habitual não custa nada, e deve ser por isso que a violência da extrema-esquerda e dos jihadistas passa despercebida nos noticiários europeus. Hoje, atentar ou conspirar contra judeus, capitalistas ou, desculpem a redundância, “fascistas” é tão típico na Europa que devia ser incluído nas brochuras turísticas: “Amesterdão! Os canais! Os museus! A arquitectura! A forte hipótese de testemunhar ou protagonizar uma sessão de esfaqueamento por ‘activistas’ autênticos!” Mas evidentemente não é incluído nos telejornais.
A “normalização” da violência que não vem da extrema-direita provou-se, se necessário fosse, na microscópica relevância que o atentado de Lisboa mereceu da generalidade dos “media”. Um sujeito, de acordo com a PSP ligado a grupos “anarquistas”, preparou um explosivo, dirigiu-se ao local em que se adversários do aborto se manifestavam pacificamente e, com intenções um bocadinho menos pacíficas, lançou-lhes a engenhoca em cima. A incompetência ou o acaso impediram a engenhoca de incendiar uma quantidade indeterminada de inocentes, embora não tivessem impedido uma banho de gasolina a alguns. Nas televisões, o caso suscitou um décimo do destaque normalmente concedido a uma conferência do treinador Mourinho. Na classe política, que agora integra o presidente Seguro, provocou um razoável silêncio. Na esquerda, valeu condenações esparsas e tardias. Ou a referida, e obviamente indignada, lengalenga acerca da “normalização” da extrema-direita.
Este último truque é importado e conhecido: sempre que, na Europa ou nos EUA, um islâmico anima uma sinagoga aos tiros, o que comove a “ortodoxia” é o risco de aumento da “islamofobia”. E, todos se recordam, o principal risco dos atentados que não mataram Trump e do atentado que matou Charlie Kirk era sem dúvida o de incrementar a violência da “extrema-direita”. A violência da extrema-esquerda ou do jihadismo nunca são um problema em si mesmo, diz a esquerda, dizem os “media” e, aparentemente, dizem os sistemas judiciais dos membros da UE: apesar da imensa discrepância entre o número de atentados terroristas a cargo de ambos os extremos, a Europol informa que os presos por terrorismo à direita são o dobro dos presos à esquerda. E isto sem contar com os milhares de detidos por “discurso de ódio”, actividade que, conforme é do conhecimento público, constitui um exclusivo de conservadores, reaccionários e, portanto, “racistas” e xenófobos. Na retórica oficial e oficiosa, a esquerda é geneticamente incapaz de odiar.
Aliás, este terá sido o entendimento do nosso Ministério Público, que se limitou a indiciar o terrorista de Lisboa pelo crime de posse de arma proibida, e do juiz que o libertou em dois dias (o ódio, ainda que verbal, da extrema-direita dá dois anos de cadeia). O pobre homem, afinal, nem chegou a incinerar ninguém. E se tivesse incinerado, o “Expresso” já descobriu que afinal havia “extremistas” de direita na manifestação em causa, o que justificaria parcial ou totalmente o acto. No fundo, berrar slogans avessos ao aborto é por definição uma intolerável exibição de extremismo. Calar pelas chamas esses tresloucados seria pura moderação, quiçá uma bênção. No entender da escola de jornalismo onde o “Expresso” e a maioria dos “media” estudam, os manifestantes estavam a pedi-las. E o bom terrorista deu-lhes – ou tentou dar-lhes. De prémio, o juiz deu-lhe a ele a liberdade. A liberdade, excepto a de ter opiniões que desagradem ao “Expresso” e à maioria dos “media”, é fundamental.
Nota: esta coluna vai de férias nas próximas duas semanas. Regressa a 18 de Abril.