Segundo o léxico dos libelos da guerra fria, os “idiotas úteis” eram os ocidentais que, embalados por um certo idealismo benfazejo, serviam sem querer a cartilha soviética. A sua ajuda era especialmente grata ao bolchevismo, porque permitia que os desígnios moscovitas se insinuassem nos trâmites da respeitabilidade burguesa e arrebanhava, na trincheira oposta, discípulos mais ou menos involuntários, que não precisavam de ser convencidos do credo para se disporem a propagar a fé.
No tabuleiro político contemporâneo, a expressão encaixa especialmente bem nos prosélitos da nossa direita liberal e na servilidade que dedicam aos pontos da agenda “civilizacional” da esquerda. Não importa tratar aqui da ideia peregrina de que a direita é “tradicionalmente” liberal na economia, como se ela tivesse vindo ao mundo com a ínclita geração Thatcheriana, ou como se a questão social, desde oitocentos, só se tivesse glosado com a enxada da cooperativa socialista. Nem cabe esclarecer que a rejeição do liberalismo ideológico é perfeitamente compatível com a rejeição do despesismo irresponsável, ou com receitar o emagrecimento do Estado moderno em prol de uma arrumação subsidiária da sociedade. Interessa-nos apenas notar que, hoje, nenhuma sensibilidade ideológica será tão útil ao projeto esquerdista de esfrangalhar a sanidade social como a dos nossos amestrados liberais.
Um bom exemplo disso foi a posição da IL sobre os projetos de lei apresentados pelo PSD, CDS e Chega contra a lei n.º 38/2018 – a lei que, entre outros regalos vanguardistas, abriu as portas à “mudança de sexo” de menores – e contra a sujeição de adolescentes a procedimentos “médicos” irreversíveis, hormonais e cirúrgicos, incluindo a esterilização farmacológica e a mutilação dos órgãos sexuais. O partido liberal chumbou tudo isto em nome das “liberdades individuais” e de “tirar o Estado” da vida das pessoas e das famílias. Confirmou, assim, que a sua compreensão da liberdade é inconciliável com a limitação da vontade de um menor que se convence de que só será feliz se submeter o seu corpo a sevícias irreparáveis.
Vivemos, hoje, na ressaca dos delírios ideológicos do “género”, que tanto animaram o primeiro quartel do nosso século. Descontando os ativistas mais ensandecidos, que são sempre os últimos a perceber que as suas causas já se estafaram, são cada vez menos as pessoas que ainda acreditam ser prudente deixar um adolescente retalhar o corpo em razão da “identidade de género” ou de qualquer outro estado de espírito. Não interessa, por isso, perder tempo a explicar a fabulosa incoerência de quem invoca a liberdade individual para desimpedir a auto-mutilação de género e, ao mesmo tempo, não autoriza que uma criança afogue a sua ansiedade em opiáceos.
O que este caso tem de interessante é outra coisa, que já sugerimos: a utilidade dos nossos libérrimos liberais para os desidérios da esquerda, que, curiosamente, talvez por causa do nosso passado recente, é a fação política que mais empenhadamente os execra.
A esquerda tem a seu favor o facto de ter uma convicção quase histérica nas suas ideias. No parlamento, nas redações e nos estúdios de televisão, @s seus paladin@s esbravejam acusações de “genocídio”, “fascismo” e fantasias quejandas. Ora, a força com que alguém acredita nalguma coisa é muitas vezes suficiente para nos convencer da sua verdade, ou, pelo menos, para nos persuadir de que não convém muito contrariá-la. A “direita liberal” é, na contenda política, a presa perfeita deste fenómeno: complexado por mil lados diferentes – seja pelo velho salazarismo, cuja memória industriou a nossa intelligentsia a suspeitar sempre dos valores da direita, seja pelas “conquistas de Abril”, que tornam qualquer renitência à engorda burocrática num “retrocesso civilizacional”, seja pelas agruras do “passismo”, que anatematizaram o mais módico esforço reformista –, tudo serve de palmatória para o pobre (e geralmente rico) liberal.
Bom aluno que é, aprende rapidamente a abreviar o seu contributo para o bem comum em duas ou três linhas de excel, oferecendo à comunidade uma afinação cirúrgica do IRC ou um apaixonado apelo à privatização da TAP. Mas quando se vê obrigado a escolher entre, de um lado, a proteção dos mais vulneráveis e o elementar senso comum, e, do outro, o mais recente experimentalismo revolucionário, encolhe-se e murmura: “cá eu sou pela liberdade”.
É uma pena, que há entre os nossos liberais muita gente capaz. O que torna especialmente trágico que continuem incapazes de resistir ao doce balanço da marcha do progresso arco-íris, mesmo quando esta avança a toque de um carniceiro bisturi.